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GRUMIN/Rede
de Comunicação Indígena
Ano 2- Edição nº 08
- MAIO/2006/BRASIL
11-
MULHERES INDÍGENAS:
Graça
Graúna[i]
Na História indígena, as organizações têm
propiciado o surgimento de líderes e novas
formas de aliança, mobilizando as
comunidades locais e mostrando a necessidade
de se constituir representações indígenas
em várias regiões do Brasil; algumas se
articulam em um só povo, outras em uma
categoria.
Para Leonardo Boff, existem 73 organizações
indígenas registradas em cartório e 24
organizações não-governamentais de apoio
aos povos indígenas, isto é, indigenistas
ou comandadas por não-índios. No
entender de Boff, a Rede de Comunicação
Indígena sobre Gênero e Direito (Grumin)
pertence ao quadro das Ongs indigenidtas.
Todavia, convém esclarecer que o Grumin foi
fundado juridicamente em 1986, por Eliane
Potiguara: uma remanescente dos Potiguara e
indicada, também com outras brasileiras, ao
Prêmio Nobel da Paz - 2005. A
classificação e a informação de Leonardo
Boff parecem equivocadas; considerando que
um dos critérios mais aceitos em torno da
questão identitária começa pela
“auto-definição”. Para dizer se uma
pessoa ou uma organização é ou não indígena,
é ou não descendente, convém observar o
que diz Roberto Homem Mello, na Revista
Problemas Brasileiros:
Atualmente, o mais aceito é o da
auto-identificação étnica, segundo o qual
o que classifica ou não um grupo de indivíduos
como indígenas 'é o fato de eles próprios
se considerarem índios ou não e de serem
considerados índios ou não pela população
que os cerca', como define o antropólogo
Julio Cesar Mellati.
As informações de Roberto Homem Mello e
outros estudiosos confirmam a existência de
aproximadamente 300 organizações indígenas
"muito diferentes entre si [que podem]
representar membros de um povo ou parte dele
(só as mulheres ou professores, por
exemplo) ou vários povos de uma região".
Se as organizações representadas pelos
homens indígenas são entidades
relativamente recentes, as dezesseis
representações formadas pelas mulheres indígenas
são mais recentes ainda. (v. quadro).
Denunciando o genocídio mascarado na
esterilização, construindo caminhos contra
todo tipo de preconceito, combatendo as
discriminações dentro da própria
sociedade em que vivem, representando comitês
de saúde, educação e política e
compartilhando as suas reivindicações, o
movimento das mulheres indígenas
"ganhou visibilidade e respaldo a
partir da década de 90”, diz o Jornal
Porantim, em marco de 2002; ressaltando que
a energia desse movimento “está, aos
poucos, se fortalecendo em todo país. São
caminhos que apontam para a verdadeira dos
povos indígenas, principalmente para as
mulheres indígenas".
Vem de Roraima, um exemplo das mulheres indígenas.
Conforme o Porantim, elas se mobilizam para
“fortalecer as lutas dos povos Macuxi,
Wapixana, Taurepang, Ingarikó, Wai Wai e
Yanomami e contribuir para a coesão do
movimento indígena e para as conquistas dos
direitos territoriais". Com esse espírito,
as indígenas enfrentaram em Roraima, os
momentos difíceis para os índios de Raposa
Serra do Sol. Segundo o Porantim, “quando
os garimpeiros e a Polícia Militar tentaram
desbloquear a barreira feita na Aldeia
Machado, em 1992, as mulheres tomaram a
frente dos maridos e conseguiram fazer com
que as forças recuassem".
Em defesa dos seus direitos, as mulheres indígenas
de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia
participaram do primeiro encontro estadual,
em 1996. No ano seguinte, em Roraima, elas
lideram a campanha contra o consumo de
bebida alcoólica na aldeia. Nessa luta,
duas tuxauas ganharam destaque: Diva de
Souza, eleita a primeira mulher cacique na
aldeia e Lindalva Peixoto que, em 1998,
assumiu a secretaria do Movimento. Nesse
mesmo ano, mais um encontro de mulheres indígenas
reuniu lideranças Tupinambá e Pataxó
(BA), Maxakali, Xakriabá, Krenak e Aranã
(MG), Pankararu (PE), Tupinikim e Guarani
(ES). Em abril de 2001, a Organização das
Mulheres Indígenas de Roraima reuniu cerca
de 200 mulheres para avaliar o Encontro que
essa mesma entidade realizou em 1999,
discutir os direitos assegurados na
constituição de 1988, reivindicar a
contra-instalação dos Pelotões Especiais
de Fronteiras na Aldeia Uiramutã e na
Aldeia Ericó e denunciar o comércio de
bebida alcoólica nas comunidades, os abusos
sexuais contra as índias Yanomami e a violência
contra outras mulheres indígenas na região.
