O BRASIL E SUAS
MULHERES MARAVILHOSAS

ABRALI ( ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LITERATURA)

 

SANDRA B.:  “As mulheres compõem a história violentada sob o decreto da exclusão da mulher”; essa premissa defendida por Márcia Tilburi define muito bem o cenário histórico-social no qual a mulher brasileira atua, sempre em luta para “existir” no espaço público como ser político que na verdade é; a situação da mulher indígena é agravada por pertencer às minorias étnicas. A senhora poderia nos falar sobre a sua luta no sentido de transformar essa situação?  

Eliane: Os homens e mulheres indígenas devem encontrar, juntos, caminhos concretos que viabilizem atitudes responsáveis com relação aos seus direitos humanos, e, fundamentalmente, à Saúde e Direitos Reprodutivos, para que possam desenvolver uma relação de gênero mais consciente, mais democrática baseada no conceito sobre sexualidade, conceitos que foram perdidos ao longo da colonização e neo-colonização. Nesse processo, novos conceitos dominantes e opressores foram impostos à relação de gênero que necessitam ser mudados. Homens e mulheres devem desafiar as relações desiguais de poder não só no campo da ação, como organizativo e institucional, objetivando a justiça social de gênero. O fortalecimento do poder das mulheres indígenas deve ser promovido dentro das organizações indígenas para que todos, principalmente os homens, possam ter mais clareza sobre suas atitudes, comportamentos,responsabilidades e empenhos.
 A  participação política das mulheres indígenas está muito aquém ainda, justamente por razões culturais. Sabemos que na colonização portuguesa os homens, para defenderem suas mulheres e crianças, as colocavam na retaguarda comunal, e lá esse segmento ficou até hoje. É preciso resgatar a funcionalidade inicial das mulheres indígenas adotada antes do processo colonial. Ela tinha a decisão sobre problemas políticos, decisão sobre as assembléias, era venerada e tinha a última palavra. Quando  os homens não suportaram mais ver suas mulheres escravizadas, decidiram pelo suicídio em massa de um povo, numa tentativa de se posicionarem contra essa  escravidão   e  colonização. Tratava-se de um ato de protesto onde todos eram atirados de cima de um penhasco! A solidão e o sofrimento das mulheres indígenas começaram com a migração, por ação violenta perpetrada contra os seus povos. Marina , esposa de Sepé Tiaraju, em 1756,  ao ter seu marido assassinado pelos estrangeiros, iniciou sua caminhada sozinha. Assim muitas mulheres indígenas, como a esposa de Galdino, de Marçal Tupã-y, a esposa de Hibes Menino, a esposa de Ângelo Kretã e muitas outras esposas anônimas, guerreiras como nossas avós e mães  potiguaras que vem construindo e dando continuidade à cultura indígena, seja nas aldeias ou empurradas, violentadas para o lixo da sociedade envolvente, porque elas, pobres, analfabetas, indígenas, nortistas ou nordestinas só encontrariam espaço de sobrevivência nesse lixo e na miséria. É uma grande vitória, a  daquelas que conseguiram criar seus filhos e fazê-los dignos.
As mulheres foram alvo de perseguição masculina no processo de colonização. Elas eram arrancadas do  seio de seu povo para servirem de concubina  e escravas aos estrangeiros. Um desesperado líder indígena Kaiapó, do Pará, atualmente contou que sua jovem esposa havia partido com um homem branco, abandonando a família . Ela, anestesiada em sua consciência por ação neocolonizadora, queria os coloridos das cidades, os bens de consumo alheios à cultura indígena. Ela tem culpa? Não.
A responsabilidade é da política integracionista que paternalizou os povos indígenas até hoje. Mas, quando nosso movimento pela conscientização do papel inicial  da mulher indígena começou a causar polêmicas a partir de 1986, houve resistência de todos os lados.  E, como mulheres,  por querer saber o que aconteceu com os nossos avós que trabalharam para as falidas empresas que escravizaram a população indígena e deixaram centenas e centenas de mulheres grávidas, obrigadas a fugir de suas terras, de sua família tradicional, é que sofremos muitas perseguições. Afinal, o nosso silêncio ou nossa voz, têm sexo! Os pais indígenas, sabedores desta realidade, gostariam de lançar suas jovens filhas para esses abutres?
 Por outro lado, lamentavelmente, os homens indígenas por pressão histórica, continuaram mantendo suas mulheres na retaguarda e, conseqüentemente, pelo contato com os colonizadores acabaram adquirindo os seus maus hábitos e vícios, entre eles o de subjugar e desrespeitar a mulher, não esquecendo nós, que os piores caracteres, moralmente situando, foram os enviados para a Terra Santa, no início da colonização portuguesa.
Os direitos humanos das mulheres indígenas foram descritos em várias Conferências Nacionais e Internacionais, onde conseguimos espaços políticos  para dar um grito de basta ao sofrimento secular de nosso povo, onde o racismo e a  falta de apoio  ao cidadão e cidadã indígenas são os motivos mais agravantes. As campanhas de solidariedade devem ser  um veículo de luta para a efetiva conscientização da sociedade, como um todo, de que os povos indígenas são os primeiros habitantes deste país, as primeiras nações e, como tal, devem ser respeitadas, veneradas, preservadas como patrimônio humano do planeta terra, ao invés de sermos racializadas , discriminadas, empobrecidas, excluídas social, histórica e racialmente. Que possamos ver um Estatuto do índio realmente voltado na prática para os direitos humanos dos Povos Indígenas, tanto na área de desenvolvimento, trabalho, saúde, educação, preservando o patrimônio cultural, o direito à propriedade intelectual, a biodiversidade indígena, a espiritualidade.
As mulheres indígenas, aos olhos da sociedade, estão abaixo do último degrau que compõe as camadas da sociedade. Indígenas, pobres, discriminadas, excluídas, INVISÍVEIS, mão –de- obra escrava em plantios de cana-de-açúcar, algodão e outros. Na proximidade de mineradoras, tornam-se objeto sexual de garimpeiros ou mineradores, como muitas histórias que já ouvimos dos YANOMAMIS, em Roraima. Se estão nas cidades, empurradas por alguma razão social e política de sua nação, tornam-se, prostitutas nas grandes cidades, objetos de tráfego internacional de mulheres ou empregadas domésticas ou operárias mal remuneradas.
 Urge um trabalho de conscientização dentro das aldeias contra a violência doméstica, sexual , o estupro, o assédio ,  o alcoolismo que resulta nas violências interpessoais, nas intrigas, nos distúrbios psicológicos, nos suicídios. Um programa imediato, referente aos direitos reprodutivos e saúde integral devem ser implantados na prática, pelo governo e pelas ONGS.
Urge um trabalho de conscientização nessas nações que mais sofreram  os resultados maléficos da neocolonização, como povos Ressurgidos e junto aos Quilombolas. Essas nações têm consciência de sua identidade indígena, o que  é uma vitória, mas precisam  de apoio em todos os sentidos. E isso é de responsabilidade governamental, tendo o apoio das Ongs e parcerizadas com apoio tecnológico, oriundo de entidades nacionais e internacionais.Outro estudo importante é sobre povos indígenas emigrados e suas conseqüências.
As organizações indígenas devem, finalmente, desenvolver programas de formação de gênero, interagindo a cultura indígena com a diversidade, identidade,  questão do poder e a transformação,  criando assim seus objetivos e metodologias próprias. Que  possam promover a justiça social de gênero e conseqüentemente fortalecer o papel da mulher indígena em todos os segmentos.
    
