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A
Palavra da Mulher é sagrada como a terra” frase
proferida pelo Cacique Aniceto Xavante na Conferência
de Mulher Indígena e Meio-Ambiente/1991/promovida
pelo Grumin. ( foto da reunião de mulheres indígenas)
Compromisso com a
Cultura e Espiritualidade Indígenas
A
coisa mais bonita que temos dentro de nós mesmos é a
dignidade. Mesmo se ela está maltratada. Mas não há
dor ou tristeza que o vento ou o mar não apaguem. E o
mais puro ensinamento dos velhos, dos anciãos, partem
da sabedoria, da verdade e do amor. Bonito é florir
no meio dos ensinamentos impostos pelo poder. Bonito
é florir no meio do ódio, da inveja, da mentira ou
do lixo da sociedade. Bonito é sorrir ou amar quando
uma cachoeira de lágrimas nos cobre a alma! Bonito é
poder dizer sim e avançar. Bonito é construir e
abrir as portas a partir do nada. Bonito é renascer
todos os dias. Um futuro digno espera os povos indígenas
de todo o mundo. Foram muitas vidas violadas,
culturas, tradições, religiões, espiritualidade e línguas.
A verdade está chegando à tona , mesmo que nos
arranquem os dentes! O importante é prosseguir. É
comer caranguejo com farinha, peixe seco com beiju e
mandioca. É olhar o mar e o céu. E reverenciar os
mortos, os ancestrais. É sonhar os sonhos deles e vê-los.
É conviver com as "manias de cabôco",
mesmo sufocados pela confusão urbana ou as ameaças
agrestes, porque na realidade são as relações mais
sagradas de nosso povo, porque são relações com a
terra e com o criador, nosso Deus Tupã. Bonito é
vestir os trajes do Toré e honrar-se como se vestira
os trajes dos reis e senti-los como a expressão máxima
das relações entre o homem , a terra e Deus. É
sentir o sagrado e o universo. O importante é crer e
confiar mesmo que na noite anterior violaram nossa
casa ou nosso corpo. É preciso ouvir os velhos, o som
do mar, dos ventos. É preciso a unidade entre as famílias,
por isso pedimos a Tupã que nos proteja e dê um
basta ao sofrimento secular de nosso povo comedor de
mandioca. Pedimos à força superior, que nossos
pensamentos se elevem aos mais profundos planos
sagrados da espiritualidade indígena, junto aos
velhos, aos curandeiros, aos velhos pajés apagados
pelo poder, mas renascido como FORÇA, pela consciência
do povo. Pedimos que nossos espíritos se elevem ao
mais sagrado da sabedoria humana e receba a irradiação
do amor, da paz e do conhecimento à todas as nossas
cabeças indígenas e de outras etnias e povos,
transformando todo pensamento discordante ,
conflituoso em pensamento de paz, que construa a
unidade entre todos os seres do planeta Terra.
Que possamos construir a partir de agora, uma grande
frente de energias, apoiada por todos que lêem esse
compromisso, para garantir a dignidade de povos
abandonados , condenados à extinção.
Não! Não podemos admitir a derrota. Há jovens,
crianças sorrindo, há mar, há sol, há esperanças.
Há espiritualidade! Basta que soltemos as amarras do
racismo impostos ao nosso subconsciente, esse inimigo
que divide o nosso povo.
Abramos a porta. Entremos. Nossos velhos nos esperam
para a cerimônia da paz e da luz inquebrantável.
Um grande marco se está colocando aos anciãos, aos
guerreiros, nossos avós, nossas mães, defensores
eternos da terra e da natureza.
Vamos
meu povo, elevemos nossos pensamentos à Tupã e
abramos o nosso coração na "Oração pela
Libertação dos Povos Indígenas", pelos 300
milhões de indígenas que habitam o planeta terra. E
pensemos na frase sábia do cacique Xavante Aniceto:
" A palavra da mulher é sagrada como a
terra".
Eliane
Potiguara
Textos do livro “METADE CARA, METADE MÁSCARA”
Global editora

Pele de Foca
A
luz se abriu e a minha pele de foca voltou a se
umedecer.
Minha pele estava seca pelas vicissitudes da vida. Eu
mergulhei nas profundezas dos
mares e reencontrei com minha avó-foca, com minhas
sagradas ancestrais e os velhos guerreiros que também não
se envergonhavam por suas lágrimas.
Elas_ sabiamente_ me contestaram e me mostraram que eu,
inconsciente e pacificamente, aceitava os padrões éticos
impostos pela intolerância da sociedade , e voltei com
minha alma fortalecida, voltei com meus
sonhos definidos, voltei com minha intuição
extremamente clara, precisa,
determinada. Minhas costelas não estão mais
descarnadas, a carne voltou a
crescer depois que os homens derramaram suas lágrimas
pelas mulheres do mundo e eu não sou mais uma mulher
esqueleto, jogada ao fundo do mar, como se fôra um
sapato velho, pela cultura impostora. Sou uma mulher de
fibra, porque eu me
reconstruí por mim mesma, depois de dançar
desvairadamente na vida com meu iludido
sapatinho vermelho. Quase perdi os meus pés, as ervas
daninhas enrolaram neles pra que nunca mais caminhasse
pelas estradas do saber, da consciência e do mais alto
grau da espiritualidade indígena, mas pude dominá-los
e arrancar
esses malditos sapatinhos vermelhos das chamadas
“MULHERES E MÃES BOAS-DEMAIS"!!!!!! que
por serem assim, vivem sufocadas pelo peso da história
e da opressão e quando vislumbram uma
“semi-liberdade", uma ilusão, a
Pseudo-liberdade, se perdem
nos terríveis sapatinhos vermelhos da cultura
falsamente iluminada, que escamoteia o poder, o
preconceito, o racismo. Meu ego , não pode ser mais
forte que minha alma. Minha alma é ancestral, meu ego não
pode dominar minha verdadeira história. Faço agora um
acordo entre meu ego e minha alma. Minha alma é
primeira , é forte
é intuitiva; ela é ética, pra não dizer pura, minha
alma é terna, eterna
amante, indígena. Mas meu ego, condicionado pela
cultura dominante, me leva para a escuridão terrena,
celestial, marítima,onírica e filosófica. Conduz
minha auto-estima para os porões. Não mulheres do
mundo! Não aceitemos mais. Não, não, não, não, não!
Meu ego não pode ser mais forte
que minha alma, meu ânima, minha essência de mulher
selvagem, indígena, essencial à preservação digna do
planeta e dos seres humanos. Basta de violência. Nós
somos lobas. Somos músicas que ecoam no etéreo.
Nós somos focas. Nós somos Humanidade e sabemos o que
é digno pra nós. Nossa pele de foca brilha de novo. Ouçamos
definitivamente nossas velhas e velhos.
Eliane Potiguara
Textos do livro “METADE CARA, METADE MÁSCARA”
Global editora

Identidade
Indígena
Em memória ao índio Chico Sólon
O
texto é o testemunho das lágrimas de uma indígena
vendedora de bananas, sua avó a refugiada Maria de
Lourdes de Souza, filha do índio Chico Sólon,
desaparecido das terras indígenas paraibanas por volta
de 1920, quando se instalava ali, a neocolonização da
agricultura algodoeira causando a fuga de famílias indígenas,
oprimidas pela escravidão moderna.
Nosso
ancestral dizia: Temos vida longa!
Mas caio da vida e da morte
E range o armamento contra nós.
Mas enquanto eu tiver o coração acesso
Não morre a indígena em mim e
E nem tão pouco o compromisso que assumi
Perante os mortos
De caminhar com minha gente passo a passo
E firme, em direção ao sol.
Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro
Carrego o peso da família espoliada
Desacreditada, humilhada
Sem forma , sem brilho, sem fama.
Mas não sou eu só
Não somos dez, cem ou mil
Que brilharemos no palco da História.
Seremos milhões unidos como cardume
E não precisaremos mais sair pelo mundo
Embebedados pelo sufoco do massacre
A chorar e derramar preciosas lágrimas
Por quem não nos tem respeito.
A migração nos bate à porta
As contradições nos envolvem
As carências nos encaram
Como se batessem na nossa cara a toda hora.
Mas a consciência se levanta a cada murro
E nos tornamos secos como o agreste
Mas não perdemos o amor
Porque temos o coração pulsando
Jorrando sangue pelos quatro cantos do universo.
Eu viverei 200, 500 ou 700 anos
E contarei minhas dores pra ti
Oh!!! Identidade
E entre uma contada e outra
Morderei tua cabeça
Como quem procura a fonte da tua força
Da tua juventude
O poder da tua gente
O poder do tempo que já passou
Mas que vamos recuperar.
E tomaremos de assalto moral
As casas, os templos, os palácios
E os transformaremos em aldeias do amor
Em olhares de ternura
Como são os teus, brilhantes, acalentante identidade
E transformaremos os sexos indígenas
Em órgãos produtores de lindos bebês guerreiros do
futuro
E não passaremos mais fome
Fome de alma, fome de terra, fome de mata
Fome de História
E não nos suicidaremos
A cada século, a cada era, a cada minuto
E nós, indígenas de todo o planeta
Só sentiremos a fome natural
E o sumo de nossa ancestralidade
Nos alimentará para sempre
E não existirão mais úlceras, anemias, tuberculoses
Desnutrição
Que irão nos arrebatar
Porque seremos mais fortes que todas a células cancerígenas
juntas
De toda a existência humana.
E os nossos corações?
Nós não precisaremos catá-los aos pedaços mais ao chão!
E pisaremos a cada cerimônia nossa
Mais firmes
E os nossos neurônios serão tão poderosos
Quanto nossas lendas indígenas
Que nunca mais tremeremos diante das armas
E das palavras e olhares dos que “chegaram e não
foram”.
Seremos nós, doces, puros, amantes, gente e normal!
E te direi identidade: Eu te amo!
E nos recusaremos a morrer
A sofrer a cada gesto, a cada dor física, moral e
espiritual.
Nós
somos o primeiro mundo!
Aí
queremos viver pra lutar
E encontro força em ti , amada identidade!
Encontro sangue novo pra suportar esse fardo
Nojento, arrogante, cruel...
E enquanto somos dóceis, meigos
Somos petulantes e prepotentes
Diante do poder mundial
Diante do aparato bélico
Diante das bombas nucleares
Nós,
povos indígenas
Queremos brilhar no cenário da História
Resgatar nossa memória
E ver os frutos de nosso país, sendo dividido
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e “desplazados”
Como nós.
Eliane Potiguara
Textos do livro “METADE CARA, METADE MÁSCARA”
Global editora
FIM DA INTOLERÂNCIA INTERSECCIONAL
A
humanidade buscou sem resultados, por séculos e séculos,
os vários deuses fora de si mesma, inclusive aquele
sentado no universo e governando o mundo. A humanidade
criou diversas filosofias, dogmas, “juízos de
valor” sobre essas criações. Mas aquele que
compreendeu que Deus está dentro de si mesmo e que
todo ser humano é um deus em ação, responsável por
cada ação boa ou má que pratica, esse sim, está
mais próximo da verdadeira tolerância, do respeito
pela opinião e do respeito pela percepção sobre as
escolhas que seu próximo possa ter e, aceitá-las.
Imagens, cerimônias, mitologias, liturgias, símbolos
são conseqüências das criações, não fazem mal a
ninguém.O que faz mal é a pretensão de querer ser
melhor que os outros ou ser o dono da razão, quando
existe uma grande diversidade de pensamentos entre a
humanidade.E o melhor caminho para a reflexão sobre
isso e outros temas é a concentração, o estudo, a
experiência e a compreensão.Quando concentramos
nossa mente se ilumina.Brota o respeito.Ela se
transforma numa estrela e os que estão no escuro, na
ignorância e na teimosia tentam dilapidar essa luz.
Precisamos
encontrar na prática a unidade na diversidade a
partir da observação e concentração.
A
força do universo a que muitas pessoas falam quando
se referem e identificam Deus, nada mais é que a força
da gravidade que rege as chuvas, as cachoeiras, as marés,
as torrentes, as lavas dos vulcões, as águas dos
rios. O caminhar constante e certeiro dos planetas e
das estrelas que giram em torno deles é a grande força
magnética que rege o universo.O nascer e o morrer dos
entes vivos é o ciclo natural da vida, para que a
alma se fortaleça. Seres humanos estão conectados a
essa gravidade e magnetismo da Terra, respectivamente.
Se estamos conectados com toda essa força por questão
da Física
e se somos Deus em ação, então somos UM.
O
planeta inteiro fala em um mundo mais justo, em paz e
amor ao próximo neste final de ano, mas a justiça
começa dentro de nós, quando todos procuram-na do
lado de fora. A evolução e re-volução devem começar
dentro do indivíduo, porque Deus já deve estar
dentro de nós.
O
pensar mal e o falar mal dos outros é um dos piores
defeitos quando o indivíduo não utiliza a autocrítica.
Isso é intolerância e começa assim mesmo, de forma
simples, um e outro falando mal do próximo. É a
emissão do juízo de valor.O monstro começa a
crescer dessa forma até chegar a ponto de violência
em que estamos vivendo, nas cidades e nos campos, nos
países ocidentais e orientais.A riqueza de uns é a
pobreza de outros. A má qualidade de vida dos seres
humanos resulta das relações do poder econômico e
político implantados nos Estados.
A
má qualidade de vida destrói as próprias vidas. A
natureza destrói a vida de quem não tem qualidade de
vida, porque suas vidas não têm segurança,
saneamentos, pilares altamente fortalecidos para
impedir a força brutal na natureza, quando ela vem.
Por acaso, a força da natureza destrói os palácios,
as igrejas douradas, as mansões, os castelos
empedrados? Ou destrói as humildes casinhas e pastos
dos despossuídos? Não é Deus que destrói, é a
intolerância que não une os seres viventes para uma
melhor qualidade de vida.Quem destrói é o
fundamentalismo econômico e social que impinge o
estado de miséria e pobreza.
O
autoconhecimento passa pela observação/concentração
a si mesmo e à natureza envolvente, o
autoconhecimento passa pela autocrítica.Quando se faz
uma análise de comportamento se começa por si mesmo,
e não por teorias complexas, tratados sociais,
teorias políticas ou teses. Olhar para si mesmo é
ser um analista político altamente nato. Se conseguir
analisar-se bem, saberá desenvolver uma magnífica
consideração teórica, seja um erudito ou um
analfabeto. Será um brilhante sociólogo ou
comentarista popular.Concentrar-se em si: este é o
lema, mas veja bem, não é um egoísmo sobre si
mesmo. É um concentrar analítico, com sabedoria e
paciência de determinados velhos e velhas, que se
capacitaram através dos séculos, pela observação e
concentração, seja em qualquer cultura, sendo que
tal característica é mais presente nas culturas
ancestrais e indígenas. Por isso o velho pajé
observa e se cala, para depois agir pacificamente pelo
bem étnico.
A
intolerância de qualquer natureza é a responsável
pelas discriminações sociais, econômicas, políticas
e raciais. A intolerância intergrupal, a chamada
intolerância ou subordinação interseccional é o
racismo cultural, que também bloqueia o crescimento
da humanidade, porque ele está aflorado dentro das
famílias, dentro das casas, até entre irmãos de
sangue, ou entre o homem ou mulher, retratando as
desigualdades de gênero, incluindo a questão do
homossexualismo.A inveja intergrupal, interpessoal que
destitui um conhecimento, para ali se alocar uma ignorância
prepotente, atrasa o processo de amadurecimento das
mentes. A intolerância intersecccional é a pior
categoria, ao meu ver, pois divide as lutas e atrasa o
processo histórico de libertação e enfraquece o
grupo comunal.Enfraquece toda uma luta, que muitas
vezes estaria à beira da vitória. E o inimigo, o
poder maior, joga com as intolerâncias intergrupais:
as picuinhas, as divergências e as ganâncias.
A
“intolerância maior” sempre foi mais fácil de se
identificar.Está claro para todos. É o racismo dos
nazi-fascistas contra judeus, dos brancos contra
negros, dos brancos contra indígenas. São as intolerâncias
religiosas e das grandes potências que matam,
discriminam, violentam, causam guerras. Sobre essas
intolerâncias as pessoas dizem que isso não tem nada
a ver com elas. Por isso considero a maior injustiça,
as intolerâncias interseccionais. São aquelas que
estão conosco no nosso dia a dia, enraizada, porque a
“intolerância menor” está entranhada nos corações,
nos olhares de ciúmes, nas pequenas competições e
assim, o self selvagem, o deus que somos_ pois o temos
dentro de nós_ se enfraquece. Os indivíduos não
querem se separar dessas intolerâncias por comodismo,
por inconsciência, conivência ou insensatez. Sempre
são os outros. Sempre os outros. Nós não enxergamos
a nossa própria intolerância. A culpa está sempre
nos outros, não é assim, durante séculos e séculos?
