GRUMIN/Rede de Comunicação Indígena 
Ano 2Edição nº 08 - MAIO/2006/BRASIL 

3 - ESPAÇO COMUNITÁRIO

  • Luz elétrica chega para sete mil índios no Sul do país


(Fonte: Pantanal News - http://www.pantanalnews.com.br/noticias/geral/artigo_3673.php )
Por: Em Questão
Cerca de sete mil índios das etnias kaigang e guarani da Terra Indígena do Guarita foram beneficiados com as obras do Programa Luz para Todos, inauguradas nesta quarta-feira, dia 19, Dia do Índio. As 1.071 ligações residenciais foram feitas na maior reserva indígena do Rio Grande do Sul, localizada na região Noroeste do estado.

No estado vive a maior população kaigang do país, numa área de 23.406 hectares que ocupa quatro municípios. O território também abriga 50 famílias de índios guaranis que estão sendo beneficiados pelo programa Luz para Todos. Para as obras de eletrificação rural foram investidos R$ 2,5 milhões, em uma parceria entre o governo federal  e uma concessionária de energia do Rio Grande do Sul.

Essa população vive da agricultura familiar com o plantio de milho, feijão, fumo frutas, soja, verduras e produção de leite e derivados. A chegada da energia elétrica vai permitir o aumento da renda da comunidade e o desenvolvimento da economia local. Os agricultores destas aldeias planejam a compra de freezers e resfriadores para ampliar a produção de leite e derivados.

"Mudou muita coisa na nossa vida depois da luz. Estamos nos organizando para comprar triturador, vacas e cerca elétrica. Também estudamos a instalação de um aviário e a criação de porcos", diz o cacique kaigang Valdones Joaquim.

A energia também vai impulsionar a atividade artesanal na aldeia guarani que agora poderá ser desenvolvida à noite. Na aldeia, os índios fabricam cestas de bambu, balaios, esculturas em madeira e roupas, produtos que são as principais fontes de renda dos guarani que vivem no Sul do país.      

O planejamento e o projeto da obra na Terra Indígena do Guarita foram desenvolvidos conjuntamente pelo Ministério de Minas e Energia (MME), pela Funai/Regional de Passo Fundo e pela concessionária Rio Grande Energia (RGE). Os 118 municípios que formam a Região Noroeste do estado já estão sendo beneficiados pelo Luz para Todos. A luz elétrica chegou para cerca de 13 mil pessoas entre agricultores, quilombolas e indígenas. Para atender à demanda em toda a região foi necessária a instalação de 659 transformadores, 3.257 postes, 49,9 quilômetros de rede de baixa tensão e 221,85 quilômetros de rede de alta tensão.

Além da eletrificação, ações paralelas foram realizadas na Terra Indígena do Guarita. A Funasa (Fundação Nacional de Saúde) investiu em torno de R$ 1 milhão na construção de poços artesianos e de postos de saúde.

O governo federal já repassou R$ 32 milhões para obras dos contratos do Luz para Todos em andamento no Rio Grande do Sul. Neste mês, o programa atingiu a marca de 100 mil gaúchos atendidos. Em todo o país, mais de 2,8 milhões de pessoas foram beneficiadas com as obras de eletrificação rural do programa.

© Copyright 1998-2005 Pantanalnews.com.br - Todos os direitos reservados.

  • Povo Katukina faz alerta contra uso indevido do kampô, a "vacina do sapo"


A popularização do uso da secreção da perereca kampô (Phyllomedusa
bicolor) nas grandes cidades brasileiras começa a preocupar os mais
antigos detentores deste conhecimento, os Katukina, povo indígena do
Alto Juruá, no Acre. No começo deste mês, a Associação Katukina do
Campinas (Akac) divulgou uma carta solicitando que as pessoas que
fazem a prática comercial da "vacina do sapo", como a substância é
conhecida, não utilizem o nome da etnia como forma de "legitimar" a
atividade. A carta é direcionada em especial a duas terapeutas, uma
de São Paulo e outra de Belo Horizonte, citadas nominalmente no
documento, que estariam valendo-se do nome da Akac para divulgar a
aplicação da substância e lucrar com isso. No documento, os Katukina
também afirmam que a comercialização do kampô trouxe problemas para
a comunidade indígena e pedem que a prática seja encerrada. Leia
aqui a carta na íntegra.