SANDRA B.:  Qual o papel que a Educação e a Literatura desempenham nessa luta?

ELIANE: Educadores e pensadores indígenas,  temos, nos últimos anos, trabalhado conceitos para a implantação de uma Educação indígena diferenciada para povos indígenas, através, inclusive de materiais didáticos específicos. Indigenistas sensíveis têm participado desse processo. Isso porque a retrógrada educação visava conceitos completamente fora da realidade e cosmovisão étnicas, conduzindo povos indígenas à integração nacional e perda das tradições e culturas, levando o brasileiro a perguntar às suas crianças em escolas, “como viviam os índios” ? Povos Indígenas, não viviam, vivem, todavia! O desconhecimento e preconceitos são enormes e o brasileiro não se dá conta disso. Isso precisa mudar, realmente.
 Neste sentido, Educação e Literatura são caminhos que podemos seguir para a implantação de conceitos filosóficos que correspondam ao conceito de territorialidade, conceito esse que abrange toda a biodiversidade indígena: terras, trabalho, desenvolvimento, saúde, educação, espiritualidade, ética, meio-ambiente, universo feminino, etc...tanto para o contexto indígena, quanto o da sociedade brasileira, servindo de subsídios para a mídia impressa, eletrônica, etc.
E, quando buscamos esse caminho, nos reportamos à nossa história real e à história imposta pelos colonizadores que dizimaram consideravelmente parte da nossa cultura indígena e nossos valores. Nessa desconstrução de antigos conceitos, flui a verdadeira e abafada cidadania indígena, cidadania, aí, no sentido de exercício  dos direitos humanos dos povos indígenas. Sendo assim, Educação e literatura passam a constituir ferramentas altamente ideológicas para nós, povos indígenas: instrumentos de conscientização!
 
SANDRA B.: Fale-nos sobre o GRUMIN e a sua importância no sentido de integrar os indígenas aos cenários mundializados.

ELIANE:  Na década passada, o Grumin não só trabalhava ideologicamente para a constituição dos direitos humanos como também aplicava alguns projetos de desenvolvimento comunitário objetivando o “empowerment” da mulher indígena. Hoje, o Grumin constitui-se na Rede de Comunicação Indígena, objetivando a democratização da informação, um canal de comunicação e  também de  incentivo à produção literária. O nosso objetivo não é a integração dos povos indígenas ao mundo globalizado, é justamente o contrário. É tornar possível o  conhecimento acerca da globalização, compreender seu papel frente ao mundo  e se adaptar às  reais condições de suas raízes indígenas e territoriais, buscando a preservação de culturas e tradições. Para isso, povos indígenas , nas últimas décadas constituíram-se na chamada organização indígena para ocupar espaços políticos na sociedade em geral. Como exemplo, podemos nos referir à participação indígena nas mesas de debates com o governo criando políticas públicas, defendendo cotas políticas para  suas necessidades básicas, nas áreas de Educação, Saúde e Desenvolvimento. Nos organismos internacionais como a ONU, a OEA, a OIT, por exemplo, vemos já ali representantes indígenas, inclusive mulheres, discutindo suas considerações. Povos indígenas internacionais já ocuparam esses espaços há mais de três décadas. Se há espaços, cadeiras para nações livres, como Itália, por exemplo, há  de se constituir espaços para as etnias indígenas, porque elas existem e se diferenciam por suas línguas, tradições, culturas e espiritualidades indígenas e brasileiras.
 