Somos intolerantes dentro de um grupo, e nosso/as
comparsas sentem vergonha de denunciar um fato e o máximo
que fazem é apenas espernear, revidar ou aceitar a
submissão. É assim que a “intolerância maior”
enfraquece os seres humanos.O homem e a mulher
oprimidos enfraquecem seu Deus interno. Assim, seu
Deus que já está fora de seu interior, sentado num
trono no Olimpo, distante de si mesmo se enfraquece, e
o indivíduo luta para alcançá-lo, almejá-lo,
quando ele mesmo já o possuía, quando ele cultivava
a força interior. Deus está distante, e o ser humano
se sente um aniquilado, assim como na história de uma
mulher indígena que levou um tiro do marido no olho,
ficou cega desse olho e preferiu calar-se, para
esconder o erro do homem na sociedade maior, como vi
num documento recente.Isso é subordinação
intersecccional.
Essa
é a minha mensagem de final de ano. Que em 2005
possamos enxergar as nossas próprias intolerâncias,
sermos UM_ Deus e o indivíduo. Assim estaremos mais
fortalecidos para a luta maior: a luta de classes, a
luta contra a discriminação social e racial no mundo
inteiro! Conclamo nesse 2005 que todos os que lerem
esse texto, mesmo que sejam nobres, a
retomarem o mergulho dentro de si e buscar
aquele ultimozinho ranço, amarras de alguma intolerância
que pensávamos estar aniquilada!A re-volução começa
dentro de nós.
Texto
de Eliane Potiguara
30/12/2004
A MULHER INDÍGENA E O ATO DE CRIAÇÃO
DEPOIS
DA ANGÚSTIA E O DESESPERO, O ATO DE CRIAÇÃO: a cura
!
O
ato de criação é um ato de amor. Amor a si mesmo,
amor ao próximo, amor à natureza. Seja criar um
texto, uma música, uma pintura, uma criança ou
qualquer outra arte. Mas para chegar-se até aí,
muitos caminhos foram bloqueados, muitas águas
envenenadas tivemos que tomar; muitos fantasmas
tivemos que enfrentar. Permanecemos como um rio que
morre, que não corre e não ecoa ao encontrar-se com
as pedras. Nos tornamos uma fome desesperada pelo
novo, se enfraquecendo a nossa fecundidade. Enfim um
caminho árido e infértil. Tivemos enclausurados
dentro de nós mesmos. Mas não agüentamos mais e
damos um basta! É hora de criar pacientemente
o novo!Assim aconteceu com o povo indígena Guarani do
Brasil, quando no período da colonização pelos
espanhóis no século XVI e XVII, não quis mais
procriar, nem mais cantar e nem mais criar. Queriam
jogar-se do alto do penhasco a si e toda sua família,
numa demonstração de resistência contra a escravidão,
colonização e racismo.
Pacientemente
soltamos as amarras que sufocam a nossa alma, o nosso
"ânima", a nossa essência para que os pássaros
possam cantar de novo dentro de nosso espírito.
Parece tudo muito simples. Mas não é.
Reencontrar-nos com nosso ser selvagem, com nossa
intuição, com nosso ser sutil, com nossos ancestrais
indígenas com nossa força interior é um desafio diário,
principalmente quando a força externa impõe
condicionantes sociais, psicológicos, político-econômicos
maléficos,como por exemplo, a destruição de nossa
cultura, nossa espiritualidade indígenas, destruição
essa que lança as sementes da enfermidade da
alma e que lá na frente se transformam em
enfermidades da mente e do corpo. Nosso corpo pode
estar doente, porque nossa alma o está, pois o
impacto social, político, cultural à nossa
biodiversidade em todos os níveis, à nossa
propriedade intelectual é enorme. E temos
que buscar a cura do espírito, a cura do anima.
Somente nós mesmos podemos fazer isso, assim como
somente nós mesmos, podemos sentir o ato do
nascimento, quando nascemos, e ato da morte, quando
morremos. São atos só nossos. Ninguém pode
senti-los. Somos solitários neste momento. Por
isso quando morre um parente indígena, seus pertences
são todos depositados em sua tumba. Sozinho ele
precisa partir. Assim, cada um de nós temos que lutar
pela sobrevivência e auto-determinação política e
social. E o fortalecimento de cada indivíduo, forma o
feixe coletivo, para a mudança social.
CRIAÇÃO,
CULTURA DA PAZ E DA ÉTICA INDÍGENAS
Nos
tempos atuais, é hora do desafio. Extirpar o monstro
que nos mata no dia-a-dia é dura tarefa. Primeiro se
sofre calado. Há os que se acostumam com a dor, a
opressão e a repressão social e política,
desembocando no desequilíbrio ou na loucura como nos
descreve o escritor argelino Franz fanon em"Os
Condenados da Terra", quando situou a ditadura na
Argélia. Mas há os que clamam, depois de invernos. Há
os que berram ! Neste momento, abre-se uma porta. A
mudança dentro de nós só se dá, quando
identificamos o inimigo interno (às vezes o inimigo
somos nós mesmos ) e o rejeitamos, seja da maneira
que for.Em nosso caso a CRUZ E A ESPADA colonial
no passado, e imperial, hoje. Então podemos
parecer loucos, mas no ato de "vomitar" é
que está a transformação do espírito para o novo
homem, para a nova mulher ! Sofremos e não estamos
aqui para sofrer. Tupã oferece grandes dádivas de
vida para seus filhos, senão não existiriam
tantas belezas, tantos mares, planícies, céus,
montanhas, pássaros, seres humanos, ad infinitum... E
quando o homem selvagem e a mulher selvagem gritam
dentro de nós querendo voltar para a casa primitiva
é chegada a hora da mudança. Atente para significado
de selvagem e primitiva que nada tem a haver com
historiografia, mas sim com interior humano, âmago,
essência espiritual, ser sutil, a casa da alma,
ancestralidade e espiritualidade indígenas. Quando
perdemos os tesouros do Divino, do mágico indígena e
ficamos desnudos, damos um basta, é chegada a hora da
criação. Ficamos quietos, sentimos solidão, solidão
que parece que mata, que maltrata, mas necessária. E
entramos em outras esferas superiores e sagradas. Esse
selvagem sagrado que foi resgatado e que já estava
dentro de nós e não sabíamos, está também nos
"recriando" e nos enchendo de amor e nos
fortalecendo. Nasce a criatividade. E renascemos. E
florescemos para o futuro. O processo de criação
emana de algo que surge e que vai crescendo em nosso
âmago, é como um novo amor em nossos corações. Vai
crescendo e não temos rédeas para segurá-lo. É um
vulcão. É a (r) evolução do espírito. É o êxtase.
É o insight para o novo ser humano"(a)".
Por isso, o número de indígenas no Brasil está
crescendo, segundo as estatísticas, 700 mil hoje, e
ressurgem povos inteiros resguardados dentro de seu
medo, pipocando com sua consciência, após terrível
processo de exterminação e crime organizado à sua
identidade e cultura. São os quilombolas, de
afro-descendência, são os povos ressurgidos,
massacrados e calados ao longo dos séculos, são os
indígenas amazônicos, nordestinos que migraram
das suas terras indígenas por ação do
colonizador e que foram empurrados para o racismo e
violência das pequenas e grandes cidades
brasileiras.Nossos povos sobreviveram ao peso da
colonização, do racismo, da intolerância civil e
religiosa!!!!!
E
esse único ato de ressurgimento que é um ato de criação
é o suficiente para alimentar um oceano, assim como o
leite doce e materno de uma jovem mãe é o suficiente
para trazer de volta um ser nascido prematuramente. No
ato da criação se dá a purificação do espírito,
do "ânima", da alma e consequentemente a
purificação do corpo e a extirpação de velhos
tumores, velhos fantasmas... impostos pela cultura
racista e o poder. Toda a opressão política ao nosso
povo indígena, nos conscientiza para um novo momento
e para uma resposta ao exercício de nossos Direitos
Humanos e Indígenas.
O
processo anterior à criação - o sofrimento, o coração
endurecido, por sermos testemunhas de nossa própria
opressão, o " ânima" esfacelado - é
agora neutralizado e transformado em pó, diante da
grandiosidade da BUSCA pela transformação e purificação
do espírito, incentivado pela luta pelo resgate
cultural e espiritual. Tudo isso é simplesmente
política, a política da existência. CRIEMOS, então...
sob qualquer enfoque, porque a criação é
um ato divino que tende a mudar consciências, formar
opiniões, suavizar o individualismo que ronda às
mentes.E nesse processo vamos construindo a cultura da
paz e da ética de nosso povo, primeiras nações
do planeta terra, ameaçados há seculos pelo poder bélico,
pelos grupos de poder e interesses nacionais e
internacionais.q
E
a mulher indígena que passou por toda a sorte de
massacres, estupros coloniais e neo-coloniais, ao
longo da história do Brasil, condicionadas ao medo e
ao racismo, sobrevivem porque são criativas, xamãs,
visionárias, curandeiras, guerreiras e guardiãs do
planeta. Seu inconsciente coletivo ancestral
refloresce a cada ato de criação delas, porque elas
são capazes de beijar as cicatrizes do mundo, num ato
de caridade, não humilde , mas guerreira e
criativa!!!
E
a palavra da mulher indígena é sagrada
como a terra que dá o alimento ao próximo, alimento
da CURA em todos os sentidos.
Texto
de ELIANE POTIGUARA, ESCRITORA INDÍGENA BRASILEIRA
CUNHATAÍ, A MENINA SAGRADA CONTRA O SUICÍDIO
Quando
Cunhataí era criança, ouvia os espíritos da mata,
ela via a mãe das águas. Os sonhos eram o seu
direcionamento. Sua clarividência era ancestral.
Cunhataí tinha o poder da cura. Onde colocava as mãos,
o bem se fazia. Sua mãe, insatisfeita com as invasões
dos estrangeiros, tomou erva má, para que a semente
que ouvia o espírito da mata, morresse. A erva fez
muito mal à pequena Cunhataí; não a matou, tirou um
pedaço dela... A mãe desesperançada com sua aldeia,
não queria mais as coisas do espírito, negava a
terra e a raiz. Ela queria o suicídio. Mas a avó da
menina era mais guerreira. A mãe ficou cega e muda.
Tempos depois a mãe renasceu da mudez e da cegueira
por uma prova divina e se tornou pajé, sacerdotisa
das águas. E
a triste avó, cansada das dores, do peso do tempo e
do sacrifício, morreu.
Mas sua essência permaneceu. O homem branco,
naquela época ria e incutia maus valores em alguns
membros do povo... A semente ferida e mutilada nasceu
triste e com uma estrela no olho direito. Era Cunhataí.
Foi o lado direito que quase morreu. Só ficou roxo
como uma marca, um sinal e... Sobreviveu para ouvir os
espíritos, os antepassados e as velhas mulheres
enrugadas pelos séculos. Sobreviveu para compreender
o significado das três velhas, cujas seis mãos se
transformam em cobras. O velho espírito disse a
Cunhataí: Vai ave-menina e mulher! Cria asas e
enxergue, um dia, quem sabe, seremos livres! Ela foi
pra longe sofrer. Por isso quando ela retornou à sua
aldeia de origem, o cacique, a pajé e os segmentos do
povo a reconheceram, porque ela já era esperada por
decisão dos ancestrais, há muitos séculos. O seu
olho direito roxo_ o espiritual_ foi identificado
pelos líderes conectados com a ancestralidade e pelo
pitiguary, o pássaro que ANUNCIA. Os que não
reconheceram estão muito além, mas muito além de
qualquer tipo de compreensão do que seja essência,
transcendência indígena. Estavam cegos, por isso traíam
seus próprios conterrâneos e incentivavam a discórdia,
a inveja, a mentira, a intriga, a luta pelo poder e
desconheciam o verdadeiro sentimento de paz,
solidariedade, amor ao próximo, companheirismo e
cooperação, por isso muitas meninas sofriam. Foram
contaminados pelo poder dos neocolonizadores. Só
vislumbravam o materialismo, por isso não podiam
perceber os sinais dos deuses, dos ancestrais, do
Grande Espírito_ a Poderosa Força Cósmica_
existente dentro de todas as boas almas. Mas Cunhataí,
em toda a sua vida seguiu o boto e as ordenações de
seus sagrados ancestrais. Muitas mulheres indígenas
que ouviram a história de Cunhataí, desenvolveram um
útero sadio, porque entendiam que a cosmovisão indígena
estava sagradamente vinculada a Mãe-Terra. E começaram
a trabalhar e a lutar para melhorar as condições de
vida do povo. Ninguém mais se suicidou, porque o amor
e o respeito prevaleciam nas famílias, entre o homem
e a mulher. A palavra fome nunca mais se ouviu naquele
povo, quando também os homens perceberam o mal que
haviam adquirido.
Cunhataí
deixou a mensagem para que todos os homens e todas
mulheres prestassem bem a atenção nos seus sonhos e
deles fizessem seus caminhos a partir do respeito
pelos velhos e velhas e pelos ancestrais e pelas boas
relações de igualdade e respeito entre homens e
mulheres!
Texto
de ELIANE POTIGUARA
Y ELLA CONCIENTE CRIA ALAS
Estabamos
alli... Todos pintados y pintadas, como si fuesemos
para la guerra.
Quando
pasabamos por los corredores del Congresso Nacional,
en Brasília, en 1988, en ocasión de las atividades
políticas que conducian nuestra lucha dentro de la
Asamblea Constituyente, las voces hacian un eco y las
palmas de las manos batian estridentemente.
Varias
formas de bocas, dientes y sonrisas. Pero un mismo
corazon pulsaba: La esperanza de que esa Asamblea
Constituyente viniese a traer avances para la garantia
de los derechos humanos de los pueblos indígenas. Las
señoras y los señores ejecutivos, funcionarios,
parlamentares, todos nos miraban de la cabeza a los
pies admirados y curiosos como si fuesemos seres de
otro planeta, pero con cariño, ciertos de desconocer
la propia realidad de su pais. Estabamos emocionados y
emocionadas. Todos se emocionaban, los ojos brillaban
como estrellas y esta emoción se mesclaba al olor del
café de la cantina del lado, a los lindos dibujos indígenas,
y al olor de la pintura de jenipapo en la cara, al
olor del aceite de la castaña de Pará, y al olor del
rojo urucum que untaban y abrillantaban los largos
cabellos de los Kaiapós, liderados por Megaron y
Raoni. Las miradas de los guaranies y el mirar sabio
de la índia Dona Marta, llenos de esperanza que
titilaban apretados en la capital del país. El mirar
de lince de los Terenas y Tukanos mostraban la
esperanza por las decisiones. Miradas desconfiadas de
los indígenas del Nordeste questionaban el futuro,
por sus pajas bravas resecadas por la seca del monte.
Las mujeres miraban sobresaltadas, pero resueltas.
Marta estaba ahí. Hoy esta muerta la primera mujer
indígena en tener el coraje de criar una Asociación
de índios sin aldea: Kaguateka. Marta queria ser
Diputada por el Partido de los Trabajadores (PT). Algún
partido político apoya indígena en el Congreso?, en
el Senado? Algún partido político, sea de derecha o
de izquierda, apoya indígenas para la Presidencia de
la Fundación Nacional del Indio (Funai)? Un dia la
FUNAI va a ser de los indígenas, es una questión de
tiempo, como dice Marcos Terena. Antônio Apurinã, líderes
de la Coiab y Apoime esperan la "palabra del
Gobierno", confian, y en el mismo momento, un
no-indígena asume la Presidencia de la Funai, el, (el
recien-Presidente) .El no va a conseguir hacer nada,
absolutamente nada.
Cuando
Marta Guarani y todas las mujeres pioneras que allí
estaban junto a los
hombres en 1988, apesar de los esfuerzos y
esperanzas, estaban creyendo en los políticos. Ahora,
2004, poco
se avanzó en lo referente a las conquistas.
Indígenas
brasileras, asuman sus lugares. Llegó la hora!!!
Que
MARTA GUARANI descanse
en paz, así como todos los guerreros y guerreras que
ya se fueron sin ver sus derechos asegurados. Estos
derechos, en un gobierno mas sensíble, de inmediato,
veria que es hora
de una política compensadora, reparadora. ES UNA
QUESTIÓN ÉTICA, PRIORITÁRIA E HISTÓRICA.