A perereca kampô é um elemento importante na cultura dos índios do
Alto Juruá, no Acre

A associação indígena enviou cópias da carta aos escritórios da
Polícia Federal e do Ministério Público Federal, em Rio Branco, e
deu vinte dias para que o uso indevido do kampô em nome dos índios
fosse abandonado. O prazo se encerrou ontem, 26 de abril. "Estamos
preocupados porque não autorizamos ninguém a usar nosso saber. A
polícia e o Poder Judiciário precisam saber disso", afirma Fernando
Katukina, vice-presidente da Akac. O líder indígena esclarece que a
preocupação é em relação ao uso do nome de seu povo na venda das
aplicações da secreção da jia. "Tem muita gente se promovendo em
cima do nosso povo, mas nós queremos que o kampô seja utilizado de
forma legal, com respeito ao nosso conhecimento e sem estimular a
biopirataria".

Os Katukina utilizam a secreção principalmente como um estimulante
capaz de aguçar os sentidos dos caçadores, para que a busca por
alimento na mata seja bem-sucedida. Quem sofre de panema (azar na
caça), portanto, é tratado com aplicações da substância. A
antropóloga Edilene Coffaci de Lima, da Universidade Federal do
Paraná, uma das maiores estudiosas da etnia, explica que, fora do
contexto da caça, homens e mulheres Katukina também fazem uso do
kampô. "Desde muito cedo, entre o primeiro e segundo ano de vida uma
criança começa a receber o kampô, quase sempre por iniciativa dos
avós", descreve.

O conhecimento tradicional dos índios faz da retirada da secreção da
jia uma delicada operação

A antropóloga afirma que "este uso moderado é feito para aliviar
indisposições diversas, como diarréias e febres ou sonolência, que
tiram o ânimo das pessoas para o desempenho das atividades mais
simples. Mas, ainda que se queira debelar o incômodo físico que
diversas patologias causam, o uso do kampô é determinado muito mais
pela avaliação moral que se faz do desânimo que proporcionam.
Afinal, depois de ser recomendado como estimulante aos caçadores, o
kampô é recomendado àqueles que padecem de preguiça (tikish)".

Panacéia da floresta

Nos últimos anos, o uso do kampô tem se popularizado entre a
população das grandes cidades brasileiras como uma milagrosa terapia
indígena. Em folhetos de divulgação, a substância é classificada
como um poderoso energizante e fortalecedor do sistema imunológico,
uma verdadeira panacéia, capaz de tratar doenças do coração em
geral, hepatite, cirrose, infertilidade, impotência, depressão,
entre outras enfermidades. De acordo com o material de divulgação, o
kampô seria eficaz até mesmo no tratamento de câncer e AIDS. Cada
aplicação da secreção do anfíbio - feita sobre pequenas feridas
abertas na pele do usuário a partir de queimaduras - custaria até R$
120,00. Veja aqui um folheto que divulga as propriedades do kampô e
usa de forma indevida o nome da Associação Katukina do Campinas
(Akac).

A popularização do kampô também se valeu de inúmeras reportagens em
televisão e revistas, produzidas a partir da experiência de
jornalistas que se submeteram aos efeitos da substância. A maioria
dos narradores descreve que, após receber a aplicação do kampô,
sente em poucos minutos um forte mal-estar, acompanhado geralmente
de vômitos. Em seguida, o kampô provocaria uma sensação de
revitalização de todo o organismo e aguçamento dos sentidos.