SANDRA B.:  Como preservar o patrimônio cultural imaterial dos brasileiros indígenas, no mundo globalizado, como agir no sentido de impedir que esse patrimônio se transforme em produto de consumo da indústria cultural?

ELIANE:  Os direitos fundamentais dos Povos Indígenas são protegidos pelo Direito Internacional, da mesma forma que os direitos de todos os outros cidadãos do mundo. Esses Direitos falam sobre o direito à vida, o direito de não ser submetido a pressões, maus-tratos, punições cruéis e desumanas, penas-de-morte, o direito ao pensamento, consciência e religião. Tudo isso destrói os conhecimentos tradicionais e, conseqüentemente, sua propriedade intelectual. Os governos estão obrigados a defender os direitos humanos e a compensar as vítimas e seus parentes de abusos, exploração e desrespeito à integridade moral e física do cidadão e cidadã, mesmo que as violações tenham ocorrido durante governos, até muitas décadas passados.  O direito internacional prevê que os governos futuros herdem essa obrigação. Esse princípio foi reafirmado em 1988 pelo Tribunal Interamericano de Direitos Humanos. Em 1971, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos considerou que “ a proteção especial dos povos indígenas constitui um compromisso sagrado dos Estados”[membros] e recomendou que os Estados tomassem providências para proteger povos indígenas contra abusos cometidos por seu agentes, salientando que  “ os índios... não devem ser objeto de nenhuma espécie de discriminação social , nem racial.( fonte: Anistia Internacional) 
O que vemos atualmente é o contrário. Aldeias inteiras foram violadas, recentemente, em Roraima, e líderes assassinados a favor da rizicultura local dos grandes latifundiários. Quando não são casos como esse, vê-se a expropriação de ervas, conhecimentos tradicionais do pajés, designs, histórias cosmológicas etc...O INBRAPI ( Instituto Indígena Brasileiro Para a propriedade intelectual) do qual faço parte do Conselho, surgiu com o objetivo de, daqui para frente, defender juridicamente esses conhecimentos contra a pirataria.Infelizmente o que já foi pirateado, está perdido. 
 
SANDRA B.:  Fale-nos sobre a Rede de Escritores Indígenas e como o trabalho tem sido divulgado.
ELIANE:  Realizamos, em setembro  de 2004, o I Encontro Nacional de Escritores Indígenas, no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, no 6º Salão de Livros da FNLIJ. Ali,  também lançamos livros, como o meu por exemplo, “METADE CARA, METADE MÁSCARA”, pela Global Editora, inaugurando a coleção Visões Indígenas, coordenado por Daniel. Demos, um pontapé inicial em nossa rede. O Encontro buscou discutir “O Direito Autoral e a Proteção dos Conhecimentos Tradicionais", cujo objetivo era debater formas alternativas para o incremento de uma política de proteção dos conhecimentos coletivos de nossos povos. Transcrevemos aqui alguns pontos importantes da nossa Declaração de Escritores indígenas:

1. Nosso conhecimento tradicional é coletivo e está vivo e presente em nosso país muito antes dos conquistadores europeus aportarem em nossas praias. É um conhecimento que abrange o material, mas principalmente o espiritual de nossa gente e não pode ser considerado domínio público, pois o uso indevido pode empobrecer seu verdadeiro valor moral e social e deturpar seu sentido poético e simbólico;
2. Nossa oralidade é parte fundamental para a manutenção dos nossos sistemas sociais, políticos, religiosos e educacionais. Entendemos a necessidade de revigorar nossa tradição e nossos valores a partir da oralidade, bem como entendemos que um meio disso ocorrer é através da edição e difusão de livros de autoria indígena, nos quais nossas crianças poderão encontrar incentivo e estímulo para conviverem com sua própria identidade étnica;
3. Os conhecimentos de nossos avós foram deixados para nossos netos de forma oral como uma teia que une o passado ao futuro. Esta fórmula pedagógica tem sustentado o céu no seu lugar e mantido os rios e as montanhas como companheiros de caminhada para nossos povos. Tais conhecimentos, em forma de narrativas - chamados mitos pelo ocidente - foram sendo apropriados por pesquisadores, missionários, aventureiros, viajantes, que não levaram em consideração a autoria coletiva e divulgaram estas histórias, não se preocupando com os seus verdadeiros donos e não repartindo com as comunidades os dividendos provenientes de sua comercialização no mercado editorial nacional e internacional. Consideramos este tipo de manipulação prejudicial e reivindicamos uma relação mais ética e transparente com o patrimônio cultural - material e imaterial - de nossos povos.
A partir destes pontos abordados durante nosso encontro, decidimos:
1. Fundar um núcleo de escritores indígenas que pretende reunir autores em torno de uma agenda comum na defesa dos direitos autorais coletivos de nossa gente. Tal núcleo estará ligado ao Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual - INBRAPI - e agirá junto às instâncias governamentais e não-governamentais que operam com a defesa dos conhecimentos tradicionais. Além disso, o NEI prestará consultoria para o mercado editorial, procurando ser uma referência para a sociedade;
2. Sugerir às editoras maior cuidado com a edição e publicação de livros ligados à temática indígena. Semelhante cuidado ajudará a diminuir a exclusão social de nossos povos e a aproximar nossas sociedades e a sociedade brasileira;
3. Propor a criação de um selo de Responsabilidade Social e Repartição de Benefícios para ser usado em livros publicados com histórias tradicionais identificadas. Tais benefícios seriam depositados num fundo especialmente criado para o gerenciamento do mesmo sob a responsabilidade do NEI;
4. Alertar os governos (federal, estadual e municipal) para a necessidade urgente do desenvolvimento de políticas públicas para implementar, em nossas comunidades, bibliotecas especializadas bem como projetos de incentivo ao livro e à leitura;
5. Articular, politicamente, junto aos governos (Federal, Estadual e Municipal) rubrica orçamentária específica para viabilizar as ações do NEI;
6. Sugerir à Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ - a manutenção, em sua agenda, dos concursos CURUMIM e TAMOIOS para incentivar a leitura de livros de autoria indígena bem como incentivar o surgimento de talentos literários entre os indígenas brasileiros. Acreditamos que nosso encontro foi muito proveitoso para nós e para a sociedade brasileira e temos certeza que avançamos, ainda que a passos lentos como pede a sabedoria de nossos ancestrais, de chegarmos a um momento de verdadeira troca com a sociedade nacional.
 