Texto
de Eliane Potiguara
EL SECRETO DE LAS MUJERES
En
el pasado nuestras abuelas hablaban fuerte
Ellas
también luchaban
Ahí,
llegó el hombre
blanco malo
Matador
de índio
E
hizo nuestra abuela callar
Y
a nuestro padre y a nuestro abuelo bajar la cabeça.
Un
dia ellos entendieron
Que
debian unirse y quedar fuertes
Y
a partir de ahí ellos lucharon
Para
defender su tierra y cultura.
Durante
siglos
Las
abuelas y las madres escondieron en la barriga
Las
histórias, las músicas, los niños,
Las
tradiciones de casa,
El
sentimiento de la tierra donde nacieron, las histórias
de los viejos
Que
se reunieron para fumar la pipa.
Fue
el mayor secreto de las abuelas y de las madres.
Los
hombres al saber del secreto
Quedaron
mas fuertes para el amor, lucharon
Y
protejieron las mujeres.
Por
eso, hombres y mujeres juntos
Son
fuertes
Y
hacen fuertes sus hijos
Para
defender el secreto de las mujeres.
Para
que nunca mas aquel hombre blanco
Mate
la história del índio!
(Texto
publicado en la cartilla de apoyo a la alfabetización
de autoria de Eliane Potiguara/1994/apoyo Unesco/UERJ)
MANIFESTO DA MULHER INDÍGENA
Discurso
proferido por ocasião do Dia Internacional da Mulher
Câmara
Municipal do Rio de Janeiro,onde várias mulheres serão
homenageadas com um moção especial, por ocasião do
lançamento do livro do Vereador Pedro Porfírio
“Sem medo de falar do aborto e da paternidade
responsável”
Estávamos
tod@s lá em 1988, no Congresso Nacional, pintados e
pintadas como se fôssemos para a guerra. Passávamos
pelos corredores, e vozes ecoavam e palmas batiam
estridentes. Várias formas de bocas, dentes e
sorrisos dirigiam-se a nós. Estávamos felizes porque
construíamos a Constituinte de 1988. Nossos olhares
ao futuro eram esperançosos para que nossos filhos e
netos kaiapós, guaranis, Tikunas, Potiguaras,
Terenas, Krenaks, Pataxós, e de muitas outras nações
indígenas pudessem ter seus direitos humanos
assegurados naquela Constituição tão bem redigida e
uma das mais avançadas do mundo!!!
Éramos estrelas naquele momento!
Não
acreditávamos que o neoliberalismo reforçaria a
pobreza e a exclusão social, acentuando cada vez
mais as desigualdades sociais, fortalecendo a
descriminação racial, étnica e de gênero. Não
acreditávamos naquele momento que os interesses
antiindígenas, cada vez mais se fortaleceriam contra
nossos direitos e que hoje o substitutivo do Estatuto
do Índio estaria engavetado no Senado Federal.
Enquanto
isso as mulheres indígenas Yanomami ainda são objetos
sexuais dos militares em Roraima, ou mão-de-obra
escrava em Mato-Grosso ou no Nordeste brasileiro.
Chega-se
à crítica conclusão que não existem estudos ,
cifras, estatísticas que documentem as maneiras de como
as mulheres indígenas estão sendo ameaçadas, violadas
em seus direitos humanos e de que maneira elas possam
estar se extinguindo a partir da mortalidade materna, da
mortalidade por violências físicas, por conflitos
culturais, por migração de suas terras indígenas e
por conflitos políticos que ameaçam suas vidas, suas
famílias e o direito ao território indígena e sua
cosmovisão.
Suicídios,
invasões de terras, estupros, doenças e diversos
outros males sociais que atingem aos povos indígenas
passaram a ocupar espaços na grande imprensa,
registrando o estado de abandono em que se encontram
as pessoas indígenas, primeiras nações deste país!
A
violência, a intolerância
e o racismo aos direitos indígenas, se
arrastam por muitos e muitos anos e séculos. Essa é
a base da discriminação.
Que se
constitua um inquérito a partir de estudos antropológicos
baseados em histórias e testemunhos, para que se
consiga resgatar a dignidade e cidadania dos povos indígenas,
dos Povos Ressurgidos e dos Quilombolas. Nossa dor não
pode ficar nas vitrines. Os gritos sufocados
pela política neoliberal não podem fazer-nos calar.
A esmagadora maioria de famílias indígenas
violentadas que continuam em aldeias indígenas ou que
formaram parte das famílias desaldeadas ou
desestruturadas permanecem oprimidas, por pressão política,
social e econômica ou
por desconhecer os seus direitos humanos.
Esse
tipo de violência e racismo,
a migração dos povos indígenas de suas áreas
tradicionais, merece um estudo e essa situação está
invizibilizada no país, assim com a situação das
mulheres indígenas no Brasil, que sofrem abuso, assédio,
violência sexual, que se tornam objeto de tráfico
nas mãos de avarentos e degradados nacionais e
internacionais.
Os
conflitos entre povos e poder no mundo inteiro tem
causado, migrações, "desplazamientos” (povos
obrigados a deslocar-se e a fugir por algum motivo,
sejam guerras locais ou guerras internacionais,
conflitos de raça, etnia). Muitas consciências já
se levantaram contra essa situação e principalmente
contra as conseqüências destes deslocamentos de
povos de seu habitat natural, constituindo-se no
chamado racismo ambiental. Por isso o fenômeno Povos
Ressurgidos, lideranças ou famílias indígenas que
ressurgem nas cidades ou vilarejos,que se levantam
pela consciência de quem são elas na história dos
Povos Indígenas do Brasil. Muitos organismos das Nações
Unidas têm tratado deste ponto com considerável atenção,
mas ainda está aquém. E as mulheres e as crianças são
as mais atingidas neste caso. Sobre as mulheres indígenas,
a violação aos seus direitos humanos as tem
conduzido às mãos de homens corruptos que as seduzem
por um prato de comida, por programas, promessas
eventuais que confundem o universo feminino, pois tais
mulheres têm origem numa cosmovisão, valores, tradições
totalmente diferentes do mundo urbano, envolvente e
masculino. Recentemente um chefe indígena no Brasil
Central, passou
por uma situação
muito humilhante entre os parentes de seu povo.
Sua esposa partiu com um comerciante
local, estranho à sua etnia.
As mulheres indígenas em suas comunidades são
iludidas pelo encantamento e as condições da
sociedade envolvente, haja vista centenas e centenas
delas saírem
de suas casas para a insegurança das cidades próximas
ou as grandes cidades. Isso constitui
tráfego de mulheres. A maioria vai ser
empregada doméstica como mão -de obra- quase
escrava, como o depoimento da índia Deolinda Prado
dado ao Grumin há quase 20 anos atrás, o que motivou
a criação do primeiro núcleo de apoio a empregadas
indígenas em Manaus. As mulheres indígenas também vão
trabalhar como operárias mal remuneradas ou trabalhar
nas grandes plantações dos latifundiários, num
sistema de cativeiros, trocando seu trabalho por latas
de sardinha e nunca conseguindo pagar sua dívida com
o contratante. Ou vão morar com homens sem caráter
que as transformam em objeto de cama e mesa e
submetidas às agressões físicas e parirem dezenas
de filhos para viverem
miseravelmente nas casas de palafitas na Amazônia,
dentro e fora do Brasil ou sobreviverem em favelas
contaminadas, moral, social, política e fisicamente.
Muitas vezes, trabalham somente pelo prato miserável
de comida ou por um pouco de farinha de mandioca.
Atualmente, com o apelo
da comunicação de massa, muitas meninas e
adolescentes indígenas querem projetar-se nos loiríssimos
símbolos sexuais das grandes redes de televisão.
Atual modelo de beleza brasileira que deixa os homens
enlouquecidos. É o que acontece com centenas de
mulheres indígenas que se dirigem a Manaus, a Belém,
a Boa vista, a Recife, à Brasília, a
S. Paulo, ao Rio de Janeiro, e demais Estados
do Brasil, para tornarem-se,iludidamente, essas
insinuantes mulheres
da mídia e tornando-se prostitutas. O sistema
político que deveria garantir o direito territorial
dos povos indígenas, a preservação cultural e sua
dignidade, não o faz. Os povos,
há séculos, sobrevivem num clima constante de
insegurança, onde não se sabe se aquele local onde
estão enterrados seus mortos, serão o território de
seus futuros filhos!!!! Outra forma de tráfego de
mulheres indígenas é constatar a presença delas nos
prostíbulos, nas zonas de baixo meretrício onde
vendem seus corpos por migalhas, contraindo Aids,
outras doenças ou criando futuras crianças sem
futuro, famintas ou aidéticas.
Os
instrumentos jurídicos internacionais resultantes das
Cumbres, das Conferências Internacionais organizadas
pelas Nações Unidas estão aí para serem aplicados
pelos governos. Mas a cada vitória da população
oprimida do mundo, é uma nova batalha para que os
governos ponham em prática os direitos conseguir
As
demandas dos Povos indígenas como a inclusão da
denominação “Povos Indígenas” nos documentos
oficiais, a solicitação da ratificação do Convênio
169 da Organização Internacional do Trabalho(OIT), a
solicitação de espaços de participação, cotas e
inclusão da questão indígena nos Conselhos, nos
Ministérios , a demarcação
e homologação das terras indígenas Raposa
Serra do Sol e outras polêmicas terras, a reivindicação
de um Estatuto do Índio que parta da realidade atual
dos Povos Indígenas e outras demandas, são exigências
que os NÓS - POVOS INDÍGENAS-
temos feito em todos os Fóruns nacionais e
internacionais, principalmente no Grupo de Trabalho
sobre Povos Indígenas das Nações Unidas que
trabalha a DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS INDÍGENAS
.
E
sobre a questão de GÊNERO, a
luta tem sido dobrada pelo preconceito,
desconhecimento, desinteresse
dos envolvidos
tornando a situação das mulheres indígenas
no Brasil cada vez mais invisibilizada e excluída.
Texto
de Eliane Potiguara
VI UM INDIOZINHO ESCORRENDO PELO BUEIRO
Vi
um indiozinho escorrendo pelo bueiro. A metade de seu
corpo superior debruçava-se sobre o meio-fio da rua e
a outra parte inferior jazia cansada, escorrente pelo
esgoto urbano. Imediatamente, lembrei-me do quadro de
Salvador Dali, retratando um relógio de pulso
desconstruído em sua forma original, mas reconstruído
de forma que o relógio obedecesse às formas roliças
do punho humano. Me vieram à cabeça diversas imagens
derretidas deste pintor surrealista, desconstruidor da
formalidade e convencionalidade sociais, políticas e
humanas. Mas o indiozinho estava lá se derretendo e
eu tive vontade de me derreter junto a ele pelo ralo
planetar, mas não pude. Seria covardia de minha
parte!
O
menino de 10 anos,_ um indiozinho urbano, desse tipo
que a intolerância e o paternalismo sociais ignoram e
invisibilizam,_ compunha o triste
quadro da miséria humana.
E se
sua mãe pestanejar pelos direitos humanos, como
alimentar-se pelo menos, o paternalismo analisará:
“quem mandou sair de sua aldeia, quem são seus
pais, seus avós, nós não lembramos dessas histórias?!!
De vítima do processo social e racial passa a
oportunista. Essa índia não pôde ficar na sua
aldeia e esperar o “Paralelo 11”, versão 2004,
ela fugiu antes!
O
último censo do IBGE
registrou um aumento da população indígena,
considerando os indígenas desaldeados e
indiodescendente. Isso é um primeiro passo. Mas,
enquanto isso o
indiozinho
continuava lá, sucumbindo às lágrimas. Seu corpo
magro e sujo amoldava-se às formas do paralelepípedo.
Sua cabeça reclinava sobre o chão imundo e seu pés
mostravam os ossos aos “abutres”. Eu nunca vira
uma cena como essa. Nessa noite eu não dormira. Nem
na Índia eu vira cena tão agressiva à minha ética.
Lá, choquei-me ao ver os Dalits (os intocáveis), que
sobreviviam raquíticos, famintos, desconsiderados em
estações de trem desativadas. Os Dalists eram mais
felizes do que aquele indiozinho, sabe lá Deus, de
que aldeia veio! E sua mãe ? Onde estaria? Onde
estariam suas lendas, sua história de origem de vida?
Onde estariam suas tradições, seus costumes e sua
espiritualidade? Sua ancestralidade naquele momento
descomprazia-se de sua sina. Os ossos daquela família,
das mulheres daquele clã, jaziam fétidos no fundo do
mar à espera da luz da foca ancestral ou jaziam à
beira-rio esperando um milagre do pitiguary ancestral.
Toda essa cena contrastava-se com a propaganda da arte
indígena que nesse momento fazia sucesso em uma
exposição citadina que corre o Brasil: “arte
milenar indígena não morre!”... Mas morrem as
pessoas indígenas pela falta de uma posição
governamental que faça exercer os direitos indígenas
nesse país. O indígena precisa sair das paredes, dos
museus, das salas de exposição!
O
Fórum Permanente para Povos Indígenas, para quem não
sabe, foi criado a duras penas pela pressão do
movimento indígena internacional. Isso há mais de
vinte anos! A Assembléia das Primeiras Nações, o
CISA ( Conselho Indígena de sudamérica) entre outras
organizações indígenas foram os precursores pela
implantação de uma política indígena
autodeterminante, isto é, onde os próprios indígenas
possam ser representados por eles mesmos. O governo
pode considerar os povos indígenas brasileiros
despreparados, divididos, infelizes, assessorados ora
por um, ora por outros, o que queira. O indígena
brasileiro deve sentar na cadeira destinada a ele
dentro do Fórum Permanente para Povos Indígenas da
ONU. Aquele espaço político foi construído por ele
e para ele, não foi uma concessão da ONU. Rigoberta
Menchu, Prêmio Nobel da Paz como um exemplo clássico,
assim como milhares de indígenas invisíveis
derramaram seu sangue e lágrimas por aquele Fórum.
Que imagem continuamos construindo para nossos irmãos
indígenas internacionais! Que imagem estamos
construindo para nós, Povos Indígenas! A indígena
Dona Marta, índia desaldeada, que queria ser deputada
do PT, morreu em vão? Não construiu esse direito, não
conseguiu, porque ninguém vota em candidatos indígenas.
Mas lançou uma semente. Aproximam-se as eleições e
esse quadro precisa mudar. Não há uma cadeira provisória
no Congresso, a Constituição, o departamento jurídico
A ou B não deixam. O Estatuto do Índio não deixa.
Por acaso a Constituição deixa morrer à mingua os
direitos indígenas ??? Claro que deixa, isso pode...e
nós por pensarmos assim somos imediatistas,
anti-profissionais, irresponsáveis, não sabemos
esperar “o momento certo”, enfim... o “tempo
histórico e político”. Quanto tempo temos que
esperar?
O
que deve ser feito é que esses homens de terno preto
e cinza, com gravatas coloridas, que trabalham no
Congresso Nacional, enfim.... desconsiderando Leis,
Estatutos, Constituição devem reconhecer, não na
lei, como li na
matéria do
Jornal do Serviço de Informação Indígena (
Servindi/ Jornal dos próprios indígenas) sobre o
representante brasileiro na última reunião do
Projeto de Declaração sobre os Direitos indígenas/Genebra/2003,
que os direitos dos indígenas brasileiros “já
estão assegurados”, no Brasil. Eu
interpretei isso, apenas na teoria! No Brasil, nunca
se diz o que já foi feito concretamente, se anuncia o
que se vai fazer, é aí que as coisas se perdem.
O
indígena brasileiro não pode ser mais idolatrado na
sua cultura e arte , nas suas fotografias, na suas
artes cinematográficas, nas suas expressões literárias
e orais ser
literalmente ignorado na sua condição física,
humana, social e política.
Enquanto
isso o
indiozinho, cor da terra, que se esvaía no chão,
moreno, faceiro, cabelos lisinhos, olhinhos de tigre_
roupas de mendigo_ continuava lá, na indignidade que
lhe foi imposta pelos que dizem que temos uma
Constituição e Leis e que não podemos desconsiderá-las.
E eu , vendo aquele serzinho humano escorrendo pelo
meio-fio, perguntei a ele: “ O que aconteceu”? Ele
com uma mão esticada tentando catar os centavinhos caídos
e outra mãozinha apertando uma nota fétida de um
real, me respondeu: “ os meninos-de-rua
roubaram o meu dinheiro e me bateram. Ele não
se considerava um menino-de-rua! Vejam só! Quem será
menino-de-rua, meu Deus? Negros, favelados, delinqüentes,
marginais, ciganos, deficientes, cegos pedintes,
negras grávidas com o filho no colo, portadores de
HIV, velhos, velhas ?
