GRUMIN/Rede de Comunicação Indígena 
Ano 1- Edição nº 06 - 14/12/2005/BRASIL 

6- EDITORIAL:

 

Essência indígena e novas tecnologias e Sociedade da informação combinam?

Nesses meus 55 anos de vida, encarar uma viagem para a TUNÍSIA, um mundo árabe, cheio de contradições,  conflitos e armamentos  é algo que se deve fazer com muita dedicação e esperança, principalmente quando se trata de povos indígenas.E fui atrás da Conferência Mundial sobre Sociedade da Informação, como delegada oficial e organizacional, indicada pelo ITC.Desde 2003 povos indígenas tem estado envolvidos timidamente com a temática Tecnologias da Informação e a Sociedade da Informação.Nessa época fui convidada pelo Comitê intertribal a relatar as necessidades dos povos indígenas numa audiência pública no Congresso Nacional.Veja subsídios históricos e políticos em artigo publicado pelo Cir ( Conselho Indígena de Roraima) http://www.cir.org.br/artigos_inclusao_030925.asp . Veja Declaração Indígena do Rio de Janeiro em http://grumin.blogspot.com/2005/06/declarao-indgena-do-rio-de-janeiro_19.html  Poderá também ter mais informações através de um artigo que escrevi para o Jornal do Brasil, veja em http://grumin.blogspot.com/2005/06/sociedade-de-informao-e-povos-indgenas.html

Ainda em em junho de 2005, no Rio de Janeiro, o ICT (Comitê Intertribal), Grumin/Rede de Comunicação Indígena e NCI ( Núcleo de Cultura Indígena)  junto aos índios Navajos dos Estados Unidos, participaram da última preparatória e firmaram uma base principal de intercâmbio e transferência de tecnologias em um protocolo histórico e inédito, dentro do Plano de Ação da Cumbre de Tunis, que virá benefeciar num futuro breve, povos indígenas no Brasil, permitindo sua inclusão digital, se o governo e as instituições, ongs parcerizarem, para atender as suas demandas.

Porque essa teimosia em assumir mais uma frente de expansão?Eis alguns temas para podermos pensar juntos:

1-Formas tradicionais de comunicação indígena.

2-Domínios indígenas na internet.

3-A proteção dos conhecimentos tradicionais.

4-Estado atual e obstáculos para a comunicação.

5-Impactos da globalização e discriminação aos povos indígenas.

6-Os povos indígenas e a comunicação com a sociedade não-indígena.

7-Experiências de jornalismo indígena, literatura, uso da Internet, rádios e tvs comunitárias e comunicação social.

8-Compatibilidade do uso de tecnologias avançadas para o fortalecimento da indentidade indígena.

9-A comunicação e o entendimento com os anciãos ( cultura x espiritualidade).

10-Educação formal e conhecimento tradicional.

11-Educação dos jovens e a importância do uso dos idiomas indígenas na comunicação.

12-Conceitos de pobreza e inclusão digital da sociedade não-indígena contra a discriminação social e racial e a auto-determinação dos povos indígenas.

12-Implantação dos tele-centros indígenas.

Bem, após algumas reuniões de representantes indígenas com a Ministra Marina do Meio Ambiente, que sensibilizou o Ministro das Comunicações Hélio Costa para disponibilizar mecanismos concretos que atendam a implantação de redes locais, tele-centros, centros de formação conectados por rádios, nos vimos animados nessa empreitada. A Rede Povos da Floresta, que acaba de criar seu portal, está trabalhando há 5 anos, especificamente coletando parceiros, mapas, documentos e cadastrando comunidades locais para esse empreendimento.O Ministério das Comunicações já doou 150 antenas parabólicas para conexão na Internet.No entanto, a demanda indígena busca povos remotos, totalmente desprovidos de luz, telefone, centro comunitário instalado, exigência do Ministério como contra-partida.Povos indígenas afirmam que a experiência com o governo é trágica, pois todas as articulações com Funasa, Funai foram catastróficas e que nas articulações financeiras as ONGS, como têm mais infra-estrutura e conhecimento, acabam chegando na frente dos povos indígenas e vemos dezenas de projetos para povos indígenas, portais, sites, rádios coordenados inclusive por pessoas estrangeiras e não pelo indígenas, quando povos indígenas já possuem capacidade de auto-gestão, através das organizações indígenas locais e urbanas.

Elias Davi, diretor substitutivo de inclusão digital do Ministério das Comunicações, EMPENHOU-SE em promover essas expectativas dos povos indígenas, isto é, a implementação de  mecanismos tecnológicos como antenas, moden, impressoras, manutenção e capacitação, através do Gesac.Nós, indígenas estamos preocupados com as eleições e tememos que tudo conseguido, vá por água abaixo, diante do cenário político nacional.Por outro lado, fechamos um protocolo com os índios NAVAJOS dos USA, que estão fazendo um trabalho muito sério em sua própria comunidade, já tendo apoiado dezenas de projetos para povos indígenas em Honduras, inclusive numa comunidade na Amazônia. Os Navajos insistem no uso de tecnologias a partir da essência das tradições e conhecimentos indígenas, uma proposta também dos povos indígenas do Brasil..

O mundo cresce em tecnologias, o mundo avança nas ciências, o mundo corre para um lado que às vezes assusta. Muitas vezes uma mulher indígena precisa de um atendimento médico, porque tem uma hemorragia provocada por um aborto espontâneo ou não e temos centenas de casos de óbitos por causas que, num piscar de olhos, poderiam ser solucionadas, se a prioridade fosse essa, no campo político e até no campo partidário.Na Tunísia, numa das exposições eu vi um projeto sensacionalista que dizia: "Um lep top para cada criança pobre", uma coisa assim....O cartaz das crianças paupérrimas transmitiam um sofrimento secular, um estado de miséria deplorável. E  cada criança barriguda pelas vermes e raquítica pela falta de alimentação e atendimento à sua saúde, segurava firmemente um lep top da última geração.Será que estamos colocando a carroça na frente dos bois? Como povos indígenas vão sobreviver à globalização, às tecnologias? Como defender nossos conhecimentos tradicionais? Como proteger nossos anciãos, verdadeiras bibliotecas humanas? Como mantermos nossas terrras indígenas?

Outro detalhe importante sobre novas tecnologias. Nessas implementações tecnológicas , as comunidades beneficiadas precisarão ter parcerias locais para pagamento de contas de luz, telefone, infra-estrutura, pagamento de pessoal, caso necessite.Os governos, ongs locais vão realmente querer apoiar povos indígenas?

Eu não quero desestimular o processo, pelo contrário,  quero desafiar os governos, as ongs, as parcerias internacionais a sensibilizarem-se para apoiar realmente os povos indígenas em seus projetos comunitários, através de suas organizações.

Não devemos esquecer nunca uma lição de minha avó indígena analfabeta, mas cultíssima: "O importante são as pessoas, os seres humanos, o que diz aquela alma e aquele coração. O meio-ambiente é o complemento".

Voltando a Túnísia, informo que a Declaração final dos povos indígenas participantes se encontra nesse boletim, do Grumin on line nº06/2005

ELIANE POTIGUARA, escritora indígena (www.elianepotiguara.org,br)

 

 

 


 

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