SANDRA B.: A senhora está escrevendo uma história nova, produtiva e bela, para as mulheres indígenas; um trabalho sem dúvida gratificante. Como a senhora analisa a continuidade dessa história, suas perspectivas são boas?
ELIANE:  Sim, são boas. Pretendo aprofundar mais o tema sobre a construção do "pensamento indígena brasileiro", para contribuir com a construção da auto-determinação do povo indígena nacional que, há 5 séculos, está entrelaçado nas amarras do paternalismo oficial, religioso, institucional. Tudo isso, para mim, é uma forma de discriminação contra a capacidade da gestão indígena. O código civil dizia que os indígenas eram incapazes. Isso acabou na teoria, mas, na prática é uma realidade, por isso a importância da educação diferenciada para o crescimento dos povos indígenas e o estabelecimento da Universidade Indígena, num futuro breve! Continuo estudando muito para elaborar novas abordagens. Na juventude me formei professora com os esforços das vendas de bananas que vovó fazia. Muito importante, também, é me reportar ao discurso oral de minha família analfabeta. Tudo que sou devo à minha família indígena, mesmo fora das terras tradicionais. Por outro lado, a inspiração, os sonhos que determinam a minha criação literária, a minha espiritualidade e fortalecimento de minha ancestralidade, me direcionam para uma nova obra, se nossos guias espirituais e o Grande espírito permitirem.

 

Ibase, 12 de abril de 2002

Educação diferenciada: respeito à cultura e tradição
AnaCris Bittencourt

Brasileira, indígena, 51 anos. Professora, formada em Letras e Educação, escritora. Eliane Potiguara somou todas essas armas para defender os direitos das mulheres indígenas. Guerreira, tem conseguido bons resultados. Criou a primeira organização de mulheres indígenas do país em 1986, a Grumim (Rede de Comunicação Indígena sobre Gênero e Direitos), e ajudou a estruturar o Movimento Indígena Brasileiro. Se sua trajetória é marcada por vitórias, por cada uma carrega cicatrizes. O reconhecimento veio em 1988, quando foi eleita uma das 10 mulheres do ano no Brasil pelo conjunto do seu trabalho.
Para ela, o I Censo Escolar Indígena, divulgado no final do ano pelo governo federal, precisa ser visto como valiosa ferramenta neste ano eleitoral, mas não para os políticos: "os dados devem ser utilizados pelas ONGs para implementar projetos alternativos de educação bilíngüe e diferenciada. E também servir para solucionar problemas identificados no próximo governo. É preciso que se garanta isso na plataforma dos candidatos mais votados à Presidência".