Eu
respondi a ele: “Como consegue dinheiro?” Ele, com
o rosto encharcado de lágrimas misturado à poeira,
respondeu: “Pedindo”!. Ele era só um pedinte indígena,
uma nova classe social criada pela pobreza. E meu útero
de mãe rosnou, rosnou tanto que uma dor rouca, uma
dor cavernosa me saiu pela minhas entranhas, uma dor
insuportável que esmigalhava minha alma, minha essência
indígena, meu berros internos! Indigente indígena:
indigno isso!
Ai
que dor, ser testemunha do renascimento desse novo
contingente. O SPI (Serviço de Proteção ao Índio),
antes do golpe militar em 1964, nunca se preocupou com
o êxodo indígena para as cidades. Era melhor fechar
os olhos e ver os “indiozinhos” e suas famílias
partirem de suas terras do que investigar as causas da
migração compulsória.
Aprendi
com minha avó indígena, com Salvador Dali e Paulo
Freire a reconstruir uma imagem
de nós mesmos, desconstruir imposições e a
reconstruir nosso discurso. Nós_ Povos Indígenas_
precisamos nos salvar, antes mesmo que a demarcação
das terras cheguem no seu contexto mais amplo e antes
desse almejado novo Estatuto do Índio, porque as
coisas como estão, podem deixar a população indígena
muito revoltada, pipocando casos como temos vistos nos
últimos meses. Povos Indígenas querem viver dentro
do equilíbrio e dar seu testemunho de uma convivência
pacífica e não serem vistos na mídia empunhando
bordunas ou armas. Eu clamo aos governantes e empresários:
“Reconheçam
os povos indígenas como os primeiros povos dessa
terra e
sem paternalismos, entreguem as terras que são de
seus ancestrais, numa medida de reconhecimento, de
compensação e restauração da dignidade indígena
deste país.
Texto
de Eliane Potiguara
17/06/2004 ( publicação autorizada desde que
cite a fonte e autoria) Publicada na lista Literatura
Indígena.
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CONGRESSO PARLAMENTAR INDÍGENA E MULHERES
A
Terra é a nossa mãe. Dela recebemos a vida e a
capacidade para viver. Zelar por nossa mãe é nossa
responsabilidade e zelando por ela,estamos zelando por
nós próprias. Nós, mulheres indígenas, somos
manifestações da Mãe -Terra em forma
humana.Molestar, destruir, minimizar as manifestações
da Mãe- Terra é ir contra a sua natureza, pois na
natureza tudo deve fluir, assim como os rios que
correm, os mares que enchem e esvaziam, como as
cachoeiras que caem, como as pedras que rolam, como os
filhotes que nascem e crescem, como a chuva que cai,
como as luas que se enchem e vão, como o sol que
esquenta e esfria, como a vida humana e animal que
brota e transforma-se em húmus para a terra.Ir contra
todos esses segmentos é violar o sagrado.A base filosófica
de nossas vidas, como mulheres e povos indígenas,
nessas 206 nações indígenas brasileiras, com
culturas e línguas diferenciadas é o respeito pelo
sagrado, pelo que foi criado pela natureza e a mulher
faz parte deste sagrado, por isso sua palavra é
sagrada, tanto quanto a Terra. E toda a sua cultura e
espiritualidade relacionadas ao sagrado humano, deve
ser respeitada.
Aqui
queremos lembrar as sociedades matriarcais, originais,
onde a palavra da mulher era uma força, uma decisão
política. Mas o capital, a exploração do homem pelo
homem, o egoísmo, a discriminação cultural e filosófica,
o poder, a colonização limitaram essa força da
mulher. Mas nos últimos dois séculos vemos aqui
ou acolá, pipocar um grito estrangulado de uma
mulher indígena, um grito estrangulado, mas
determinado, como é o caso de alguns desses gritos
pelo Brasil afora, resultando nas organizações de
base dessas mulheres.E essas mulheres vêm
transformado-se em educadoras, reprodutoras, agentes
transformadoras da sociedade em que vivem.
Muitas
delas como a primeira prefeita no Brasil, a índia
Potiguara, enfermeira Iracy Cassiano ( popularmente
chamada de Nancy), foi uma vitória no início da década
de 90, mas que esbarrou em obstáculos históricos ,
políticos e culturais, assim como a organização de
mulheres indígenas (Grumin) esbarrou,
porque ali se formava com seu precioso apoio.A
Associação de mulheres indígenas
de Manaus foi criada para aglutinar mulheres
imigrantes de suas terras originais e que só tinham
como opção de trabalho, labutar como empregadas domésticas
nas casas dos coronéis ou cair nos prostíbulos ou
servir ao tráfico internacional.As aldeadas
continuavam a servirem aos militares ou sofrer as violências
oriundas das invasões de terras indígenas.
As
mulheres sempre estiveram à mercê das drogas
perigosas, dos produtos químicos, dos
anticoncepcionais, das esterilização, da mineração
de urânio, das contaminações nas águas fluviais,
dos conflitos armados,
dos atos agressivos das multinacionais, dos
projetos de diversidade de Genética humana, da
pirataria de nossa herança cultural e espiritual e
dos recursos biológicos
e todas
as forças que estão por trás, as modernas instituições
financeiras controladas pelo Banco Mundial, pelo Fundo
Monetário Internacional (FMI)
e a Organização Mundial de Comércio(OMC) e
órgãos afins.
Atualmente
as mulheres indígenas de Roraima têm-se organizado,
assim como algumas delas como Joênia Wapixana
formou-se em Direitos.Outras têm buscado esse
caminho, pois acreditam que só lutando dentro dos
aspectos jurídicos poderão ver os direitos indígenas
de seus povos assegurados.
A
Assembléia Constituinte de 1991 na Colômbia, rompeu
com muitos paradigmas sobre a participação política.
E uma das vitórias foi a possibilidade de indígenas
na representação parlamentar, isso abriu espaços
também para as mulheres,
como abriu no Equador para a primeira
Congressista Indígena, Nina Pacari.Nas últimas eleições
no Brasil, 20 indígenas candidataram-se e nenhum foi
eleito, porque povo brasileiro não vota em candidato
indígena.O próximo caminho para o governo de Lula
seria o estabelecimento de um Congresso
Parlamentar Indígena( com representação de
todas as etnias e a participação das mulheres indígenas)
ao contrário de
cadeiras no Congresso e Senado que propusemos
no passado bem próximo. E no contexto eleitoral
somente uma mulher candidatou-se: Marta Kaiowá pelo
PT.
Essa
minimização da mulher indígena se dá por aspectos
culturais e hitóricos, senão vejamos:
As
mulheres foram alvo de perseguição masculina desde o
processo de colonização. Eram arrancadas do seu povo
para servirem de concubinas e escravas aos
estrangeiros. Essa responsabilidade é da política
integracionista que paternaliza os povos indígenas até
hoje.Mães e pais indígenas sabedores desta realidade
proibiram que suas jovens filhas fossem atiradas a
esse estigma. Será melhor que se fortaleçam antes de
irem às escolas para adquirirem mais consciência,
por isso o índice de professores indígenas
masculinos(65%) é bem maior que o das
professoras.
Outros
segmentos de mulheres indígenas estão pobres,
discriminadas, excluídas, invisíveis. São mão-de-obra
escrava em plantios de cana-de-açúcar, algodão e
outros, despreparadas para qualquer função política.
Dentro
e fora das aldeias urge um trabalho de conscientização
e capacitação dessas mulheres. Um programa imediato
referente aos direitos reprodutivos e saúde integral,
Educação e desenvolvimento agrário devem ser
implantado pelo governo e pelas Ongs para que povos
indígenas possam ter dignidade.
A
”reparação histórica” referente às dívidas
morais que a as mulheres indígenas acumularam há
séculos , pode vir a ser vislumbrada se o
futuro governo
OUVIR o que querem essas mulheres e os povos
indígenas, Primeiras Nações do território
brasileiro, Terra do Pau Brasil.
Texto
de Eliane Potiguara
POVOS INDÍGENAS, GÊNERO E POLÍTICAS PÚBLICAS
I-
Processo Histórico dos povos indígenas, dificuldades
para a discussão sobre discriminação de gênero e
subordinação interseccional
Grupo
de mulheres
indígenas de vários países há mais de duas décadas,
vêm discutindo as desigualdades e injustiças sociais e
específicas pelas quais são vítimas ao longo na
colonização e néo-colonização e o resultado desse
processo. Os direitos fundamentais dos povos indígenas,
inicialmente são protegidos pelo Direito Internacional,
da mesma forma que os direitos de todos os cidadãos do
mundo. Com relação ao Brasil, são protegidos pelo
Estatuto do Índio, apesar de esse estatuto ainda estar
aquém das necessidades
e direitos específicos indígenas, apesar do
Art. 1º que diz:
“Esta
lei regula as relações dos povos indígenas, suas
comunidades e dos índios individualmente com a
sociedade e com o Estado Brasileiro, as quais devem se
basear no princípio de proteção e respeito às
organizações sociais, costumes, línguas, crenças e
tradições de cada povo, os direitos originários sobre
as terras que tradicionalmente ocupam e todos os seus
bens”.
Há
mais de vinte anos, Povos Indígenas internacionais, por
exemplo, reunidos no Grupo de Trabalho sobre Povos Indígenas
das Nações Unidas, ao criarem a Declaração Universal
dos Direitos Indígenas reforçavam o conceito de etnia
indígena numa tentativa de mostrar que sua identidade
era constituída através de uma cultura, tradições e
línguas diferenciadas.O poder desse Grupo for tanto,
que criaram o Fórun Permanente para povos Indígenas
representados por ells mesmos. O Brasil é o único país
que seu representante ainda não é um índio ou índia.Isso
é o resultado do paternalismo histórico que ronda como
um fantasma, a história desse país.
Para
o fortalecimento étnico, Povos Indígenas mostravam que
eles eram um micro-povo dentro da cosmologia maior de
seu país de origem. O que muitos países não
aceitavam, apesar da
Convenção 169 da OIT( Organização Internacional de
Trabalho)”. No Brasil, a Convenção, que
tramitava no Congresso desde 1991 e foi ratificada em
julho de 2005, traz
a seguinte conclusão para grupos existentes e os que
queriam se auto-afirmar: “A
consciência de sua identidade indígena ou tribal deverá
ser considerada como critério fundamental para
determinar os grupos aos que se aplicam as disposições
da presente Convenção. Baseados nessa Convenção,
muitos povos resistentes, considerados ressurgidos foram
reconhecidos etnicamente pelo Estado. Isso foi uma vitória
para Povos Indígenas.
No
entanto, os aspectos relativos à gênero, discriminação
racial, ficavam fundidos na generalização
do discurso da defesa dos direitos humanos dos povos indígenas,
e não muito claros, apesar do conceito de etnia já
estar mais distinguível, definido e fortalecido, nesta
década.
Em
1985, no Brasil, já vínhamos pincelando as primeiras
conjecturas acerca das desigualdades e injustiças com
relação à mulher indígena, até formarmos,
juridicamente, um pequeno grupo em 1987 e a pedido de um
cacique ancião realizamos a I Encontro Potyguara de
Luta e Resistência e ali subliminarmente incluímos o I
Encontro da Mulher Indígena, com o apoio de algumas
professoras e líderes de outras etnias nordestinas, em
1988/89. Foi um impacto!
Nesta
época, poucas eram as pessoas ou organizações que
aludiam a questão de gênero até que a cooperação
internacional começou a exigir que as entidades
indigenistas incluíssem a questão de gênero em seus
Programas para que pudessem ser apoiados
financeiramente.Por exemplo, a ICCO, desenvolveu vários
cursos de capacitação para Ongs. Foi a corrida do
ouro! Por outro lado, mesmo sem capacitação e
compreensão do que significavam gênero e subordinação
interseccional, outras organizações começaram a
estimular grupos femininos. Foi um atropelo para quem já
vinha cuidadosa e carinhosamente conduzindo
paulatinamente e com dificuldades, essa “conscientização
e organização, para que o assunto fluísse
corretamente dentro de um processo histórico.
Entre
janeiro de 1994 a maio de 1995, as mulheres brasileiras
e feministas de 25 Estados e Distrito Federal estiveram
organizadas em articulações e Fóruns Locais para a IV
Conferência Mundial da Mulher /China. Na época, o
Grumin que se constituía num pequeno grupo de mulheres
indígenas, vinha discutindo, capacitando, seriamente em
diversos Encontros Regionais, a questão de gênero,
inclusive Direitos Reprodutivos, publicando textos e
materiais específicos sobre o tema e culminamos em 1995
com a
Consulta Nacional de Direitos Humanos das
Mulheres Indígenas, Família e Identidade, onde um
diagnóstico foi finalizado e publicado recentemente no
meu livro intitulado “METADE CARA, METADE MÁSCARA”,
editado pela Global Editora (www.elianepotiguar.org.br).
Também estivemos no processo Pré-Beijing, mas encontrávamos
muitas dificuldades, conflitos internos para que
organizações indigenistas, indígenas, mulheres indígenas
mais atuantes de outra linha de pensamento, pudessem
assimilar respeitosamente às nossas idéias e
"permitir" o nosso rumo, sem atropelos à
questão da ética.
Também
vínhamos de participações em outras Conferências
Internacionais como a de Cairo, Viena que divulgavam e
debatiam a Convenção para a Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação contra Mulheres e no Brasil o
movimento de mulheres crescia consideravelmente.
II
- PROBLEMAS IDENTIFICADOS
Casos
isolados de mulheres indígenas atreladas ao
desconhecimento da desigualdade de gênero ebuliram sem
capacitação e conhecimento para contrapor à filosofia
que queríamos reportar: questão de gênero.
Encontramos casos de homens indígenas fundarem organizações
de mulheres para suas esposas, irmãs direcionarem
filosoficamente essas organizações ou projetos.
Num
país da América Central, um homem criou um Projeto
feminino de geração de rendas e delegou à mulher para
justificar os recursos. Puro oportunismo. A questão de
gênero na sua essência central, não se discutia e
ainda tínhamos que ouvir afirmações como “não
existe gênero entre povos indígenas” e muitas das
vezes a Amism (Associação de Mulheres Sateré Maué)
sofria discriminação, assim como muitas companheiras
que se associassem ao Grumin, como se essa associação
significasse pode ou querer competir com algo. Era
conscientização que estávamos promovendo.Mas o
fantasma da competição entre mulheres indígenas e
organizações predominavam, assim como instituições
paternalistas promoviam a divisão de idéias.
Anos
mais tarde, as próprias mulheres se conscientizaram de
sua organização como no caso a Omir (Organização de
Mulheres Indígenas de Roraima) que nasceu
da necessidade de organização e representatividade da
mulher indígena, que sempre teve participação
decisiva na luta dos povos indígenas, mas não era
reconhecida pelos tuxauas (líderes das
comunidades).Assim também nasceram outras organizações
locais e de base. A Omir chegou a participar do Conselho
Nacional de Mulheres, no Ministério da Justiça. Foi
uma vitória para essas mulheres guerreiras. Eu escrevia
em todos os manifestos: “Mulheres Indígenas!
Organizem-se, mesmo que seja dentro de suas casas!”
Hoje, 2005, várias mulheres indígenas brasileiras têm
se destacado por elas mesmas, por necessidades comunais
e não por imposição masculina.
Recentemente,
li numa entrevista, uma mulher indígena afirmar que em
sua comunidade não existe desigualdade entre homens e
mulheres. Na mesma entrevista, essa mulher afirma ter
levado um tiro do marido e ficado cega de um olho. As
outras mulheres indígenas preferiram isolar o caso,
pelo fato de o marido ser parente, assim como centenas
de casos invisíveis, como estupro, espancamento, adultério,
gravidez na adolescência, incestos, abortos
clandestinos por imposição do pai, do irmão, etc.
Muitos casos estão abafados. Isso se constitui na
subordinação interseccional: uma diferença “QUE FAZ
DIFERENÇA” dentro de um mesmo grupo. E muita vezes as
mulheres não encontram solidariedade dentro do grupo de
mulheres, porque o causador da violência pode ser um
parente de outras mulheres e o caso precisa ficar
clandestino!
Outra
vergonha que as mulheres sentem é que povos indígenas
lutam por direitos básicos e necessitam ainda reforçar
a identidade indígena contra a opressão maior. Então
é melhor esconder as diferenças interseccionais, para
dar prioridade
à
valorização etnica, num contexto mais amplo, porque as
necessidades básicas de um povo não foram conseguidas,
como seus direitos constitucionais.
Conheci
um chefe de posto que queria construir uma cadeia dentro
da Comunidade
para ele mesmo solucionar esses problemas.Outro ponto a
ser mais amplamente discutido é questão da Aids que
tem crescido e o homossexualismo nunca foi discutido.