Em 2004, o uso indiscriminado da secreção cresceu tanto que a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu sua
propaganda, que vinha sendo feita principalmente na internet. Meses
antes, em abril de 2003, as lideranças da Terra Indígena
Campinas/Katukina já haviam solicitado oficialmente ao governo
federal que tomasse providências para proteger e valorizar o uso
tradicional do kampô pelos índios. Além dos Katukina, os Yawanawá,
Kaxinawá e Marubo, entre outros povos indígenas, também têm no kampô
um elemento cultural importante. A demanda dos Katukina levou o
Ministério do Meio Ambiente (MMA) a elaborar um projeto para, a
partir do caso do kampô, aprimorar o acesso aos recursos genéticos
da biodiversidade brasileira e a repartição de benefícios aos
detentores dos conhecimentos tradicionais associados.

Moléculas patenteadas

O projeto conta com diversas parcerias governamentais e não-
governamentais e também tem, entre seus objetivos, "contribuir para
a estruturação sustentável da cadeia produtiva da `vacina do sapo',
promovendo estudos dos efeitos da aplicação da substância sobre a
sustentabilidade sociocultural e ambiental, com vistas a se iniciar
um processo que contribua para a análise da possibilidade de
validação do uso não-tradicional e a proteção do uso tradicional
desse etnofármaco", conforme texto do próprio ministério. Em outras
palavras, o projeto visa combater a biopirataria do kampô e
desenvolver pesquisas que resultem em medicamentos a partir da
secreção daquele anfíbio. Segundo levantamento feito pela ONG
Amazonlink, existem dez pedidos de patentes sobre a Philomedusa
Bicolor feitos por laboratórios, universidades ou centro de
pesquisas em escritórios de patentes no exterior.

Um dos coordenadores do projeto, Bruno Filizola, do Programa
Brasileiro de Bioprospecção e Desenvolvimento Sustentável de
Produtos da Biodiversidade (Probem), do MMA, afirma que a secreção
da perereca tem cerca de 200 moléculas com potencial comercial e que
existem pelo menos 80 pedidos de patente sobre o gênero Philomedusa,
em escritórios de patentes no mundo todo. Os registros recaem
principalmente sobre moléculas com potencial antimicrobiano. A
própria Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuária (Embrapa), que
faz parte do projeto governamental sobre o Kampô, tem a patente de
uma outra espécie de sapo, cuja secreção também tem propriedades com
potencial para a produção de medicamentos.

Alguns pesquisadores da Embrapa, inclusive, não reconhecem que
existe conhecimento tradicional associado ao uso do kampô.
Argumentam que a "ciência" já havia chegado ao conhecimento sobre as
propriedades do gênero Philomedusa, independentemente do
conhecimento dos índios do Acre. "Realmente muitos cientistas ainda
não internalizaram os princípios da CBD (Convenção da
Biodiversidade)", reconhece Filizola. A CBD prevê a repartição de
benefícios do acesso aos recursos genéticos da biodiversidade aos
detentores de conhecimentos tradicionais associados a estes
recursos. "A transformação deste bem cultural dos índios em bem de
mercado certamente vai gerar impactos nas comunidades indígenas. Por
isso queremos viabilizar a cadeia produtiva do kampô", diz Bruno
Filizola.

O advogado do ISA, Fernando Mathias, questiona a eficácia do projeto
do governo brasileiro em um caso no qual "a biopirataria já se
consumou". "O que o governo vai fazer em relação às patentes que já
existem? Esse passivo vai ser objeto de negociação entre os índios e
as empresas? Vai haver espaço para discutir a quebra ou ao menos a
abertura das patentes já concedidas ou os índios vão apenas receber
um troco em troca da privatização de seus conhecimentos e do
patrimônio genético brasileiro?", pergunta. "Se o que de fato
prevalece neste e outros casos são os interesses das corporações
transnacionais farmacêuticas, este projeto do governo corre o risco
de não passar de uma cortina de fumaça no campo da repartição de
benefícios".