IbaseNet — O Censo mostrou que há mais professores do que professoras, eles representam 65% do total. O que isso indica?
Eliane Potiguara — Indica que a participação das mulheres indígenas ainda está aquém. Percebi isso há 20 anos, quando conversava com líderes indígenas e professores. Que a mulher estava fora por razões culturais. Sabemos que na colonização portuguesa os homens, para defenderem suas mulheres e crianças, colocavam-nas na retaguarda comunal e esse segmento ficou lá até hoje. É preciso resgatar a funcionalidade inicial da mulher indígena antes do processo colonial. Ela tinha a decisão sobre problemas políticos, tinha a última palavra. Sabemos que a solidão das mulheres indígenas começou com a migração por ação violenta aos seus povos. Muitas esposas anônimas, guerreiras, como minha avó Potiguara, vêm construindo e dando continuidade à cultura indígena, seja nas aldeias ou empurradas, violentadas para o lixo da sociedade. Vitória daquelas que conseguiram criar seus filhos e fazê-los dignos.
IbaseNet — O número de meninos nas escolas também é maior. Existe resistência à educação formal das meninas?
Eliane Potiguara — Sim, as mulheres foram alvo de perseguição masculina desde o processo de colonização. Eram arrancadas do seu povo para servirem de concubinas e escravas aos estrangeiros. Essa responsabilidade é da política integracionista que paternaliza os povos indígenas até hoje. Mas quando nosso movimento pela conscientização da mulher indígena começou a causar polêmicas, a partir de 1996, fui ameaçada de morte. Levada pela Polícia Federal, fui humilhada pelos jornais da Paraíba, difamada pela política e interesses locais. Sofri até violência sexual e psicológica. A cartilha de conscientização que escrevi, A terra é a mãe do índio, apoiada pelo Programa de Combate ao Racismo do Conselho Mundial de Igrejas, foi o estopim das perseguições que sofri. Os pais indígenas sabedores desta realidade gostariam de lançar suas jovens filhas para os abutres? É melhor que cresçam mais antes de irem às escolas para adquirirem mais consciência.
IbaseNet — Em que situação você coloca a mulher indígena na nossa sociedade e nas aldeias?
Eliane Potiguara — As mulheres indígenas, aos olhos da sociedade, estão abaixo do último degrau que compõe as camadas da sociedade. Indígenas, pobres, discriminadas, excluídas, invisíveis. São mão-de-obra escrava em plantios de cana-de-açúcar, algodão e outros. Se estão próximas a mineradoras, são objeto sexual de garimpeiros ou mineradores. Se estão nas cidades, empurradas por alguma razão social e política de sua nação, tornam-se prostitutas, objeto de tráfico internacional de mulheres, empregadas domésticas ou operárias mal-remuneradas.
Dentro das aldeias urge um trabalho de conscientização contra a violência sexual, o estupro, o assédio, o alcoolismo que resulta nas violências interpessoais, nas intrigas, nos distúrbios psicológicos, nos suicídios. Um programa imediato referente aos direitos reprodutivos e saúde integral deve ser implantado pelo governo e pelas ONGs. Urge um trabalho de conscientização nessas nações que mais sofreram com a neocolonização, ao lado dos povos Ressurgidos e dos Quilombolas.
IbaseNet — Como você avalia a política nacional de educação indígena, implementada a partir de 1994?
Eliane Potiguara — Toda nova política aos povos indígenas deve ser avaliada com muito cuidado. É necessário que essa implementação parta de um diálogo construído com os próprios povos indígenas para que não se caia mais uma vez no paternalismo, uma das maiores causas silenciosas da destruição da cultura e espiritualidade indígenas. A nova política demorou muito a ser aplicada. Mas se estiver dentro dos parâmetros desejados pelos povos indígenas, vai evoluir. A V Assembléia Geral do Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas (Meiam), realizada em janeiro, deixou claro que a formação do(a) estudante indígena deve ser diferenciada, respeitando suas culturas e tradições. E é isso que se espera dessa nova política governamental.
IbaseNet — Apenas um terço das escolas indígenas do país utilizam material didático diferenciado e bilíngüe. Como autora de livro didático, qual é a dificuldade de se produzir esse material?
Eliane Potiguara — Essa dificuldade se dá porque poucos indígenas estão capacitados para isso. Se o governo exige a utilização do material, deve também oferecer condições para produzi-lo e distribuí-lo. A transformação da cultura e das tradições indígenas em linguagem própria para cada povo, com suas especificidades locais e lingüísticas, deve ser feita por elementos desse povo. Não adianta uma bem intencionada lingüística criar um método de alfabetização. Pode, no máximo, servir de orientação para professores(as) indígenas, mas a tônica da alfabetização precisa ser dada pela comunidade, a partir da realidade e da vivência daquele povo, respeitando a tradição oral dos mais velhos.
IbaseNet — O seu livro didático Akajutibiró: terra do índio Potiguara teve boa aceitação entre estudantes e profissionais de Educação?
Eliane Potiguara — Escrevi essa cartilha como filha da terra indígena Potiguara. Convivi com minha avó, tias e mãe. Pude compreender o que era um Toré (dança indígena de algumas nações do Nordeste para representar um fato, atrelando-se aos antigos ancestrais, através de chamadas pela música e dança). Quando o livro foi editado, em 1994, foram enviadas centenas de cartilhas para o posto da Funai na Baía da Traição, Paraíba, onde vive a nação indígena Potiguara. Mas o acesso desse material às comunidades indígenas tem sido dificultado por diversas razões. O bloqueio é uma forma egocêntrica de impedir a conscientização por esse tipo de alfabetização.
IbaseNet — O que esperar da Campanha da Fraternidade, cujo tema este ano são os povos indígenas?
Eliane Potiguara — Que a Campanha de Fraternidade seja um veículo de luta para a conscientização da sociedade de que os povos indígenas são os primeiros habitantes deste país, as primeiras nações e, como tal, deveriam ser respeitados, preservados como patrimônio humano do planeta Terra, ao invés de sermos discriminados(as), empobrecidos(as), excluídos(as) social, histórica e racialmente.
 
 
Autora defende união de índios e brasileiros
 
JORNAL O LIBERAL

A índia Eliane Potiguara lança seu segundo livro, um romance que trata da violência praticada contra a cultura indígena em todo o mundo

Uma índia que prefere ser chamada apenas de brasileira, inclusive sem dar muito destaque ao Estado onde nasceu. O mais importante, diz Eliane Potiguara, é a ascendência, a ancestralidade, que no seu caso é da nação potyguara, da Paraíba. Por ter tido uma família forçada a migrar para o Rio de Janeiro, Eliane nasceu naquele Estado. Essa história da migração dos povos indígenas, que inclui a sua família e outras situações do movimento indígena nacional e internacional ela conta no romance “Metade Cara, Metade Máscara”, o seu terceiro livro, lançado em Belém na última quinta-feira.

Eliane, que é professora formada em letras (português e literatura), licenciada em educação e especialista em direito indígena, defende no romance a preservação da identidade dos povos indígenas, contando a história de um casal de nativos brasileiros que se perdeu em 1500, durante a chegada do colonizador ao Brasil, e se encontra na contemporaneidade, através de seus descendentes. A história, cujo personagem principal é o herói Jurupiranga, é entremeada com a vivência da escritora sobre a violência praticada contra a cultura indígena e as conseqüências desse processo. Ela trata ainda do papel da mulher e do homem, o papel do índios na sociedade brasileira, além de tocar sultilmente em temas como propriedade intelectual, meio ambiente, terra, território e espiritualidade.