Fatores
como alcoolismo, problemas psicológicos dos homens,
falta de trabalho do cabeça da família, seja pai ou
filho, sobrecarregam
a sobrevida das
mulheres, piorando a sua qualidade de vida.. Elas
precisam trabalhar dupla, triplicamente para atender a
todos. Poderíamos tecer centenas de casos para provar a
subordinação inteseccional, justificando a feminização
da pobreza. Em meu livro, conto também caso de
subordinação contrária, no caso a mulher humilhando o
homem, num caso do Brasil central.
No
caso das mulheres Dalits, na Índia, que não podem
tocar e nem serem tocadas por pessoas de outra casta,
sofrem conseqüências gravíssimas por serem
subordinadas às castas privilegiadas.Percebemos esses
fundamentalismos dentro dos próprios grupos indígenas
brasileiros, onde o fundamentalismo maior é o social e
racial.
III
- CONSTRUINDO CAMINHOS JUNTOS
Os
homens e mulheres indígenas devem encontrar juntos,
caminhos concretos que viabilizem atitudes responsáveis
com relação aos seus direitos humanos e
fundamentalmente à Saúde Reprodutiva e desenvolvam uma
relação de gênero mais consciente, mais democrática
baseada no conceito sobre sexualidade, direitos humanos
específicos das mulheres, conceitos que foram perdidos
ao longo da colonização e néo-colonização. Os
homens para defenderem suas mulheres contra a escravidão,
referenciavam suas mulheres, velhos e crianças na
retaguarda cultural. Nesse processo, novos conceitos
dominantes e opressores foram impostos à relação de gênero
que necessitam ser mudados, desde àquela época. Homens
e mulheres devem desafiar as relações desiguais de
poder não só no campo da ação, como organizativo e
institucional, político-social e economicamente,
objetivando a justiça de gênero. O fortalecimento do
poder das mulheres indígenas deve ser promovido dentro
das organizações indígenas para que todos,
principalmente os homens possam ter mais clareza sobre
suas atitudes, comportamentos, empenhos
e responsabilidades.
Os
Programas de governos devem levar em consideração
todos esses aspectos aqui relacionados, ao apoiarem políticas
públicas para mulheres indígenas. Essas políticas
devem ser geradas a partir do testemunho dessas mulheres
levando em consideração as diferenças dos 235 povos
distintos e suas 180 línguas diferentes. Devem
prevalecer a saúde, educação e desenvolvimento
diferenciados para a aplicação das políticas públicas.
E se os Programas de Governo perceberem casos
invisíveis, incontáveis, devem criar programas que
possam fortalecer, empoderar as mulheres para
desmitificar o poder da desigualdade entre homens e
mulheres, desconstruindo discursos e ações
preconceituosas subliminares para a justiça de gênero.
Texto
de Eliane Potiguara
COTAS POLÍTICAS PARA POVOS INDÍGENAS NAS ELEIÇÕES PARA O CONGRESSO NACIONAL OU ELEIÇÕES MUNICIPAIS
Existe
algum objetivo pela qual o povo brasileiro deva votar
num candidato indígena, nas próximas e nas outras
futuras eleições?
NÃO!
Não existe nenhum objetivo, nenhuma vontade política,
nenhum interesse particular, nada existe que
identifiquem as reivindicações EXTREMAMENTE ESPECÍFICAS*
dos povos indígenas com o contexto do também
sofrido povo brasileiro.
Se
não vejamos:
Em
último caso o que faria o povo brasileiro a votar num
candidato indígena?
·
Seu
sentimento saudosista numa visão extremamente
romantizada.
·
Seu
sentimento de orgulho por ter tido uma bisavó “caçada
a laço”, fato que poderia, no mínimo, sensibilizá-lo,
mas não tanto.
·
Seu
sentimento bem intencionado de um pesar
à pessoa indígena como se fora um
“coitadinho”.
·
Seu
humor político como resposta à falta de ética da política
partidária brasileira.
·
Sua
resposta política a um elemento possivelmente folclórico
e exótico
surgido no bojo político intencional de um partido e
esse indígena ser destruído e esquecido até que morra
de tristeza, depressão e enfermidade física, ainda no
princípio do entardecer de sua preciosa vida..., como
exemplo clássico para a história social.
·
Num
apelo oportunista ou folclórico em defesa da Amazônia
Brasileira contra o imperialismo. Blá, blá, blá...
·
Enfim
que os leitores complementem essa lista....
Mas
mesmo assim, com todo o apoio do indigenismo, o
candidato indígena não conseguiria o nº
estabelecido de votos para tornar-se um deputado
federal, estadual e com muito esforço, conseguiria um
pequeno avanço nas eleições municipais e para
prefeito, como já temos alguns raros casos, porém
ainda de mãos atadas, pelas políticas locais.
Enfim,
o povo brasileiro não vota em candidato indígena,
salvo alguma exceção.
E
diante das graves violações dos direitos humanos dos
povos indígenas, diante das necessidades extremamente
emergenciais, diante das especificidades indígenas nas
áreas de saúde, educação, desenvolvimento,
terra/trabalho/cultura, etc... URGE A IMPLANTAÇÃO DE
UMA CADEIRA INDÍGENA NO CONGRESSO NACIONAL,
independente do voto popular, estabelecendo assim uma
cota política para Povos Indígenas neste setor. Que se
mude a lei!!!!
Ações
afirmativas superficiais só escamoteiam a verdadeira
VIOLAÇÃO DOS DIREITOS INDÍGENAS e prorrogam o
sofrimento de nosso povo índio, representado pelas
Primeiras Nações do planeta. Debates, discussões
devem ter prosseguimento e não colocadas nas gavetas
governamentais. As demarcações das terras indígenas
devem ter prioridade num plano de governo. Cotas políticas
em todas as áreas devem ser introduzidas. As cotas
conseguidas até hoje, estão aquém, são esmolas! O
novo plano de governo deve apoiar, incondicionalmente, a
revolução do Estatuto do Índio, dentro da VONTADE
e necessidades dos povos indígenas,
fundamentalmente, tendo sua própria autoria e participação.
O
deputado indígena deve ser indicado pelo movimento indígena
e suas comunidades de base devendo ter
todo o apoio financeiro governamental para esse
importante empreendimento na História da Política
Partidária Brasileira. Mas para isso urge uma vontade e
sensibilidades políticas no plano de governo.
E
quanto à FUNAI,
esse órgão deve se presidido, enfim, por
um(a) indígena que conheça os corredores de sua
infra-estrutura, que conheça sua história, que não
tenha interesses pessoais, que tenha ética, que seja
formado(a) academicamente, que tenha formação jurídica
de direitos indígenas nacionais e internacionais, que
seja militante/ativista do movimento indígena e social,
que conheça as máquinas governamental e não
governamental e que tenha alto conhecimento sobre questões
de gênero, etnia e raça e que tenha VOZ INDÍGENA.
Finalmente,
concluímos, que para fazer avançar os Direitos Humanos
dos Povos Indígenas Brasileiros, uma cadeira no
Congresso Nacional suportada por competentíssimos
assessores indígenas e não indígenas, deve ser
implantada já. Já sofremos demais!!!!!! Basta!!!!!
Que
os advogados abracem
essa proposta, mudando,
estruturando,
revolucionando
a
lei maior
na sua
base. A PRIORIDADE É O DIREITO INDÍGENA EM JOGO E A
SOBREVIVÊNCIA DE UM POVO, SECULARMENTE INJUSTIÇADO.
*consulte
movimento indígena.
Texto
de Eliane Potiguara
CONGRESSO PARLAMENTAR INDÍGENA
Onda
de cocares no poder?
A
onda também pode ser de cocares?
Nas
eleições 2002 tivemos 20 candidatos indígenas, apenas
uma mulher. Nenhum foi eleito. Isso comprova o que
sempre digo: o povo brasileiro não vota em candidato
indígena. Por esse motivo, é fundamental que o novo
presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva,
possibilite
a constituição
crie
um Congresso
Parlamentar Indígena –
com representação de todas as etnias e a participação
das mulheres indígenas.
A
criação de um Congresso Parlamentar Indígena é uma
idéia antiga, defendida por lideranças como Marcos
Terena, Ailton Krenak, o falecido cacique Juruna, entre
outros.
As comunidades, os povos indígenas
elegeriam representantes de seus povos para que fossem
representá-los em Brasília, num espaço parlamentar
especial, destacado. Trata-se de uma alternativa para
atender às demandas específicas dos povos indígenas.
Esse
congresso étnico seria composto por representantes indígenas
preparados, com estudo, conhecimento político e do
direito indígena nacional e internacional. O primeiro
passo seria rever o Estatuto do Índio. O documento
precisa ser alterado com a ajuda participação
dos próprios indígenas, em parceria com ONGs, Igreja e
estudiosos.
Acredito
que, com a eleição de Lula, a criação do Congresso
Parlamentar Indígena tenha mais chances de se tornar
uma realidade. Assim como o novo presidente quer fazer
um governo popular dos trabalhadores, o Congresso
Nacional deveria favorecer a participação das
comunidades dos
povos indígenas para que, além das vozes dos
trabalhadores e camponeses, as vozes dos indígenas
pudessem vir à
tona. Assim como Lula propõe o diálogo dos
trabalhadores com os empresários, os indígenas também
estão abertos à troca com quem têm seus interesses
econômicos.
Seria
importante que o Congresso Parlamentar Indígena não só
fosse aceito, como se transformasse em lei. A Assembléia
Constituinte de 1991, na Colômbia, rompeu com muitos
paradigmas sobre a participação política. Uma das vitórias
foi a possibilidade da presença indígena na representação
parlamentar. Isso abriu espaços também para as
mulheres, como o acontecido no Equador, que elegeu a
primeira Congressista Indígena, Nina Pacari.
Mulher
desapoderada
No
caso, o Congresso Parlamentar Indígena está surgindo
como uma opção, não a única, de inserção de
representantes dos povos indígenas no poder. E se essa
inserção é complicada para os homens indígenas,
imagine para as mulheres. O fato de apenas uma indígena
ter se candidatado nas eleições brasileiras de 2002
pode ser explicado pelas mulheres terem sido alvo da
perseguição masculina desde o início do processo de
colonização. Eram arrancadas do seu povo para servirem
de concubinas e escravas aos estrangeiros.
Mães
e pais indígenas, sabedores dessa realidade, proibiram
que suas filhas fossem atiradas a esse estigma.
Pensavam: “será melhor que se fortaleçam antes de
irem às escolas para adquirirem mais consciência”.
Por isso, o índice de professores indígenas (65%) é
bem maior que o das
professoras.
Existem
também mulheres indígenas em situação de pobreza,
discriminadas, excluídas, invisíveis. São mão-de-obra
escrava em plantios de cana-de-açúcar, algodão e
outros, despreparadas para qualquer função política.
Uma
saída para esse quadro é o reconhecimento de que
dentro e fora das aldeias é necessário e urgente o
trabalho de conscientização e capacitação de
mulheres. Um programa imediato de direitos reprodutivos
e saúde integral, educação e desenvolvimento agrário
deve ser implantado pelo governo, com a colaboração de
ONGs, para que os povos indígenas possam ter dignidade.
Reação
feminina
Quero
lembrar que a palavra da mulher já foi uma força, uma
decisão política. O capital, a exploração, o egoísmo,
a discriminação cultural e filosófica, o poder e a
colonização limitaram essa força. Mas nem tudo está
perdido.
Nos
últimos dois séculos podemos ver pipocar o grito
estrangulado de algumas mulheres indígenas. Grito
estrangulado, mas determinado, resultando nas organizações
de base dessas mulheres. E elas vêm se transformado em
educadoras, agentes transformadoras da sociedade em que
vivem.
Temos,
por exemplo, a enfermeira Iracy Cassiano (popularmente
chamada de Nancy), índia Potiguara eleita primeira
prefeita do Brasil. Isso foi uma vitória no início da
década de 1990. Mas os obstáculos históricos, políticos
e culturais foram muitos, da mesma forma que a organização
de mulheres indígenas (Grumin), que se formou com o seu
valioso apoio, também os enfrentou.
Outro
exemplo de resistência é a Associação de Mulheres
Indígenas de Manaus, criada para aglutinar imigrantes
de suas terras originais que só tinham como opção
trabalhar como empregadas domésticas nas casas dos
coronéis, cair nos prostíbulos ou servir ao tráfico
internacional.
As
indígenas de Roraima também têm se organizado. Joênia
Wapixana formou-se em Direito. Outras têm buscado esse
caminho, pois acreditam que só lutando dentro dos
aspectos jurídicos poderão ver os direitos indígenas
assegurados. Por isso é
importante a criação e o fortalecimento de organizações
de mulheres indígenas, mesmo que sejam criadas dentro dê
suas próprias casas.
Texto
de Eliane Potiguara
DESAFIOS SOBRE GÊNERO NA QUESTÃO INDÍGENA
Os
homens e mulheres indígenas devem encontrar juntos,
caminhos concretos que viabilizem atitudes responsáveis
com relação aos seus direitos humanos e
fundamentalmente à Saúde Reprodutiva e desenvolvam uma
relação de gênero mais consciente, mais democrática
baseada no conceito sobre sexualidade, conceitos que
foram perdidos ao longo da colonização e néo-colonização.
Nesse processo, novos conceitos dominantes e opressores
foram impostos à relação de gênero que necessitam
ser mudados.Homens e mulheres devem desafiar as relações
desiguais de poder não só no campo da ação, como
organizativo e institucional, objetivando a justiça
social de gênero. O fortalecimento do poder das
mulheres indígenas deve ser promovido dentro das
organizações indígenas para que todos, principalmente
os homens possam ter mais clareza sobre suas atitudes,
comportamentos e empenhos.
A
participação política das mulheres indígenas
está muito aquém ainda, justamente por razões
culturais. Sabemos que na colonização portuguesa os
homens, para defenderam suas mulheres e crianças, as
colocavam na retaguarda comunal e lá esse segmento
ficou até hoje. é preciso resgatar a funcionalidade
inicial das mulheres indígenas adotada antes do
processo colonial. Ela tinha a decisão sobre problemas
políticos, decisão sobre as assembléias, era venerada
e tinha a última palavra. Quando
os homens não suportaram mais ver suas mulheres
escravizadas decidiam o suicídio em massa de um povo
contra essa escravidão
e colonização.
Era um ato de protesto e todos eram atirados para baixo
de um penhasco!!!! A solidão e o sofrimento das
mulheres indígenas começaram com a migração por ação
violenta aos seus povos. Juçara, esposa de Sepé
Tiaraju, em 1756 ao
ter seu marido assassinado pelos estrangeiros, iniciou
sua caminhada sozinha, assim muitas mulheres indígenas,
como a esposa de Galdino, de Marçal Tupã-y, a esposa
de Hibes Menino, a esposa de Ângelo Kretã e muitas
outras esposas anônimas, guerreiras como nossas avós e
mães potiguaras
que vem construindo e dando continuidade à cultura indígena,
seja nas aldeias ou empurradas, violentadas para o lixo
da sociedade envolvente, porque elas pobres,
analfabetas, indígenas, nortistas ou nordestinas só
encontrariam espaço de sobrevivência nesse lixo e na
miséria. Vitória daquelas que conseguiram criar seus
filhos e fazê-los dignos.
As
mulheres foram alvo de perseguição masculina no
processo de colonização. Elas eram arrancadas do
seio de seu povo para servirem de concubina
e escravas aos estrangeiros. Um desesperado líder
indígena Kaiapó do Pará, atualmente contou que sua
jovem esposa, havia partido com um homem branco,
abandonando a família . Ela- anestesiada em sua consciência
por ação neocolonizadora, queria os coloridos das
cidades, os bens de consumo alheios à cultura indígena.
Ela tem culpa? Não.
A
responsabilidade é da política integracionista que
paternalizou os povos indígenas até hoje. Mas quando
nosso movimento pela conscientização do papel inicial
da mulher indígena começou a causar polêmicas
a partir de 1996, houve resistência de todos os lados.
E, como mulheres,
por querer saber o que aconteceu com os nossos avós
que trabalharam para as falidas empresas que
escravizaram a população indígena e deixaram centenas
e centenas de mulheres grávidas, obrigadas a fugir de
suas terras de sua família tradicional, é que sofremos
muitas perseguições. Afinal o nosso silêncio ou nossa
voz têm sexo! Os pais indígenas sabedores desta
realidade gostariam de lançar suas jovens filhas para
esses abutres?
