GRUMIN/Rede de Comunicação Indígena 
Ano 2Edição nº 08 - MAIO/2006/BRASIL 

2- POÉTICA E PENSAMENTOS INDÍGENAS

  • Refletindo Sobre o Bem!

Inicialmente desejo a todos um excelente dia, dentro do símbolo da União entre as pessoas, a natureza e o universo, que é a Luz (do conhecimento) a PAZ (energia que harmoniza) e o AMOR (que é a sublime perfeição).

Venho refletindo e examinando por que estou aqui e como aqui cheguei. 

Sinto que dentro de um movimento meu, interno, pessoal, que já vem de alguns anos, venho me ligando mais com meu ser real, com minhas raízes ancestrais. E, nesse movimento, cheguei até estes espaços de convivência com PESSOAS DO BEM.

Quero expressar a todos, que venho examinando e respeitando a todas as senhoras e senhores, meus irmãos de sangue, pela vossa existência de pelejas e de conquistas, pela vossa coragem, pela vossa persistência e busca de melhores dias para os povos indígenas, aqui representados por diversas etnias, pelo menos, as que conseguem ter acesso a internet e também ter suas lideranças participando de movimentos de resistência e busca de melhores condições de vida e sobrevivência.

Não posso deixar de trazer à lembrança, alguns exemplos que nos legaram um direcionamento virtuoso, como GANDHY, com a sua peleja em favor do seu país, do seu povo, através de posicionamentos pacíficos. Também vem à minha memória a CARTA DO CACIQUE SEATTLE, citando: "O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios".

Venho examinando e me conscientizando de que "a defesa do mal é a chave do bem". E nessa declaração, que para a compreensão baixa das pessoas, vê somente uma chave de abrir porta, existe uma dimensão mais sutil, mais profunda, mais misteriosa, mas sábia e que foi declarada pela linguagem cabocla - a chave é a-cha-r e ve-r o BEM.  Já foi dito que existe muito mais do que podemos ver, neste universo infinito. Os pajés que o digam.

Tudo está no ar. Até a ár-vore. A árvore é um exemplo de microcosmos, que vem mostrando para o índio e para quem quiser ver, essa unidade da teia da vida. Dizem os entendidos, que uma árvore abriga mais que uma centena de espécies vivas, que nascem, reproduzem e interagem entre si no ambiente de uma árvore - nas suas raízes, troncos, folhas e frutos. A árvore cresce em direção ao SOL, buscando a Sua Luz. Uma plantinha, por menor que seja, afunda suas raízes ao solo, buscando nutrientes para se vigorar e distribuindo AR puro, frutos, folhas, flores e perfume que inebria e inunda a natureza circundante. É a energia circular, se movimentando em torno de um ponto central, mostrando como funciona a órbita universal, sempre em um movimento contínuo, equilibrado, intermitente, infinito, eterno...

A LUA sempre passando pelo seu mesmo lugar, fazendo a sua trajetória circular e cumprindo a sua missão de pratear o planeta.

O Sol, trazendo o dia, nutrindo com seus raios, as plantas, o homem, enfim... a natureza. Irradiando Luz.

É pelo caminho do BEM, que podemos conquistar pra nós O BEM.

Não é possível conquistar o BEM, com aquela energia do MAL, pois o BEM flui por um canal que é superior, está presente na dimensão do equilíbrio e só pode fluir pra nós, nesse CANAL do BEM. O BEM tem o poder de iluminar, de colocar luz onde há trevas, de trazer claridade onde existe ausência de luz.

No caminho do BEM só pode existir o BEM. Isso não é poesia, utopia ou viagem... É A REALIDADE !!!

Uma flexa de luz, bem e amor no coração de todos os meus irmãos.

Com luz, paz e amor

Ramon M'biá Guarani

 

  • A Cobiça

Dedicado a companheira Eliane Potiguara, Índia , mulher guerreira, estes versos que tem cheiro de saudades mas gosto da opressão...
 
Terra coalhada de sabor amargo
leite bisonho no saudoso vôo
das asas das tanajuras,
formigas fêmeas reprodutoras;
 
Prado desnudo, fogo, padrão;
semeadura na rachadura oculta
acolhedora das migalhas
que adubam a semente fértil
 
Terra de rochas sedentas,
morada perene de sol da aurora,
manejo sábio das águas claras
que trilham, passam e arredondadas
 
Samambaias caindo dos troncos
e o rastro delinqüente da serpente,
sapos fixados no arenoso branco
atraídos por destino, à fria morte;
 
Campos, coqueiros, plainas caatingas;
serras, rochas, espumas e cachoeiras
cevas e esperas, cobiças estrondo!
E a caça cai, abatida! Morta...!

 

  •   Daniel Munduruku

“Educar é como catar piolho na cabeça de criança.
É preciso que haja esperança, abandono, perseverança.
A esperança é a crença de que se está cumprindo uma missão;
O abandono é a confiança do educando na palavra;
A perseverança é a perseguição aos mais teimosos dos piolhos; é não permitir que um único escape, se perca.
Só se educa pelo carinho e catar piolho é o carinho que o educador faz na cabeça do educando, estimulando-o pela palavra e pela magia do silêncio. Ser educador é ser confessor dos próprios sonhos e só quem é capaz de oferecer o colo para que o educando repouse a cabeça e se abandone ao som das palavras mágicas, pode fazer o outro construir seus próprios sonhos. E pouco importa se os piolhos são apenas imaginários....” Confira no site www.danielmunduruku.com.br

 

  •   Índio

Não é erro querer ser índio, se sou índio
é erro ser e não querer ser
se sou índio como quero ser índio
ser índio não e querer ser índio.
Não ser índio, não é erro
não é erro não ser índio
erro é ser índio e ter vergonha de índio
não é erro não ser índio e ser irmão de índio
como se fosse índio
como se eu fosse índio e o índio eu.
No meio dos prédios serei sempre índio
Como a flor para o beija-flor
como o cheiro da terra recebendo a chuva
como água da cacimba
a lua no firmamento
a estrela que mais brilha clareia toda manhã.
Teu rosto refletindo nas águas
Yaras, penteando os cabelos no rio
encima do lageiro embaixo do pé de Ingazeira
as cantorias das lavadeiras
batendo roupas nas pedras
pássaros em debandadas
meninos curiosos ouvindo o canto da Gia.
Cá na cidade "programa" de índio aos domingos,
sem Yaras
sem rios
sem lavadeiras
sem pé de Ingazeiras
sem o canto das Gias
sem a curiosidade dos meninos
sem revoada de pássaros
sem ser e sem saber de índio.
Nas voltas circulares do tempo muitos não são índios
entre os prédios e não sabem o que são.
Índio não tem psicólogos
Índio que sabe que é índio. É índio.  
Chico Canindé

 

 

 


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