O objetivo do romance, segundo a autora, é ressaltar os princípios éticos indígenas, um modelo de respeito ao ser humano que na sua visão deveria ser seguido pela maioria da sociedade, principalmente a dominante. Eliane acredita que essa é uma idéia possível. “Durante séculos os povos indígenas vêm sofrendo todo tipo de violência, muita coisa que sequer chega a ser noticiada, mas hoje nós já vemos por parte do próprio governo um reconhecimento maior ao que um índio representa, uma espécie de dívida que aos poucos começa a ser resgatada”, diz ela, ao ressaltar as conquistas de muitos nomes indígenas nos cargos públicos como a legislatura municipal, como ocorreu no pleito de 3 de outubro em vários Estados, principalmente nos da região Nordeste.

Segundo Eliane, ter essa voz é apenas mais um passo da luta, que tem como maior inimigo o grande capital, principalmente das empresas mineradoras e madeireiras, que, segundo ela, não estão interessadas na demarcação de terras indígenas e muito menos em respeitar esses limites de forma sustentável para as comunidades e para o meio ambiente. “O que tentamos, não só nesse livro, mas em todo o nosso trabalho, é demonstrar que de fato a terra é a mãe do índio e mãe da nação brasileira”, diz Eliane, que insiste em defender a união dos povos indígenas como brasileiros. .

O novo livro de Eliane faz parte da série “Visões Indígenas”, da Global Editora, coordenada pelo também escritor indígena Daniel Munduruku. Eliane tem outros dois livros publicados. O primeiro - “A Terra é a Mãe do Índio” (1989), foi premiado pelo Pen Club da Inglaterra e serviu de tese para dois mestrados estrangeiros (Índia e Estados Unidos). Ela fundou em 1986 a Associação Grumin (Grupo Mulher-Educação Indígena), que dez anos depois recebeu o II Prêmio de Cidadania Internacional e tornou-se a Rede de Comunicação Indígena Grumin, para resolução de temas específicos como direitos indígenas.

Em 1994 Eliane lançou o livro “Akajutibiró, Terra do Índio Potiguara”, uma espécie de cartilha de apoio à alfabetização para adultos e crianças apoiada pela Unesco. Aos 54 anos, a escritora é hoje uma das conselheiras do Instituto Indígena de Propriedade Intelectual e membro da Rede de Escritoras Brasileiras.
 
 

REVISTA PARTES - Novembro/2004

 

1. Quem é Eliane Potiguara? 
Sempre que alguém me pergunta quem eu sou, existe quase que uma obrigatoriedade de você ter que responder a cerca de seus títulos, seu estado civil, idade, o que você faz,  o que fez, o que pretende fazer, onde nasceu, quem são seus parentes? Eu hoje tive vontade de falar de outra coisa. Eu sempre tive que transpor obstáculos para sobreviver. Toda minha família indígena, extremamente empobrecida, imigrou das terras indígenas paraibanas para Pernambuco por ação na neo-colonização do algodão por volta de 1922. Em pouco tempo, imigrou num navio sub-humano para o Rio de Janeiro. Nasci ali, num gueto formado por indígenas e judeus imigrantes  da 2ª guerra Mundial que se tornaram bananeiros,  carvoeiros. Minha família morou literalmente nas ruas, no Mangue na área de prostituição perto da Central do Brasil, mas ninguém participou desse contexto. Eu dormia num baú que um português deu a gente, por causa das ratazanas que vinham morder meus pés. Nenhum parente meu ficou na área indígena, por medo e vergonha! O falecido Sr. Marujo, um índio muito velhinho e cego foi que se lembrou dessa história quando lhe perguntei em 1979, na Paraíba. As quatro irmãs, um irmão e mãe fugiram porque o pai delas havia desaparecido e elas estavam sendo ameaçadas.Vovó já saiu grávida,  vitimada com 12 anos!

Fiquei presa vários anos num quarto na minha infância e quando via o sol desmaiava. O cômodo era sombrio, o banheiro imensamente sujo, cheio de insetos e cheio de limo e fora da casa. Todos os moradores dali utilizavam aquele fétido banheiro público!Tudo era da pior qualidade. Eu tive anemia profunda e tuberculose. Tive tumores no super-cílio e no mamilo, curados com visgo de jaca, teia de aranha e minhoca amassada, mistura essa aplicada por muitas e muitas vezes para a cura. Tenho esse cheiro até hoje no meu olfato!

A única coisa diferente era a educação, a espiritualidade e o amor que eu recebia de minha avó, mãe e tias indígenas. Elas me cobriam de amor, afeto e me protegiam contra a sociedade, que as discriminavam por serem diferentes. Por isso fiquei presa muitos anos, naquele cômodo escuro. Aprendi a escrever ali mesmo. Foi  ali que me tornei escritora com 7 anos, escrevendo as cartas que vovó analfabeta ditava pra mim. Eram histórias de muita dor, saudade, abandono, discriminação racial, social, intolerâncias. Ela me chamou de Potiguara, porque ela conhecia  a cura pelas ervas, ensinadas pelos seus pais.  Hoje meu nome de escritora é Eliane Potiguara, reforçado pelas lideranças indígenas que participaram na luta do movimento indígena nesses últimos 30 anos.