Por
outro lado, lamentavelmente, os homens indígenas por
pressão histórica, continuaram mantendo suas mulheres
na retaguarda e conseqüentemente eles, em contato com
os colonizadores, acabaram adquirindo os seus maus hábitos
e vícios, entre eles o de subjugar e desrespeitar a
mulher, não esquecendo nós, que os piores caracteres,
moralmente situando, foram os enviados para a Terra
Santa, no início da colonização portuguesa.
Os
direitos humanos das mulheres indígenas foram descritos
em várias Conferências Nacionais e Internacionais,
onde conseguimos espaços políticos
para dar um grito de basta ao sofrimento secular
de nosso povo, onde o racismo e a
falta de apoio
ao cidadão e cidadã indígenas são os motivos
mais agravantes. As campanhas de solidariedade devem ser
um veículo de luta para a efetiva conscientização
da sociedade como um todo de que os povos indígenas são
os primeiros habitantes deste país, as primeiras nações
e como tal, devem ser respeitadas , veneradas,
preservadas como patrimônio humano do planeta terra, ao
invés de sermos racializadas , discriminadas,
empobrecidas, excluídas social, histórico e
racialmente. Que possamos ver um Estatuto do índio
realmente voltado na prática para os direitos humanos
dos Povos Indígenas, tanto na área de desenvolvimento,
trabalho, saúde, educação, preservando o patrimônio
cultural, o direito à propriedade intelectual, a
biodiversidade indígena, a espiritualidade.
As
mulheres indígenas, aos olhos da sociedade, estão
abaixo do último degrau que compõe as camadas da
sociedade. Indígenas, pobres, discriminadas, excluídas,
INVISÍVEIS,
Mão
–de- obra escrava em plantios de cana-de-açúcar,
algodão e outros. Se estão próximas a mineradoras, são
objeto sexual de garimpeiros ou mineradores, como muitas
histórias que já ouvimos dos YANOMAMIS, em Roraima. Se
estão nas cidades, empurradas por alguma razão social
e política de sua nação, tornam-se, prostitutas nas
grandes cidades, objetos de tráfego internacional de
mulheres ou empregadas domésticas ou operárias mal
remuneradas. Urge um trabalho de conscientização
dentro das aldeias contra a violência doméstica,
sexual , o estupro, o assédio ,
o alcoolismo que resulta nas violências
interpessoais, nas intrigas, nos distúrbios psicológicos,
nos suicídios. Um programa imediato referente aos
direitos reprodutivos e saúde integral devem ser
implantados na prática, pelo governo e pelas ONGS. Urge
um trabalho de conscientização nessas nações que
mais sofreram os
resultados maléficos da neocolonização, como povos
Ressurgidos e junto aos Quilombolas. Essas nações têm
consciência de sua identidade indígena o que
é uma vitória, mas precisam
de apoio em todos os sentidos. E isso é de
responsabilidade governamental, tendo o apoio das Ongs e
parcerizadas com apoio tecnológico, oriundo de
entidades nacionais e internacionais.Outro estudo
importante é sobre povos indígenas emigrados e suas
conseqüências.
As
organizações indígenas devem finalmente, desenvolver
programas de formação de gênero, interagindo a
cultura indígena com a diversidade, identidade,
questão do poder e a transformação,
criando assim seus objetivos e metodologias próprias.
Que possam
promover a justiça social de gênero e conseqüentemente
fortalecer o papel da mulher indígena em todos os
segmentos.
Texto
de Eliane Potiguara
A FORÇA DO CONHECIMENTO ANCESTRAL
Relação
de gênero na espiritualidade indígena e
o combate à violência
Por
quê agüentamos tanta violência? Nós, mulheres dos
segmentos dos povos indígenas e afrodescendentes ainda
agüentamos tanta violência porque não reforçamos a
nossa mulher interna, a mulher selvagem que existe
dentro de nós, a mulher primitiva, no sentido
“primeiro”. Uma mulher deve andar com a força a sua
frente, a profunda natureza intuitiva dessa mulher deve
prevalecer na dualidade obrigatória de toda a mente
feminina. E QUEM DÁ ESSA FORÇA? Receber a herança
ancestral de nossa família ou de uma cultura é uma
missão a cumprir, isso é praticamente obrigatório
dentro da anima. Mas levar adiante essa herança
é SABEDORIA. Quais as rasteiras que devemos dar no
neocolonizador, no opressor político-cultural para
despertarmos a força interior e transformá-la em
sabedoria e arma para o crescimento da humanidade e
melhor qualidade de vida? Como purificar a persona
que existe em nós, com tantos vícios impostos pelo
sistema político e econômico que nos racializa, nos
oprime, nos mata e torna nossa auto-estima deplorável e
faz com que aceitemos pacíficas, durante séculos, a
violência, seja física, psicológica, sexual, mental e
até espiritual!!!! Franz Fanon mostra em seu livro
“Condenados da Terra” os resultados psicológicos
maléficos da opressão política e racial ao povo
argelino e há mais de 20 anos temos lido esse texto, tão
atual ainda nos dias de hoje!!!!
A
chama do conhecimento ancestral seja indígena ou
oriunda de outras raízes deve ser despertada
imediatamente na anima de todas as mulheres e
dos homens também, para que possa despertar o feminino
dentro deles e a parceria homem/mulher seja comungada
dentro dos princípios dos direitos humanos mais
transcendentais. Quando despertamos essa força começamos
a reconhecer a sombra negativa da nossa psique, os
aspectos negativos de nosso comportamento, o nosso
inimigo interno e neste processo começamos a reagir
contra a opressão, o racismo e a destruição causados
a nossa persona, que vai se somando a milhares
e milhares de mentes do planeta Terra nestas partes do
mundo que se permitem chamar “Terceiro Mundo”,
obscuro, oprimido social, racial, econômica e
politicamente.
Os
aspectos da cultura de alguns povos, como o sacrifício
ou a mutilação de partes do sexo feminino numa cultura
oriental é uma distorção cultural causada pela ação
dos imperialistas. E, em outro contexto, a identidade
masculina para defender suas mulheres indígenas, por
exemplo, fazendo com que as mulheres tivessem dor no ato
sexual, vinculando assim o prazer à dor. Assim, as
mulheres indígenas não aceitariam a submissão ou
ofertas de qualquer homem branco que chegasse. Ao longo
da história, o homem teve que mudar seu comportamento
para com a mulher indígena, numa tentativa desesperada
e inconsciente que pudesse preservar a família. No período
da colonização portuguesa e espanhola, no Brasil, os
homens indígenas levavam toda sua família a se jogar
do alto dos penhascos, constituindo o suicídio coletivo
contra a escravidão e a destruição cultural. Nos
tempos modernos, o suicídio, a submissão, o
alcoolismo, a desesperança, têm sido sintomas desta
opressão.
O
empobrecimento econômico de nossas vidas, o racismo, a
intolerância, o desequilíbrio da nossa biodiversidade
causam timidez, conformismo, baixa auto-estima,
sentimento de culpa, infelicidade, angústia interior,
insatisfação constante e concessão ao dominador, sim,
concessão ao dominador. Esse processo desestabiliza o
contexto cultural, espiritual, enfim, a cosmovisão de
cada um de nós, negros e indígenas ou segmentos
oprimidos.
Por
que agüentamos tanta violência subliminar? A intuição
é a mensageira da alma, a intuição é a força do
conhecimento tradicional, ancestral. A tocha da
ancestralidade, inclusive genética, deve ser
trabalhada dentro de cada um de nós, pois ela é riquíssima
em conhecimentos, sejamos indígenas, negros, amarelos
ou brancos. O nosso cérebro, fisicamente, guarda espaços
e tradições jamais alcançados, é preciso
lembrar/despertar da escuridão mental e espiritual e
deixar fluir o inconsciente coletivo para que ele flutue
nos mares da consciência, essa que dá a tônica da
vida. É preciso uma força extraordinária para
resgatar os conceitos e princípios da ancestralidade
que cada um tem dentro de si. É ética. É princípio.
É busca inclusive da paz que vai se somar à construção
da corrente do amor e da ética. Mas, só a conscientização
de quem somos nós, como povos indígenas, ou oriundo de
outras raízes é que vamos perceber, desvelando a
riqueza, a preciosidade que existe adormecida na vastidão
das mentes, dos corações e dos espíritos. O homem –
o homem masculino - que também tenha buscado esse homem
selvagem, esse homem “primeiro”, ancestral dentro de
si, é o verdadeiro homem que vai conquistar o coração
de uma mulher, pois ele vai compreender e reconhecer
profundamente a dualidade feminina, a guerreira e a mãe
doce e pacífica que existem dentro de todas as
mulheres. E a guerreira, a ancestral, a mãe selvagem, a
filha, todas reunidas numa só, não vão mais permitir
a sombra negativa que ronda o planeta Terra, a submissão,
porta aberta para a violência, porque ela, a mulher,
purificando sua persona, vai multiplicar muitas
outras personas, começando pelo seu próprio
filho homem, futuro cidadão, futura cidadania mundial,
para construção da cultura da verdadeira paz e da
igualdade social. E a relação de gênero neste estágio
será bem melhor do que a do tempo contemporâneo, que
nos faz sucumbir à dor, que nos leva ao desamor a nós
mesmos e ao próximo. Nesse processo de reconstrução
do ser humano vamos lapidando o grande diamante que é a
consciência humana.
Homens
e mulheres fortalecidos, que reconheceram mutuamente o
processo de reconstrução da mente e espírito, podem
apoiar a criatura interna, o verdadeiro anima,
o profundo anseio da alma fortalecida pela
ancestralidade que existe dentro de todos nós, a
verdadeira ancestralidade do ser “primeiro” - a força
interior - esses, sim, estarão construindo a grande força
mental e espiritual, a grande FRENTE para a conquista
dos Direitos Humanos neste planeta. E homens e mulheres
estarão fortes para nunca mais permitirem a opressão,
a baixa auto-estima, o conformismo, o racismo, a
desvalorização de si mesmo e da verdadeira persona.
E estaremos fortes e conscientes para lutar e exigir os
nossos direitos civis. Por isso é importante ouvir os sábios
e sábias indígenas e afrodescendentes e culturas
afins. Mas o sistema político e social arrasta os
velhos e as velhas para o corredor da morte lenta,
desvalorizando-os, esquecendo-os. Os caminhos e as
respostas para um novo mundo estão na aquisição e
reconhecimento dos conhecimentos tradicionais das
PRIMEIRAS NAÇÕES deste grande e luminoso asteróide
azul contra o inimigo interno e externo.
É
necessário fazermos uma reavaliação das histórias de
vida de nossos velhos profetas, homens e mulheres, sejam
eles de qualquer etnia, nação, religião, corrente
espiritual dando uma NOVA INTERPRETAÇÃO às suas
palavras. Não interpretações segundo crenças
viciadas, costumes velhos, velhos modelos, velhos
preconceitos, mas novos recomeços e profundas percepções
das filosofias deles, para chegarmos aos verdadeiros
caminhos para a construção dessa paz e ética.
Mas
dentro da cultura indígena, como ocorre o processo de
fortalecimento interior e a preservação da identidade
cultural para a construção da paz e das relações
humanas?
Texto
de Eliane Potiguara
PAJELANÇA: A MAIOR EXPRESSÃO NATA DE DEFESA DOS DIREITOS E DA PROPRIEDADE INTELECTUAL INDÍGENAS
“Ser
líder espiritual, em qualquer lugar, em quaisquer
culturas e tradições significa estar conectado
primeiro com o eu interior, a mulher/o homem selvagem
dentro de si mesmo, como já dissemos, enfim sua intuição
e todos os desdobramentos dela faz-nos remeter às
nossas culturas e espiritualidades tradicionais, dentro
da nossa casa espiritual e mental. Realmente é poder
fazer com que seu cérebro e seu espírito relembrem os
ensinamentos da ancestralidade, como no caso indígena,
por exemplo, em que a herança espiritual é passada de
pai/mãe para filho/filha. Nenhum pajé indígena faz
curso pra ser pajé. O pajé -”ELE É” - e ponto
final e NINGUÉM TIRA. O ser xamã não tem designação
espacial. Ele pode ser do mar, da terra, da cidade, do
campo, das montanhas. É evidente que os lugares mais
tranqüilos, como a mata, por exemplo, são favoráveis
à meditação e à expansão da alma. Quem é líder
espiritual o é em qualquer circunstância. No caso indígena,
pode haver vários filhos numa família, mas um ou dois
somente terem mais qualificação para a
espiritualidade. No entanto, todos os filhos terão a
mesma educação, mas “aquele” se destacará por sua
natureza iluminada, um grande reverente da cultura da
paz e da ética. É intrínseco nele, já traz as
lembranças adormecidas mais favoráveis ao despertar
interior. Os outros irmãos precisam do exercício para
recordar a herança espiritual. As práticas
espirituais, as pajelanças de seus avós, pais ou tios
na sua educação diária desde a tenra infância, vão
funcionando como um elemento motivador, iluminador de
sua trajetória espiritual. E seu fortalecimento só será
complementado quando ele EXPANDIR a sua energia vital e
espiritual - a sua consciência e inconsciência -
direcionadas para sua comunidade, exercendo a cura em
todos os sentidos. E os seus irmãos ou comunidade, aí
sim, podem fortalecer a sua espiritualidade.
O
eixo celular do significado espiritual dentro da casa física
do pajé é o DAR-SE ao próximo. Sem o “dar-se” não
há energia e tão pouco a cura, nem o Poder de realizar
as cerimônias e o Poder do PRESSENTIR. E o pressentir
é remetido para o doar-se. Como vê, é um ciclo...
como é um ciclo a morte e a vida.... A vida e a
morte... A morte e a vida... E o caminho espiritual do
pajé é solitário, assim como o ato de nascer ou de
morrer, ou o ato da criação da arte. É UM ATO SÓ
NOSSO. O pajé, mesmo sem conhecimento científico
urbano do que sejam direitos humanos, é um dos maiores
defensores natos, na teoria e na prática, desses
direitos, além de ser um curador. Ele é o verdadeiro
conhecedor dos conhecimentos tradicionais e de sua
biodiversidade: PATRIMÔNIO CULTURAL DE POVO,
PROPRIEDADE INTELECTUAL DE SEU POVO.
Texto
de Eliane Potiguara
MIGRAÇÃO E RACISMO
Imposições
Culturais aos Povos Indígenas e
suas Consequências
O
processo de colonização e neocolonização dos povos
Indígenas do Brasil levou-os ao trabalho semi-escravo,
num regime de exploração causado pela intromissão de
milhares de segmentos, tais como madeireiros,
garimpeiros, latifundiários, mineradoras,
caminhoneiros, empresários das hidroelétricas,
rodovias, pistas de pouso etc...
Tal
intromissão, conivente com políticas locais, com a
falta de vontade política e com a omissão
governamental, causou nas últimas décadas o
desmatamento, o assoreamento dos rios, a poluição
ambiental e a diminuição da biodiversidade local,
entre outros estragos. As invasões trouxeram as
enfermidades, a fome, o empobrecimento compulsório da
população indígena. E, mais, as dificuldades locais
levaram muitas pessoas à migração, a submeterem-se ao
trabalho semi-escravo, às péssimas condições de
moradias (favelas, casas de palafitas na periferia dos
centros urbanos).
As
invasões trouxeram também distúrbios mentais, como a
loucura, o alcoolismo, o suicídio, a violência
interpessoal, tudo isso afetando consideravelmente a
auto-estima dos seres humanos indígenas. Podemos
perceber claramente que todos esses sintomas são
causados pelo racismo subliminar do poderio do Estado e
reações discriminatórias subliminares, “sem a menor
intenção…”, da sociedade brasileira, oriunda da
miscigenação entre brancos e negros, entre índios e
brancos ou entre negros e índios. O desejo de ascensão
da população miscigenada e/ou branca é construído
com base no racismo implícito e no processo de escravidão,
semi-escravidão, exploração da mão-de-obra barata
dos segmentos da sociedade mais oprimidos, como os miseráveis
pobres e negros e a população indígena.
A
colonização e a neocolonização, no entanto, são
refletidas também por grupos de interesses religiosos
que ao longo da História do Brasil vêm confundindo a
cosmologia indígena com ideologias e fundamentos
alheios à realidade tradicional. Impor culturas
dominantes é uma forma de racismo. O paternalismo
oficioso e governamental, o paternalismo eclesiástico
também, todos são forma de racismo, por melhores que
sejam as intenções, mas como diz um grande filósofo
“de boas intenções está pavimentado o caminho do
inferno”.
A
demarcação das terras indígenas nunca foi uma
prioridade governamental. Nunca se criou uma política
que garantisse e respeitasse os povos indígenas como
unidades sócio-políticos-culturais distintas. Nunca se
cogitou de uma política voltada para os interesses e
projetos, propostos pelos povos indígenas, de
auto-sustentação econômica, baseados em sua
biodiversidade com segurança para a saúde, educação,
agricultura, trabalho, desenvolvimento e direitos
humanos e reprodutivos.