Fonte: www.socioambiental.org.br

 

  • Índios que vivem na cidade

Do Diário do Grande ABC/Illenia Negrin

A Prefeitura de Santo André vai traçar o perfil dos indígenas que
vivem na cidade; o estudo servirá de base para a criação de
programas que atendam às necessidades específicas das comunidades.
No Grande ABC são 3,8 mil indígenas, minorias étnicas invisíveis no
meio urbano, mas que carecem de ações nas áreas de cultura, educação
e saúde.

O trabalho está sendo realizado pelo Núcleo de Políticas de Gênero,
Geração, Raça e Pessoas com Deficiência. A responsável pela
pesquisa, a pediatra Noêmia Gil, diz que o diálogo com os indígenas
de Santo André está ainda no começo, mas os contatos iniciais
mostraram que o primeiro passo é incentivar a auto-
declaração. "Muitos índios e descendentes não assumem a raça. Têm
vergonha de dizer que são indígenas e sofrer preconceito. No sistema
de saúde, por exemplo, se declaram nordestinos na hora em que fazem
o cadastro. E omitem a ascendência", conta a pediatra.

Nenhuma das cidades da região têm ações voltadas às comunidades
indígenas e os programas se limitam a exposições e atividades no mês
do índio, abril. Noêmia Gil afirma que a Prefeitura vai desenvolver
políticas específicas com o estudo.

Em Santo André vivem cerca de 880 índios, de 11 etnias diferentes.
Na região, ao todo, são 20; guaranis, pankararus, kaiovás e pataxós
são em maior número. Um dos coordenadores do Projeto Índios Urbanos,
da ONG Opção Brasil, Marcos Aguiar, afirma que na Grande São Paulo
só há três aldeias indígenas, todas garanis. Os demais índios vivem
nas cidades; a maioria na periferia e é pobre. Mas a pior exclusão,
explica, é a cultural. "Ser indígena é essência e não muda com o
fato de ele sair da tribo. O brasileiro que vai morar nos Estados
Unidos não deixa de ser brasileiro. O problema é que na cidade ele
perde a identidade porque não tem espaço para assumir sua cultura."

Aguiar defende uma reformulação no sistema educacional que permita
ao índio aparecer não só como a figura histórica, que vive seminu na
mata. "Tem que mostrar a riqueza dos hábitos, os valores. E,
principalmente, como os descendentes carregam essa herança. É comum
nas escolas um aluno indígena passar desapercebido. E quando ele
conta que é índio, ninguém acredita. É isso que precisamos mudar",
conclui.

Pankararus - Mauá é onde há mais concentração de índios pankaraus.
Cerca de 35 famílias moram em bairros periféricos da cidade. É o
caso da família de Barbara Matozo, 24 anos, do Jardim Sônia Maria.
Ela nasceu em Mauá. A família veio na década de 1960 da Aldeia dos
Padres, em Pernambuco, origem da etnia. Barbara é uma universitária
esclarecida e assume a sua condição indígena. Mas reclama da falta
de políticas aos índios. "Aqui não temos espaço para a nossa
cultura. Não conseguimos cultuar nossa crença. Todos anos vamos a
tribo e passamos um mês lá. É lá que nos sentimos em casa", diz a
moça.
Fonte: Clipping da 6ªCCR do MPF

 

 

 

 

Notícia anterior                                       Próxima notícia

 

 

 

 

METADE CARA,  METADE MÁSCARA

Para adquirir este livro clique aqui

Encontro dos Escritores indígenas no Rio de Janeiro/2004

Eliane Potiguara, Membro Efetivo da Academia Virtual Brasileira de Letras

Lançamento do livro METADE CARA, METADE MÁSCARA, Global Editora

              Literatura Indígena: Um Pensamento Brasileiro - Copyright 2005 © - All Right Reserved

          Design by Moína