Quando fui à escola não entendia porque riam de mim e de vovó que todos os dias vendia bananas na porta da escola! Ali comecei a me sentir diferente das crianças e adultos. Minha avó bebia e eu chorava muito porque não conseguia entender nada do que a professora ensinava e porque vovó bebia e se embalava no fumo de rolo. Minha escola era outra!Anos mais tarde, pisei tapetes vermelhos na Europa e pisei na lama encharcada de sangue-sugas literalmente e na vida! Mas sou a mesma pessoa que vovó criou. A pobreza batia à nossa porta e minha família não conseguiu ficar comigo quando fiz 8 anos. Fui para a Funabem, foi um choque, eu me perdi no tempo e no espaço, mas fiquei muito pouquinho tempo, porque logo minha família banhada em lágrimas me retirou de lá, quando me encontrou imunda, cheia de piolhos, chatos e fedendo como carniça e em pele e osso, roupa rasgada, descalça, quase morrendo de anemia. Eu sou Eliane Potiguara, uma mulher que muitos pajés disseram que ando com a força da ancestralidade e da espiritualidade à minha frente e que de minha boca, palavras ecoam abrindo caminhos, despertando consciências. Isso me foi dito, não são minhas palavras. Nunca havia falado isso até hoje, pois eu achava que se falasse, parecia pretensão de minha parte. Mas nos meus 54 anos de idade, mãe e avó, está na hora de falar.



2. Você está lançando seu segundo livro "Metade Cara, Metade Máscara" de quais assuntos trata nesta obra? Qual é o objetivo da obra?
O livro fala de amor, relações humanas, paz, identidade, histórias de vida, mulher, ancestralidade e família. É uma mensagem para o mundo, na medida em que descreve valores abafados pelo poder dominante e, quando resgatados, submergem o self selvagem, a força espiritual, a intuição, o grande espírito, o ancestral, o velho, a velha, o mais profundo sentimento de reencontro de cada um consigo mesmo, reacendendo e fortalecendo o eu interior, contra uma auto-estima imposta pelo consumismo, imediatismo e exclusão social e racial ao longo dos séculos.

O texto discorre sobre a luta do movimento indígena nacional/ internacional, da imigração indígena por violência à sua cultura e conseqüências. O papel fundamental da mulher indígena no contexto cultural e sua contribuição na sociedade brasileira é um expoente. Poeticamente, conta as dores das mulheres e seus desejos mais íntimos.

Links sobre direitos indígenas como propriedade intelectual, conhecimentos tradicionais, meio ambiente, terra e território, biodiversidade, espiritualidade, contribuição da ética e cosmovisão indígenas para um novo homem/mulher são destacados neste livro em forma de histórias, cânticos, sussurros e gritos. Essa criação vai mexer com seu imaginário e fazer você viajar nas profundezas da mente em prol de mudanças concretas.


3. Há outra obra em processo?
Sim, pretendo aprofundar  mais o tema sobre a construção do "pensamento indígena brasileiro", para contribuir com a construção da auto-determinação do povo indígena nacional que há 5 séculos está entrelaçado nas amarras do paternalismo oficial, religioso, institucional. Tudo isso pra mim é uma forma de discriminação contra a capacidade da gestão indígena. O código civil dizia  que os indígenas eram incapazes. Isso acabou na teoria, mas na prática é uma realidade, por isso a importância da educação diferenciada para o crescimento dos povos indígenas e o estabelecimento da Universidade Indígena, num futuro breve! Continuo estudando muito para elaborar novas abordagens. Na juventude me formei professora com os esforços das vendas de bananas que vovó fazia. Muito importante também é me reportar ao discurso oral de minha família analfabeta. Tudo que sou devo à minha família indígena, mesmo fora das terras tradicionais.  Por outro lado, a inspiração, os sonhos que determinam a minha criação literária,  a minha espiritualidade e fortalecimento de minha ancestralidade, me direcionam para uma nova obra, se nossos guias espirituais e o Grande espírito permitirem.

4. Ser mulher, ser índia. Qual o desafio desta dupla identidade?
Fortalecer essas identidades para mim foi muito difícil, principalmente porque a maioria das pessoas de minha família eram mulheres. Eu digo eram, porque minha família era muito pequenininha, hoje só tenho uma tia, já doente.Todos faleceram, inclusive mamãe, "a sacerdotiza das águas". Imaginem querer ser mulher num contexto altamente discriminatório social e racial e de gênero e etnia!!!! Mas a força das mulheres da minha família, que também andavam com a velha guerreira à sua frente, e que possuía o poder da palavra transformadora que motivava mentes, tudo isso construiu  para a mulher que sou. Eu tenho um texto chamado PELE DE FOCA,  inspirado na escritora Clarissa Pinkola que é um desabafo sobre ser Mulher, na sociedade que impõe valores adversos. O texto está no meu site pessoal
http://www.elianepotiguara.org.br .
Ser mulher índia, para mim é um orgulho, pois devemos sempre assumir nossa etnia e não nos envergonharmos, como queriam os colonizadores. Nunca fomos vergonha nacional para os jesuítas e ideologicamente nunca fomos objeto de cama e mesa para os capitães-de-índios, apesar de muitas mulheres terem suas vidas ceifadas por eles. A colonização é longa, mesmo nos tempos atuais. Desde as idéias abertas, libertárias e transformadoras do filósofo Sócrates, que viveu 399 anos antes de Cristo até hoje, não conseguimos mudar o ranço do poder pátreo e implantar  a verdadeira democracia, a verdadeira paz através do diálogo,compreensão e tolerâncias. Fala-se muito na construção da ética, da paz, da igualdade social, racial e de gênero. Mas muita coisa fica na teoria quando esbarra no poder, no capital, isso todo mundo está cansado de saber.