Por
todas essas razões, há muitas décadas, muitas lideranças
têm sido sacrificadas por lutar por seus direitos. Os
casos mais atuais referem-se ao assassinato de Marçal
Tupã-Y, ao caso dos 14 índios Tikunas na década de
80, ao caso do assassinato dos 16 índios Yanomamis em
1993 e ao caso do índio Galdino, do Povo Pataxó
queimado em Brasília um exemplo clássico de racismo
urbano e violento, em 1997. Todos esses casos continuam
impunes, com exceção do último. Ainda existem outros
casos anônimos e casos abafados no presente e no
passado de indígenas que lutam pelos seus direitos, por
temerem represálias ou por estarem abalados moral e
psicologicamente.
O
Governo brasileiro tem protegido os interesses das
mineradoras em territórios indígenas e protegido
sempre os empresários e políticos locais.
Uma
mulher indígena Potiguara me contou um dia: “Eu
estava em casa sozinha, cozinhando, entrou um
homem-peixe em minha casa e me tomou o espírito e
foi-se embora. Nunca mais o vi, mas sempre ia à
beira-mar esperar por ele”. Os dias se passaram, os
meses, os anos... A mulher estava louca e velha. Havia
passado toda uma vida e a velha esperava seu
homem-peixe, desde que acontecera aquele incidente. A
menina-moça estava em casa sozinha, entrou um
colonizador local inescrupuloso nos anos 40, a violentou
sexualmente e fugiu... O desastre à mente daquela criança
foi tamanho que o universo cultural foi completamente
confundido, tornando-a uma criança –mulher- velha
maltrapilha e louca!!! Quantas histórias dessas
teremos? Já pesquisamos as histórias das mulheres indígenas
que migram para Manaus, Belém, Recife, Salvador, Porto
Alegre, Rio de Janeiro? Minha própria família,
violentada nos seus direitos humanos, migrou para o Rio
de Janeiro e nas ruas permaneceu até conseguir moradia
no baixo-meretrício próximo à estação ferroviária
da Central do Brasil! Era o início do inferno que iria
destruir e matar todas as mulheres dessa família. Mas
se pode florir no meio do lixo quando se pode escrever
um texto como esse!!!!!
Outro
caso a que podemos nos referir trata de um chefe da nação
macuxi (Jornal do Brasil/ 10/07/80) que nos conta sobre
a situação das mulheres:
“Quando
o branco chegou nas nossas terras, o índio pensava que
branco era do lado de Deus, índio pensava que Deus
tinha vindo visitar. De fato, branco tem tudo e índio não
tem nada: branco tem arame farpado, nós não temos:
branco tem livro, nós não temos: branco tem machado de
ferro, nós não temos: branco tem carro, nós não
temos: branco tem avião, nós não temos(...) Mas
branco veio e roubou as nossas terras; e o índio não
podia mais caçar. Falou que as terras boas eram dele,
falou que os peixes dos rios e dos lagos eram dele.
Depois trouxe doenças. E DEPOIS SE APROVEITOU DE NOSSAS
MULHERES. E o índio se revoltou. Então o branco matou
os nossos avós, matou, massacrou muito, e o índio
fugia tão rápido como a coisa mais rápida. Então o
índio entendeu que o Deus do branco era ruim”.
Texto
de Eliane Potiguara
MULHER INDIGENA: MÃE, MULHER, PROFESSORA OU MILITANTE
Amilcar
Cabral, na luta revolucionária na Guiné Bissau/África,
há umas três décadas, enfocava que “a cultura deve
ser utilizada como instrumento de libertação
nacional”. Complementando o raciocínio, podemos dizer
que a libertação do povo indígena passa radicalmente
pela cultura, pela espiritualidade e pela cosmologia das
mulheres. O papel da mulher na luta pela identidade é
natural, espontâneo e indispensável. A mulher tem a
função política de gerar o filho e educá-lo conforme
as tradições, assim como na sociedade envolvente. Se
criarmos um adolescente num ambiente de tráfico de
drogas ele poderá vir a ser um marginal procurado pela
polícia. Com relação à cultura indígena, a mulher
é uma fonte de energias, é intuição, é a mulher
selvagem não no sentido primitivo da palavra, mas
selvagem como desprovida de vícios impostos pela
sociedade, uma mulher sutil, uma mulher primeira,
um espírito em harmonia, uma mulher intuitiva em evolução
para sua sociedade e o bem-estar do planeta Terra. Essa
mulher não está condicionada psicológica e
historicamente a transmitir o espírito de competição
e dominação segundo os moldes da sociedade contemporânea.
O poder dela é outro. Seu poder é o conhecimento
passado através dos séculos, e que está reprimido
pela história. A mulher intuitivamente protege os seios
e o ventre contra seu dominador, e busca forças nos
antepassados e nos espíritos da natureza para a
sobrevivência da família. Assim é a Educação Indígena.
Todos esses aspectos foram mais preservados na mulher do
que no homem.
E
o movimento indígena brasileiro, que vem crescendo nos
últimos 20 anos, hoje se constituiu em centenas de
organizações locais ou nacionais que lutam pela
interlocução com os governos, organizações que
participam de fóruns nacionais e internacionais e
constróem a importante Declaração Universal dos
Direitos Indígenas nas Nações Unidas, além de
ter conquistado um primeiro espaço dentro do Sistema da
ONU, o Fórum Permanente para Povos Indígenas,
onde nós tivemos uma importante participação.
Em
resumo, o governo deve reconhecer, na prática,
o fator pluricultural e diferenciado dos Povos Indígenas,
incluindo os direitos relativos a gênero, direitos
sexuais e reprodutivos das mulheres indígenas.
As
terras indígenas devem ser definitivamente demarcadas
como garantia à integridade física, social, cultural,
econômica e psicológica dos povos indígenas e, em
particular, das mulheres, das velhas, viúvas e mães
solteiras.
Os
invasores devem ser definitivamente retirados para
garantir a sobrevivência e segurança das mulheres, das
crianças e das velhas(os).
Os
programas de desenvolvimento da mulher em instância
nacional devem ser estendidos às mulheres indígenas,
desde que a comunidade seja consultada e dentro do que
espera e necessita esse povo. Urge um novo Estatuto do
Índio formalizado pelos próprios povos indígenas.
Deve-se,
também, especificar detalhadamente medidas
emergenciais, ações afirmativas, que defendam em rápido
prazo os direitos das mães solteiras, viúvas, mães
anciãs contra a violência doméstica e social e que se
criem políticas públicas para tal e que os direitos
dos povos indígenas sejam garantidos realmente. Na prática.
Texto
de Eliane Potiguara
LITERATURA INDÍGENA: Instrumento de conscientização
Texto
de nossa diretora Eliane Potiguara (Subsídio para
escolas e técnicos)
Avanços na luta do movimento indígena brasileiro têm
se dado de forma concreta. Apesar de algumas
dificuldades, e apesar de alguns pontos isolados como
falta de apoio das políticas públicas ainda, a Educação
Indígena _ hoje_ no Brasil já é uma realidade. É uma
Educação diferenciada, onde a cosmologia indígena está
ali inserida no seu sentido mais amplo. Dentro deste
aspecto, há de se situar a Literatura Indígena como um
instrumento de conscientização, força e libertação.
Essa Literatura deve ser incentivada através da Educação
Indígena, no dia a dia das escolas, para que os próprios
indígenas sejam realmente os interlocutores de suas
culturas, tradições e visões de vida. No entanto,
outro aspecto de fundamental importância há de se
considerar. É a tradicionalidade do discurso oral pelos
componentes mais idosos, idosas e pajés da comunidade
que não pode, de forma alguma, ser ignorado. Na
realidade, esse discurso é a base sólida, é a
conceituação, são os princípios primordiais étnicos
que fundamentam essa tradição e que fundamentarão a
escrita, a partir de valores lingüísticos próprios de
cada povo indígena.
Diante do mundo moderno e de alguns aspectos maléficos
da neocolonização e globalização, se reforça que é
necessário o registro escrito, realizado pelos próprios
indígenas como uma medida de precaução e cuidado para
que o “contar” e historiografia indígenas, não
caiam no domínio público, ou que terceiros ou instituições
sejam beneficiados nos aspectos financeiro, histórico e
moral pelos direitos autorais.
Povos indígenas do mundo inteiro lutam, através dos fóruns
nacionais e internacionais pela conservação da
cosmologia, contra predadores naturais ou impostos, no
caso de filosofias burguesas, religiosas, filosofias de
cunho “pátreo-pseudo-moral”, filosofias coloniais
ou imperialistas. O empobrecimento social das etnias
também é um fator que causa a perda dos valores
culturais, espirituais, éticos. Ali as mulheres, as
crianças e os velhos e as velhas acabam sendo muito
mais sobrecarregados pelo peso da discriminação social
e racial, como é o caso da situação de fome e suicídio
no Mato-Grosso do Sul/Brasil. O empobrecimento e a
destruição das terras indígenas também são fatores
de alto risco. Centenas de exemplos se têm dessa situação.
A literatura indígena cumpre o papel de resgate,
preservação cultural, fortalecimento das cosmovisões
étnicas.O futuro escritor indígena deve ser já
incentivado, na aprendizagem da Educação bilíngüe e
Educação em geral, desde pequeno. O escritor indígena
é o futuro antropólogo, aquele que vê, enxerga e
registra. Povos indígenas devem caminhar com seus próprios
pés.
Núcleos de pensadores e escritores devem ser também
incentivados e capacitados dentro das Organizações indígenas,
assim como muitas vezes, falou-se em discutir a questão
de gênero, de raça e etnia nas Assembléias. Os
problemas identificados devem ser imediatamente
direcionados para estudos objetivando estratégias,
mecanismos que busquem a solução das dificuldades, dos
conflitos e das diferenças.
Quando a rosa desabrocha, as abelhas vêm
espontaneamente sugar-lhe o mel. Deixemos que a rosa de
nosso coração, de nossa alma e caráter desabroche
completamente na sociedade brasileira, a partir de um
testemunho de nossa capacidade, auto-gestão, diálogo e
ética, para que essa sociedade desconstrua,
rapidamente, o discurso e prática atuais que causam a
exclusão de povos indígenas. Os resultados e o
respeito aparecerão.
Pensadores e escritores indígenas: Contem e criem então!
Texto
de Eliane Potiguara
POVOS INDÍGENAS NA PRIMEIRA CONFERÊNCIA NACIONAL DE PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL
GRUMIN/Rede
de Comunicação Indígena
POVOS
INDÍGENAS NA 1ª CONFERÊNCIA NACIONAL DE PROMOÇÃO
DA IGUALDADE RACIAL
Por: Eliane Potiguara
Cerca
de 70 delegados e delegadas indígenas de todo o
Brasil, participaram da 1ª CONAPIR, em Brasília, de
30/6 a 2/7 de 2005, no Centro de Convenções, ao lado
de
mais de 1500 delegados dos segmentos
afro-descendentes, ciganos, muçulmanos, judeus entre
outros coordenados pela Ministra afro-descendente
Matilde Ribeiro.
Mais
que uma Conferência de maior importância política
no país, esse grande encontro foi um momento histórico
esperado há séculos.Por isso, espera-se que o
Governo
libere mais recursos para a Seppir (que se encontra
sob ameaça de se extinguir), pois os 17 milhões no
orçamento total da entidade não dá para fazer nada.
Povos
indígenas reuniram-se no segundo dia _
especificamente_ para revisar e aprovar cerca de 130
propostas que os beneficiem social, econômico e
politicamente.
A
Secretaria Especial para Povos Indígenas, aprovada
pela plenária, foi ali colocada com grande ênfase no
sentido de que, essa Secretaria seja vinculada
diretamente ao
Governo Federal e tenha status de Ministério. Por
outro lado o órgão indigenista de apoio ao índio_
FUNAI_ estaria subordinado a essa Secretaria. Sendo
assim a Secretaria Especial para Povos Indígenas,
coordenado por indígenas e assessorias de sua confiança,
traçariam as metas para povos indígenas no país,
para que realmente os Direitos Constitucionais sejam
revistos e aplicados num futuro próximo.As políticas
indigenistas dos governos anteriores nunca
beneficiaram esse contingente que espera reparação
histórica por tanto sofrimento e genocídio que
passou ao longo de cinco séculos.
Povos
indígenas e suas organizações enchem-se da maior
esperança no Governo Lula da Silva para a concretização
desse grande projeto e desde já se mobilizam em seus
Estados, Municípios e regiões para essa política.
Ao lado disso, buscam promover Campanhas informativas
e de conscientização para tal, como Conferências,
Seminários,
Grupos de Trabalhos e difusão de informações.
Muitas entidades indigenistas parceiras dos Povos Indígenas,
já estão favoráveis há algum tempo por essa mudança
e já vêm traçando estratégias para tal. Os
expositores na Conferência foram Vilmar Guarani/Funai
e Marcos Terena - Comitêintertribal e a debatedora
foi Graciliana Xucurú Kariri/APOINME Articulação
dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito
Santo.
O
GRUMIN/Rede de Comunicação Indígena esteve
presente, participando não só da delegação eleita
como que registrando esse momento histórico.Sobre as
propostas ali
colocadas vejam brevemente no site: h
http://grumin.blogspot.com
ELIANE
POTIGUARA(Indicada ao Prêmio Nobel da Paz, no Projeto
1000 Mulheres).
A TÃO ALMEJADA DIGNIDADE
Eliane
Potiguara, 20 de março de 2003
Há
muito tempo, os povos indígenas esperam atingir um grau
de dignidade, respeito e direitos. Povos indígenas
devem gerenciar suas lutas, reivindicações e
conquistas. Povos indígenas são etnias, diversas
etnias neste país. Uma, duas ou três organizações
indígenas e indigenistas – mesmo legítimas
batalhadoras, confiáveis – não podem representar a
totalidade dos povos indígenas do Brasil, pois
constituiria-se, assim, um processo de unilateralidade,
o que não é.
A
luta é para conquistar direitos e não para substituir
órgão paternalista, impregnado de ranços e vícios
dos governos anteriores. Não esqueçamos que
paternalismo ainda é uma forma de racismo, preconceito
social, racial, xenófobo e isso foi debatido na última
Conferência Internacional da ONU contra o Racismo, em
Durban, África do Sul. Não adianta substituir cadeiras
velhas por remendadas. Mas sim construir assentos
seguros e que agüentem o peso da história e do futuro.
Estamos
vivendo tempos diferentes, onde realmente muitas ONGs
indigenistas apoiaram a construção do movimento indígena.
Isso deve ser sempre verdadeiramente reconhecido. Mas o
movimento indígena, por melhor que sejam as intenções
das vertentes indigenistas, ainda não é um movimento
único e nacional. Ainda há centenas de organizações,
associações, grupos isolados, indivíduos, enfim
pensamentos indígenas nesse Brasil afora que não
puderam ou não querem fazer parte de uma vertente, seja
ela qual for, da Igreja, da Universidade, das ONGs, do
Governo, e até de Organizações indígenas de peso,
etc.
O
mais importante é compreender que um dia as vertentes
devem deixar livre o caminho para os povos indígenas
assumirem seu destino nas suas próprias mãos e
caminhar com seus próprios pés. Essa atitude das
vertentes deve ser de Vontade Política. E isso precisa
ficar sempre claro. Isso, na minha opinião, não está
claro.
Por
toda a minha vida eu observo com olhos de águia e com
olhos reflexivos e críticos dos ancestrais indígenas
vilipendiados neste país a sutileza subliminar da
necessidade do "poder" que as vertentes
implementam, mesmo com as mais boas intenções. Não se
deve ensinar isso aos povos indígenas, pois eles podem
aprender essa tática e perder a ética indígena e as
tradições de se ouvir em primeiro lugar os velhos(as)
e as lideranças antigas que passaram indefesas pelas
arbitrariedades históricas, sociais e políticas.
Povos
indígenas!: Construam organizações, mesmo que sejam
dentro de suas casas, e assumam as rédeas dessa frente,
pois com certeza haverá muito trabalho, empregos,
projetos, finanças, cargos, postos, teses, idéias a
serem gerenciadas pelos próprios povos indígenas. E os
próprios povos indígenas serão os beneficiados, com
os resultados dessa implementação como o
desenvolvimento, os recursos financeiros, os resultados
jurídicos que beneficiem suas vidas lhes trazendo a tão
almejada Dignidade.