Na contra-comemoração dos 500, Maninha
Xukuru (PE) publicou no Porantim o artigo
“Marcha: uma resposta à fúria do
opressor”, em que aborda o sentido de
existência do pensamento indígena.
Preocupação semelhante pode ser observada
nos ensaios de Darlene Taukane, na
entrevista de Eliane Potiguara e no
pensamento de outras líderes indígenas no
Brasil. A respeito de Eliane Potiguara, convém
destacar um trecho de sua entrevista ao
IbaseNet, em 2002, na qual ela discute a difícil
situação da mulher indígena na cidade e
na aldeia:
As mulheres indígenas, aos olhos da
sociedade, estão abaixo do último degrau
que compõe as camadas da sociedade. Indígenas,
pobres, discriminadas, excluídas, invisíveis.
São mão-de-obra escrava em plantios de
cana-de-açúcar, algodão e outros. Se estão
próximas a mineradoras, são objeto sexual
de garimpeiros ou mineradores. Se estão nas
cidades, empurradas por alguma razão social
e política de sua nação, tornam-se
prostitutas, objeto de tráfico
internacional de mulheres, empregadas domésticas
ou operárias mal-remuneradas.
Dentro das aldeias urge um trabalho de
conscientização contra a violência
sexual, o estupro, o assédio, o alcoolismo
que resulta nas violências interpessoais,
nas intrigas, nos distúrbios psicológicos,
nos suicídios. Um programa imediato
referente aos direitos reprodutivos e saúde
integral deve ser implantado pelo governo e
pelas ONGs. Urge um trabalho de conscientização
nessas nações que mais sofreram com a
neocolonização, ao lado dos povos
Ressurgidos e dos Quilombolas.
Em síntese, reportando-nos às mobilizações
consagradas ao Dia Internacional da Mulher,
no Brasil, cabe assinalar a inclusão desse
dia no calendário indígena. Em 1999, a líder
Kaingang Ana da Luz Fortes do Nascimento,
que foi matéria de capa, no Jornal Porantim,
orienta que nessa luta devemos
“multiplicar o cereal plantado”. Nesse
ritmo, as organizações indígenas, no dia
8 de março de 2001, denunciaram o caso da
esterilização de mulheres Pataxó Hã-hã-hãe,
ocorrido na Bahia, em 1994. A agonia das
Pataxó que é tema, também, de poesia de
Eliane Potiguara, revela uma parte das
“histórias não-contadas” ou “a terrível
angústia causada pela ameaça dos Direitos
Humanos desses povos, ocasionando a perda da
identidade, a migração e o racismo”,
como observa Potiguara.
O quadro que segue, ilustra a quase
desconhecida força das representações das
mulheres indígenas no Brasil:
ADMIRAssociação Desenvolvimento das
Mulheres Indígenas de Roraima RR
AMAMovimento Articulado das Mulheres da
Floresta AmazônicaAC
AMAIAssociação das Mulheres de Assunção
do IçanaAM
AMIARNAssociação das Mulheres Indígenas
do Alto Rio NegroAM
AMICOPAssociação das Mulheres Indígenas
do Centro-Oeste PaulistaSP
AMIDAssociação das Mulheres Indígenas do
Distrito de IauaretéAM
AMIKAssociação das mulheres indígenas
KamebaAM
AMIMSAssociação das Mulheres Indígenas do
Médio SolimõesAM
AMISMAssociação das Mulheres Indígenas
Sateré-MawéAM
AMITRUTAssociação das Mulheres Indígenas
de Taracuá, Rio Uapés e TiquiéAM
AMPAssociação das Mulheres PareciMT
AMPAssociação das Mulheres PataxóMG
AOMPAssociação Oridiona das Mulheres
ParesiMT
GRUMINGrupo Mulher - Educação IndígenaRJ
OMIROrganização das Mulheres Indígenas de
RoraimaRR
UNAMIUnião Nacional das Mulheres IndígenasPR
CONAMIConselho Nacional de Mulheres Indígenas/Brasília
Bibliografia:
Eliane Potiguara. Metade cara, metade
máscara. São Paulo: Global, 2003/
www.elianepotiguara.org.br
Graça Graúna. Contrapontos da literatura
indígena contemporânea no Brasil. São
Paulo: Palavra de Índio (no prelo),
2005.
IbaseNet. http://www. ibase.br/ paginas/
potiguara.html. Acesso em 12 março 2002.
Jornal Porantim. Brasília/DF:Cimi, 1999,
2000, 2001, 2002.
Leonardo Boff. O casamento entre o céu e a
terra. Rio de Janeiro: Salamandra, 2002.
Revista Problemas Brasileiros, n. 338, 2000,
p. 6-7.
[i] Graça Graúna é Professora Adjunta da
UPE/FFPG e líder do Grupo de Pesquisa - Núcleo
de Estúdios Comparados em Literaturas de
Expressão Portuguesa, junto ao CNPq.
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