Falo no meu livro "Metade Cara, Metade Máscara", da dualidade intrínseca no ser humano que enfrenta a todo momento o predador natural de sua psique: o "self selvagem", o lado intuitivo, o libertador e o "ego", o ser humano egoísta, que constrói "a mais valia", o lucro fácil, o "passar por cima do outro", desrespeitando a  verdadeira ética humana. E o papel da mulher indígena na construção de um novo homem/nova mulher na sociedade brasileira precisa ser uma realidade a ser reconhecido e assimilado. As mulheres indígenas vem beijando as feridas do mundo para essa construção.

Motivada pela sabedoria de vovó, há 28 anos atrás visitei pela primeira vez várias etnias indígenas, isso motivou a criação do Grumin/Grupo Mulher -Educação Indígena que trabalhava para o empowerment da mulher indígena através de projetos de capacitação e geração de rendas. Não existiam Ongs. Isso contribuiu para a elevação da sua auto-estima contra o sistema opressor. Hoje o Grumin é a Rede de Comunicação Indígena.

Há muito tempo tenho dito em meus textos: "Mulheres indígenas, construam suas organizações mesmo dentro de suas casas. O meu trabalho até hoje nunca foi construir o materialismo e sim a filosofia para a construção de uma qualidade de vida digna para Povos Indígenas, por isso políticas públicas do governo são altamente  positivas para essa dignidade, além da demarcação das terras, reconhecimento do território ancestral que define a cosmovisão indígena.

Construir as identidades mulher e indígena é condição "se ne qua non" para construção de outras identidades como escritora, juíza, professora,esposa, mãe, etc... o que muitas mulheres indígenas estão à busca hoje.



5. Em que estágio encontra-se a luta dos povos indígenas no Brasil?  
Ao meu ver, a luta dos povos indígenas brasileiros esteve muito atrasada em relação à luta indígena dos povos Norte-Meso Americanos. Basta ver que o Fórum Permanente para Povos Indígenas criado na Onu, conquista nossa (ali também estive e outros indígenas brasileiros!) não possui um representante indígena brasileiro, ainda, enquanto todas as cadeiras estão representadas por sua regiões e indígenas ali estão sentados. Porquê será que o indígena do Brasil não está ali? 

Tudo inicialmente começou com os jesuítas e donatários das capitanias hereditárias, apesar da Bula papal de 1337, de Urbano da Espanha , que já  proibia a escravidão indígena desde aquela época. Em 1566, Mem de Sá cria o cargo capitão-do-índio, em  1759. Francisco Xavier, irmão do Marquês de Pombal, cria os diretor-do-índio, em face da " brutalidade natural e manifesta ignorância indígena" (quanto racismo!). Em 1910, é criado o SPI (Serviço de Proteção do Índio). Esse serviço pertenceu inicialmente ao Ministério do Trabalho (claro, os índios eram mão de obra escrava!), Indústria e Comércio.  Em 1934 pertenceu ao Ministério da Guerra e depois da Agricultura, nesse  processo e encima dessas ideologias, foram criados os cargos de Chefe de Posto Indígena. O cacique foi criado nesta perspectiva também. Em plena ditadura militar, 1965, foi criada a Funai que esteve na maior parte do tempo nas mãos de militares. Essa política sempre foi a mesma: a tutela, a paternalização, mesmo no governo atual e com as atuais demarcações de terras indígenas já vitoriosas pelo nosso Presidente Lula da Silva. Há de se fazer essa leitura, por favor!!! Onde estavam os pajés, as pajés, os guerreiros autênticos, as mulheres guerreiras, os velhos, as velhas???? Abafados pelo poder!

Se o governo atual pensar nesse caminhar histórico, chegará a conclusão que alguma coisa está errada!

Políticas públicas, cotas para povos indígenas, reconhecimento histórico  da cosmologia e territorialidade indígenas, fortalecimento dos líderes de base, fortalecimento das organizações indígenas, fortalecimento das candidaturas indígenas, inserção de povos indígenas em todos os programas de governo, fortalecimento das estratégias para a Educação, saúde e desenvolvimento indígenas diferenciados, etc...etc...etc.... são caminhos concretos para a verdadeira construção da dignidade dos povos indígenas e o fortalecimento da luta indígena no Brasil. Indígenas não podem mais passar o pires, indígenas não podem mais aceitar paternalismos, indígenas estão paulatinamente construindo a política indígena brasileira, começou com a vitória na Constituição de 1988. Agora o novo Estatuto do índio precisa ser uma realidade.  Tudo faz parte de processo histórico e certamente  a vitória chegará, apesar do atraso que considerei no início do parágrafo. 

Como tenho falado, indígenas precisam ser vistos como as primeiras nações desse extenso Brasil, respeitados e nunca vistos empunhando bordunas e fazendo Marchas para a constituição de seus Direitos Humanos. A verdadeira imagem indígena e intrínseca é de paz, de amor, de equilíbrio com a natureza, patrimônios éticos relativos aos conhecimentos tradicionais indígenas.


 A entrevista acima foi concedida, por e-mail, para o editor da revista P@rtes, Gilberto da Silva no inicio de novembro.


 

 

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