Texto
de Eliane Potiguara
XENOFOBIA X NOVA ÉTICA
XENOFOBIA:
Essa palavra significa aversão e discriminação às
pessoas estrangeiras deslocadas e em sentido político,
aversão às pessoas diferenciadas, imigrantes,
pessoas ou famílias que deslocaram-se a outro
lugar por conflitos sociais, econômicos, guerras,
colonizações, conflitos inter-pessoais, conflitos
intra-familiares e situações similares, para encontrar
a paz, mas encontram discriminação por seus semelhantes.
Esse tipo de mentalidade xenófoba que se refere a "índio
de Brasília, a índio desaldeado, a índio
descendente" ou a índio de qualquer
cidade, esses segmentos que se contrapõem as
pessoas indígenas que vivem dentro das aldeias é uma
ato de discriminação, INCENTIVADO pela política
indigenista oficial ou não. Neste ponto altamente específico, falo
sobre essência, sobre filosofia, ética, não falo
sobre política. Que se escolha um Presidente indígena,
mas nunca se analise pelo enfoque xenófobo ,
pois é um enfoque arbitrário, injusto, na
medida em que ninguém sabe as razões pelas quais,
aquele ou este indígena possa ter IMIGRADO DAS TERRAS
ORIGINAIS DE SEUS ANCESTRAIS. Se o indivíduo indígena
imigrante está na luta pelos direitos humanos dos
povos indígenas e vive em cidades, ele o faz por
pura ideologia, porque seu sangue corre em suas veias(
naturalmente abertas pelo peso do racismo, pela opressão
política e social que seus avós sofreram no passado).
The First Nations do Canadá, assim como IITC(
International Indian Treaty Council) são orgs. indígenas
que surgiram oriundas de pessoas indígenas
imigrantes, também. Leonardo Perltier é um indígena
imigrante que por tanta discriminação a sua pessoa, e
por sofrer problemas sociais gravíssimos foi
acusado de cometer um crime de morte e está na
cadeia ha mais de 10 anos.Há centenas de casos de
arbitrariedades à indígenas "DESPLAZADOS"(
deslocados) por conflito, por guerras, por
conflitos internos nas próprias áreas indígenas, por
conflitos inter-pessoais e até inter-familiares.As org.
indígenas de cunho urbano não tem sobrevivido por
essas discriminações ou sofrem críticas instigadas
por algumas instituições indigenistas.É PRECISO
SAIRMOS DA OBSCURIDADE MENTAL!!!!
Estamos
vivendo tempos de profundas mudanças de MENTALIDADE. É
tempo realmente de se analisar as situações com muito
cuidado, para nunca mais PERPETUARMOS os vícios do
colonizador, neocolonizador e dos atuais donos dos índios
e índias. É tempo e unir forças, e divisões entre
lideranças indígenas só tem enfraquecido o movimento
que o torna vulnerável, alvo de olhares de aves rapina
que vêem na questão indígena uma forma de análise.
Os "diretores dos índios",
instituído no século XVIII, NUNCA VÃO ACABAR EM
DETRIMENTO da fragilidade da questão.Os indígenas que
por ventura vestem a capa dos
"Diretores dos índios" por inconsciência
ou oportunismo, devem fazer uma auto-crítica.
Os indígenas que trabalham dentro da FUNAI devem fazê-lo
com responsabilidade, ética, visando puramente os
direitos indígenas, para que não sejam alvo de críticas,
pois esses estão mais expostos.Aqueles que trabalham na
FUNAI com esse zelo, dentro do espírito de luta devem
ser respeitados, pois se o Chefe de Posto
"branco" é respeitado, porque o indígena
Chefe de Posto, por exemplo, não poderá sê-lo? O
funcionário indígena que não comunga com os direitos
dos Povos Indígenas, deve ser chamado a atenção, não
por viver em Brasília, mas por suas atitudes POLÍTICAS.
Se a FUNAI brevemente for dos índi@s,
toda Brasília acolherá novos cidadãos/ãs oriundos
das malocas.Então a questão não passa por estar ou não
em Brasília, ou numa outra cidade grande.Passa pelo caráter,
pela hombridade e pelo sua estreita relação com seus
antepassados.Os indígenas americanos chegaram a um
patamar onde a sua organização oficial ( a FUNAI de lá,
por exemplo) é constituída por indígenas, inclusive
deslocados. Foram eles que encaminharam a
primeira moção de repúdio à violação dos
Direitos Humanos dos Povos Indígenas do Brasil para a
ONU, na década passada.
A
análise para se escolher um indígena para Presidente
da FUNAI, em tempo algum deva passar pela XENOFOBIA. A
ANÁLISE DE ESCOLHA DEVE SER FEITA COM DIPLOMACIA,
DENTRO DO ESPÍRITO DA PAZ, COM CRITÉRIOS ALTAMENTE ÉTICOS,
RESPONSÁVEIS, TOMANDO EM CONSIDERAÇÃO A HISTÓRIA POLÍTICA
SIM, mas sem passar pela XENOFOBIA,
tema tão discutido na última Conferência Mundial
contra o Racismo na África do Sul, promovida pelas Nações
Unidas. Veja bem, esse meu questionamento
passa por esse ponto, exclusivamente.E É TEMPO DE PARAR
COM DISCRIMINAÇÕES CONTRA INDÍGENAS A ou B.É
tempo de aniquilar o inimigo interno que vive dentro de
nós. É tempo de soltar as amarras do preconceito
e dos interesses pessoais. A inteligência, o força
da casa espiritual de cada um, a capacidade, a ética, o
caráter, a história pessoal, o poder da diplomacia,
o sentimento ético do próprio significado do poder
e o saber analisar sem discriminações_ a
sabedoria que aprendemos de noss@s
ancestrais_ são segmentos a serem
contemplados na escolha de um Presidente da FUNAI
competente, de origem indígena. Aliás já é
tempo da Funai ter esse tipo de PRESIDENTE.Que Brasília
seja homenageada com a presença de futuros e
atuais indígenas dignos, éticos, lutadores pelos
direitos indígenas.Os que não estão de acordo com os
verdadeiros direitos indígenas devem se retirar,
sejam brancos ou indígenas.A Universidade Indígena
é um ótimo caminho para a construção da nova
ética para os/as próprios/as indígenas assumirem
seus destinos em suas próprias mãos.Isso é Ação
Afirmativa e Xenofobia é crime.Óh!
Criador, fazei com que as mentes se abram e se elevem ao
sagrado da SABEDORIA E DA NEUTRALIDADE ÉTICA para
o exercício dos direitos indígenas a favor da paz das
mulheres, d@s
velh@s,
das crianças e dos homens. Eliane Potiguara( 53
anos, mãe, mulher e avó, neta e filha de
imigrantes indígenas, só isso)
XENOFOBIA:
aversão e discriminação às pessoas estrangeiras
e deslocadas e em sentido político, aversão às
pessoas diferenciadas, imigrantes, pessoas ou famílias
que deslocaram-se a outro lugar por conflitos
sociais, econômicos, guerras, colonizações, conflitos
inter-pessoais, conflitos intra-familiares e situações
similares, para encontrar a paz, mas encontram
discriminação por seus semelhantes.
Texto
de Eliane Potiguara
DIAMANTE INTERNO: O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA
Toda
a Humanidade em sua maioria e no seu mais profundo
momento íntimo busca o despertar da consciência
humana. Nos seus momentos de silêncio e reflexão, por
mais alienada que seja, a sociedade certamente busca o
resgate de algo que se perdeu no nosso passado histórico.
Há milhões e milhões de anos, seres humanos buscam
dignidade de vida enfrentando poderes, não só ocultos,
mas poderes culturais e sócio-econômicos. Não quero
entrar na discussão do porquê de tudo isso, porque
entraria em filosofias, correntes, divergências,
processos históricos, etc. Quero apenas enfatizar que o
ser humano é um eterno buscador. Ele busca a alegria, a
felicidade, a paz, melhores condições de vida para si
e seus semelhantes.
A
maneira que a humanidade encontrou para resistir às
adversidades da vida e encontrar as respostas para
aquilo que perdeu ou esqueceu é através da
religiosidade, da espiritualidade, da concentração e
dos estudos, na busca do conhecimento contra a ignorância
imposta, subliminarmente forjada pelo Poder. Nesse
sentido, aquele que procura, depara-se com o fenômeno
do despertar da consciência.
"Séculos
e séculos se passaram e centenas de representações
religiosas ou espirituais foram criadas de acordo com a
cultura e cosmovisão de cada povo, de cada etnia,
principalmente de acordo com os padrões sócio-econômicos
da cada um. Imagens, cerimônias, mitologias, liturgias,
símbolos, tambores, chocalhos e atabaques são conseqüências
das criações, não fazem mal a ninguém. São expressões
da arte na religiosidade e na espiritualidade. O que faz
mal é a pretensão de querer ser melhor do que os
outros ou ser o dono da razão, quando existe uma grande
diversidade de pensamentos entre a humanidade",
escrevi num texto sobre "intolerância
interseccional", publicado na Agência de Imprensa
Indígena (AIPIN), (México, 2005).
Lamentavelmente,
algumas correntes religiosas associadas ao grande
capital, no passado, buscaram a hegemonia,
desconsiderando, a partir de seus próprios juízos de
valor morais, éticos e filosóficos, a fé dos povos
que subjugavam. Cada vez que povos ou etnias sentiam-se
rejeitados, subjugados, racializados, mais crescia a sua
fé e suas crenças através da liderança do pajé ou
ialorixá/ babalorixá, no caso dos povos indígenas das
Américas e da África respectivamente - povos
resistentes que praticavam a conexão do homem com o
sagrado. Cada vez mais fortaleciam suas culturas, tradições
e cosmovisão. Assim foi a história dos povos aborígines,
dos povos indígenas, dos povos nativos dos grandes
continentes até hoje. Por isso a resistência indígena
é forte no planeta Terra. Há de se ouvir a voz indígena!
O
capital dividiu povos ricos e pobres e fracionou as
mentalidades. Baseados em culturas particulares surgiram
centenas de líderes religiosos e espirituais, como, por
exemplo, Maomé, Buda, Jesus Cristo, Oxalá e Krishna,
todos pregando a mesma filosofia através dos tempos.
Todos são atrelados à Poderosa Força Cósmica, ao
Criador, ao Grande Espírito e ao Cristo Cósmico, ao
Buda Cósmico ou a Oxalá, dependendo de cada cultura ou
vertente. Tudo isto representa uma grande riqueza
espiritual! É preciso enxergar a unidade na
diversidade.
O
xamanismo é um termo que designa a filosofia de estar
em viagem entre mundos mentais, físicos, espirituais,
psicológicos. Não é uma religião. É uma forma de
estar na vida e no Planeta. Povos contestadores das
religiões impostas adaptaram-se a esse estar no mundo,
ao longo do tempo. Antigos povos já praticavam essa
filosofia. Na modernidade, seres conscientes adquiriram
o sentimento de amor pela Mãe-Terra e entenderam que
era necessária a prática da conservação do Planeta
Terra - daí todo "ser xamânico" ser holístico.
Aqueles que verdadeiramente estiverem dentro desses padrões,
são Visionários. Os que mentem ou comercializam a fé,
não permanecerão.
Povos
indígenas, afeiçoados à sua cultura, tradições,
educação, saúde e espiritualidades diferenciadas
fortaleceram sua cosmovisão diante do mundo e mostraram
sua defesa publicamente, através dos movimentos
organizados, nos planos nacional e internacional. A
exemplo disso, cita-se a defesa da cultura através da
legislação específica que foi criada dentro das Nações
Unidas, com o Grupo de Trabalho sobre Povos Indígenas,
que trabalhou vinte anos para produzir a Declaração
Universal dos Povos Indígenas.
No
Brasil, centenas de organizações indígenas buscam o
mesmo objetivo: a defesa do conhecimento ancestral, do
patrimônio cultural.
Cito
aqui um pequeno texto de uma carta elaborada por um
conjunto de pajés em 2004:
(...)"Tendo
em consideração a necessária defesa do direito de
nossos povos diante dos processos de apropriação
destes saberes e visões próprias, herdadas de nossos
ancestrais, insiste na afirmação de princípios
fundamentais à dignidade dos povos, pressupondo o
respeito à livre e esclarecida decisão quanto ao
acesso e uso do acervo de conhecimentos que envolvem a
sensível e frágil Teia da Vida, que em nossas culturas
ainda se constitui no verdadeiro patrimônio da
humanidade, não podendo estar disponível para os usos
e acessos previstos nas discussões entre governos (OMC,
OMPI) e representantes das empresas no amplo processo de
negociação das partes acerca dos recursos genéticos,
conhecimentos tradicionais e patrimônios culturais dos
povos indígenas".O patrimônio dos povos indígenas
não está disponível para usos e acessos.
O
povo brasileiro é um povo muito místico. É intuitivo,
importa-se com os sonhos. É religioso. Traz no seu
interior a herança dos povos indígenas, povos negros,
povos amarelos, povos brancos - como se vê na nossa
diversidade de religiões e espiritualidades.
O
bonito é o respeito entre crenças, fés e doutrinas. O
xamanismo e a pajelança são vertentes diferentes, por
isso xamã é xamã e pajé é pajé, assim como o padre
é padre e o pastor ou pai ou mãe de santo são eles
mesmos. Cada um tem seu tempo de trabalho e formação
próprios e específicos. O intercâmbio é maravilhoso
e o ecumenismo deveria ser mais ativo no Brasil!
Nas
tradições indígenas, o pajé é a expressão máxima
representada, em forma humana, da espiritualidade e da
cura. Seu dom é nato, porque é passado de geração
para a geração. Nenhum pajé faz curso para ser pajé,
ele adquire conhecimentos através da ancestralidade
tribal, e desde a sua infância, ao ver seus avós e
bisavós praticarem curas e rezas pelo bem da
comunidade. O pajé é um ser totalmente desprovido de
valores materiais. É um visionário nato. Seu maior bem
é o dom ofertado com honras pelo Criador. Ele está
sempre em conexão com o mundo atemporal, com atitudes
concentradas e observadoras. O pajé é um sábio e está
sempre disponível para atender o seu povo, doando sua
cura de forma "solidária". Não há uma relação
capitalista entre pajé e doente, entre o pajé e a
comunidade. O pajé e sua pajelança representam, na
realidade, a maior expressão nata dos conhecimentos
tradicionais, a propriedade intelectual indígena, mesmo
que ele não tenha conhecimentos científicos para
compreender a defesa dos seus direitos indígenas. Por
outro lado, cada pajé pertence a uma etnia específica
indígena provida de valores, costumes, crenças específicas.
Um pajé de uma certa etnia pode agir de forma distinta
de um pajé de outra etnia. O pajé pode ter, se quiser,
uma relação capitalista com indivíduos urbanos, pois
o seu ofício equivale ao de um médico entre nós.
Nas
tradições africanas, é o ialorixá ou babalorixá que
representa estes conhecimentos. É ele quem mantém a
resistência viva. O pajé, o xamã, os ialorixás, os
babalorixás, os padres e os sacerdotes despertam a
nossa consciência, nos fazem lembrar que somos todos
iguais.
O
que nós humanos estamos precisando lembrar, no fundo de
nossos corações, no fundo de nossos neurônios
adormecidos e no fundo de nossa alma primeira, é deste
bem precioso, um diamante que perdemos ou esquecemos, um
passaporte ético para a verdadeira Nova Era. Esse é o
esforço que temos que fazer para resgatar essa memória
ancestral perdida através de milhões e milhões de
anos - somente assim o sofrimento e as diferenças não
existirão mais entre nós, seres terráqueos.
Para
isso, é necessário que os espíritos da Inteligência,
da Humildade, da Fraternidade, da Fé, do Amor
Universal, da Justiça, da Força e da Paz - atrelados
à grande Mente Ancestral (O grande espírito, o
Criador) que está dentro de nós - sejam trabalhados em
todos os corações através da observação, da
concentração, do estudo e da aplicação desses bens
divinos à Humanidade.
Esses
espíritos em cada cultura podem ser representados de
formas diferentes como, por exemplo: na forma entes da
natureza (aves, peixes, mamíferos); terra, água, ar,
fogo; pontos cardeais (norte, sul, leste, oeste);
planetas e manifestações da natureza, como a lua, o
sol, as estrelas, o trovão, os raios, as tempestades,
os maremotos, os rios, as cascatas, as cachoeiras, os
mares, as chuvas; os mensageiros de Deus, os anjos, os
arcanjos e os santos. Enfim, uma gama elementos da própria
natureza. O importante é a essência, não a forma!
Respeitemos a cultura de cada povo e suas representações
simbólicas, porque tudo é muito lindo e abençoado é
aquele que compreende essa riqueza de expressão e
sentimentos.
Texto
de Eliane Potiguara
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