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- ESPAÇO COMUNITÁRIO
A
guerra da terra
Na
região da fronteira do Brasil com o Paraguai o
clima é de guerra contra os Kaiowá Guarani e
nossos direitos. Nossas terras foram sendo tomadas
pelos fazendeiros e lavoureiros e nosso povo
confinados nos pequenos pedaços de terra que o SPI
tinha demarcado há quase um século. Não agüentando
mais tanta violência e desrespeito começamos a
retomar nossos tekoha, territórios tradicionais.
Entre essas terras retomadas estão Yvy Katu,
retomado em dezembro de 2003 e Sombrerito para onde
voltamos em junho deste ano. Sofremos muita violência
e pressão. Mataram e torturam nossos parentes. E
foi por isso que resolvemos fazer aqui a nossa
Grande Assembléia Kaiowá Guarani do Mato Grosso do
Sul. Queremos dizer ao Brasil e ao mundo que não
queremos guerra, mas que as autoridades políticas e
judiciais reconheça e nos devolva com urgência
nossas terras tradicionais para poder viver nossa
vida em paz. Também nos reunimos ali para comemorar
as vitórias que tivemos na justiça e que vão dar
possibilidade de prosseguir a demarcação dessas
terras.
O
assunto mais discutido em nossa Assembléia de Yvy
Katu foi novamente a situação da terra.Nos revolta
saber que a Funai tinha decidido não mais mandar
grupos para identificar as terras indígenas até
julho do ano que vem. Isso é um absurdo, as lideranças
indígenas presentes na
Aty Guasu exige da Funai que crie com urgência
Grupos de Trabalho para identificar nossas terras. E
nos reunimos por regiões para dizer quais são os
tekoha que precisam ser demarcados. Foram dezenas de
terras tradicionais descritas e que queremos que a
Funai demarque. Mandamos essa relação para a
Procuradoria e para a Funai. Esperamos que se cumpra
a Constituição que nos garante essas terras.
Denunciamos
aqui que os fazendeiros espalharam a notícia de que
estávamos retomando terra, só para dificultar ou
impedir nossa reunião. A polícia federal veio lá
e viu que era tudo mentira. Também procuraram usar
patrícios nossos para espalhar medo e ameaças.
Falaram até o preço que estariam pagando pela cabeça
de lideranças nossas e de nossos aliados.Tudo isso
é terrorrismo que estão procurando fazer para
impedir a luta pelos nossos direitos. Mas não
deixamos que isso atrapalhasse nossa Assembléia.
Nosso
povo e as fronteiras:
Outro
assunto que discutimos foi sobre a nossa realidade
do povo Guarani, num e noutro lado das
fronteiras.Seja na fronteira ou não nosso direito
à terra deve ser garantido e demarcado porque
nosso povo ajudou a definir os limites,
esteve presentes nas lutas para conserva-las, muitos
morreram, no entanto, tomaram nossas terras, estamos
divididos pelas fronteiras. Queremos que demarquem
nossas terras e que sejamos respeitados em nossos
direitos de viver
como povo conforme garante a Convenção 169 da OIT.
Muitas vezes querem negar nosso direito dizendo que
somos “índios paraguaios”. Somos Guarani, Avá/Guarani,
Kaiowá/Pay Tavyterã, Mbya, que vivemos há
milhares de anos nesta grande região onde se
formaram os países do Brasil, Paraguai, Argentina,
Uruguai e Bolívia, e queremos viver com dignidade e
ser respeitados em nosso grande território
tradicional. Para
fortalecer nossa luta em garantir nossos direitos
convidamos para nossa Assembléia nossos parentes
que vivem no Paraguai, que nos falaram sobre as
dificuldades que passam. Fizemos um documento dando
apoio a eles. Sabemos que são os mesmos fazendeiros
brasileiros que
estão ocupando as terras também do lado do
Paraguai, destruindo o que resta da mata, inclusive
nas terras indígenas.
Celebrando
nossas lutas e resistência:
Sempre
quando nos reunimos sentimos com força que não
estamos só. Buscamos força dos que tombaram
lutando pelo nosso povo. É o sangue de milhares de
nossos guerreiros, sábios, ñanderu e caciques que
nos dá força e a certeza de que vamos vencer um
dia. Nesta Aty Guasu fomos informados e conversamos
sobre a celebração
da memória de um grande líder do nosso povo na
resistência, que foi Sepé Tiaraju, que liderou
nossos guerreiros contra os exércitos de Espanha e
Portugal e foi morto em 1756. Para falar sobre isso
esteve conosco nosso parente Guarani Mbya Mauricio,
que mora no Rio Grande do Sul. Depois que explicou
todo o significado daquela luta e o que elas tem a
ver com as nossas lutas de hoje, decidimos que
assumir a realização de uma grande Assembléia
Continental Guarani – Nemboaty Guasu, em fevereiro
do próximo ano, no local em que Sepé Tiaraju foi
morto.
Também
queremos lembrar a memória das nossas lideranças
que morreram lutando pela terra e vida do nosso
povo, dentre os quais Marçal Tupã’y, Marcos
Veron, Dorival Benites.
Nosso
direito à educação escolar diferenciada e de
qualidade:
Os
professores indígenas estiveram conosco discutindo
sobre os problemas e avanços que tem conseguido nas
escolas indígenas e na implantação de currículos,
calendário com tempos e conteúdos específicos.
Mas ainda tem muitos desafios pela frente. Por isso
enviamos carta ao Ministério da Educação,
Secretaria de Educação do MS e municípios,
pedindo que respeitem e valorizem os professores e
as escolas indígenas, que continuem e ampliem a
formação dos professores indígenas e que
respeitem nossa autonomia na construção de
projetos e programas desde as aldeias até os cursos
de nível superior.
Realizamos
mais essa importante Assembléia fortalecendo nossa
união e buscando mais amigos e aliados na região,
no Brasil e no mundo, para que possamos ter nossos
direitos,respeitados especialmente a terra.
Fonte:Comissão
de Direitos Kaiowá Guarani
Conselho
Estadual de Direitos Indígenas do Mato Grosso do
Sul
Aty
Guasu/contribuição de Heitor Paî-tavyterã
Laso /Lista literatura Indígena
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