Testemunho
sobre a situação indígena brasileira ao Relator
Especial da ONU sobre Formas Contemporâneas de
Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância
relacionada à questão racial - Sr. Doudou Diène
BRASIL,
Rio de Janeiro, 24 de outubro de 2005.

A
partir de CONSULTA PRÉVIA aos povos indígenas
brasileiros e democratizando as informações com
Organizações de apoio aos povos indígenas para a
elaboração deste testemunho para o Relator
Especial da ONU sobre Formas Contemporâneas de
Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância
relacionada à questão racial - Sr. Doudou Diène,
o Grumin/Rede de Comunicação Indígena, através
de sua editoria política, que já havia relatado
com destaques as formas de racismo às mulheres indígenas
e a seus povos há 10 anos atrás, quando da outra
vinda do Relator, vem agora e novamente dar
continuidade a esse compromisso. Esse compromisso
fora antes assumido publicamente em nossos slogans
contra a discriminação racial e social aos povos
indígenas, em nossos jornais, materiais didáticos,
publicações e assembléias e projetos em geral, à
época do GRUMIN/ Grupo Mulher –Educação Indígena
quando integrávamos o Programa de Combate ao
Racismo/CMI/Genebra há vários anos, o mesmo
PROGRAMA que por muito apoiou a luta de Nelson
Mandela.
Existe
racismo aos povos indígenas no Brasil?
Apesar
da ratificação da Convenção 169 da OIT, que
busca melhorar a situação indígena e representa o
cumprimento dos direitos indígenas, ainda assim,
dois lados permeiam o contexto histórico, político,
social e econômico da sociedade brasileira: de um
lado, os que sofrem impactos seculares ocasionados
pela discriminação social e racial, e aí estão
inseridos toda
a população pobre e os povos indígenas do
Brasil. Do outro, os que potencializam direta ou
“indiretamente” para tornar real essa discriminação.
No entanto, neste “indiretamente” existe um
terceiro elemento obscuro, maquiavélico, “desintensional”:
Os que se mostram solidários, mas dão desculpas
econômicas e políticas, apresentam propostas e
promessas e não cumprem, os que confundem a mídia
e a massa, apesar de saberem que direitos indígenas
precisam ser respeitados. É como considerar e olhar
uma estátua como bela, saber que ela está lá
vulnerável ao predador, vê-la quebrar, anunciar e
prometer restaurações e vê-la transformar-se em pó,
justificando a impotência histórica diante da sua
destruição e morte.E povos indígenas continuam
invisíveis e excluídos.
Assim
é o Estado brasileiro e todas as máquinas que se
dizem responsáveis pelos povos indígenas desde
1759, com a criação do cargo “diretor dos índios”,
prenúncio da tutela e da discriminação étnica,
passando pelo SPI (Serviço de Proteção ao índio)/1910,
desembocando na Lei 5.371 que cria a Funai (Fundação
Nacional do Índio) em plena ditadura militar,
objetivando “integração e proteção”,
conceitos altamente racistas na sua essência filosófica.
A
situação fica pior justamente nos tempos atuais,
quando o regime democrático tem sido restaurado e
políticas mais justas foram implantadas e povos indígenas
nunca contemplados de forma ampla.Todos esses fatos
impõem uma inferioridade biológica, cultural,
moral, espiritual a que os povos indígenas estão
acorrentados desde a invasão dos europeus em 1500,
no Brasil. Primeiro a escravidão vergonhosa e
literal, agora a escravidão moral!
Desde
o impacto causado por Sepé Tiaraju, no século
XXVIII (1756), que lutou pela sobrevivência do povo
Guarany, passando pelas palavras desesperadas de
socorro do líder indígena Marçal Tupã-Y, por
ocasião da visita do Papa João Paulo II ao
Brasil(1980), e após esse líder ter sido
assassinado com um tiro na boca, em 1983; passando
ainda, por todas as
vergonhas e desumanidades públicas ou anônimas,
como o assassinato do índio Galdino, cujos jovens
burgueses e racistas
atearam fogo ao seu corpo e finalmente, retomando a
todas as Assembléias indígenas brasileiras
reivindicatórias _
nacionais e internacionalmente_ que lutaram
pelos direitos indígenas, até a data de hoje, a
verdade é o descaso, a falta de vontade política
de eleger essa demanda como prioridade histórica,
tem sido a tônica crua e real.
É
a destruição de um dos maiores patrimônios
da Humanidade, os guardiões da natureza, nós os
povos indígenas! Mas somos guerreiros e guerreiras
e sobreviveremos porque temos os ancestrais como
esteio cultural e espiritual e que derramaram seu
sangue nessa terra amada.
O
Governo brasileiro, na gestão de Presidente
Fernando Henrique Cardoso, assumiu diversos
compromissos perante a Onu, por ocasião da Conferência
Mundial contra o Racismo, em Durban/2002.Esses
compromissos deveriam ser cumpridos por qualquer
governo, inclusive do Presidente Lula da Silva.Os
pontos assumidos naquele documento fizeram parte do
Programa de Ações para Povos Indígenas do Partido
dos Trabalhadores, partido do Governo e estão
amparados pela Constituição Brasileira.Isso
significa que o partido e o governo Lula estão
conscientes desses compromissos.Esse é um forte
ponto que o Governo tem desrespeitado, apesar de
informado, mesmo tendo realizado a Conferência
Nacional de Promoção da Igualdade Racial, em junho
deste ano, onde solicitamos
a aprovação
da proposta da criação de uma Secretaria
Especial para Povos indígenas, que não foi aceita
pela Ministra Matilde Ribeiro, justificando que este
fato enfraqueceria as lutas e promoveriam divisões
entre movimentos negro e indígena. Precisamos de ações
concretas e emergenciais para povos indígenas,
porque somos povos diferenciados e
daremos continuidade à reivindicação sobre
a implantação dessa importante Secretaria.
Vamos
relembrar aqui o Programa de Ação da Conferência
de Durban que adotamos em nossas reivindicações e
que insta aos Estados a:
1-adotar
e seguir aplicando medidas constitucionais,
administrativas, legislativas e judiciais, e todas
as disposições necessárias para promover o exercício
pelos povos indígenas de seus direitos;
2-trabalhar
com os povos indígenas para estimular o
desenvolvimento de suas economias, apoiando–lhes
com serviços de capacitação, assistência técnica
e crédito financeiro;
3-cooperar
com o trabalho do Relator Especial da Comissão de
Direitos Humanos da ONU responsável por relatar a
situação dos direitos humanos e liberdades
fundamentais dos povos indígenas.
4-O Programa de Ação ainda incentiva os Estados a
garantirem recursos financeiros para o funcionamento
do Fórum Permanente sobre Questões Indígenas da
ONU e a aprovação imediata do Projeto de Declaração
da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas.
5-Merece destaque o empenho dos diplomatas do
Itamaraty e dos membros do Ministério da Justiça
para aprovar os capítulos referentes aos índios
desde as reuniões preparatórias da Conferência
Mundial ocorridas no Chile e em Genebra, bem como na
ocasião de sua realização em Durban.
Passada a Conferência, faz-se necessário garantir
junto ao governo federal que se cumpra a Declaração,
o Plano de Ação e a proposta aprovada internamente
pelo governo brasileiro para combater o racismo.
Vale ressaltar que o Presidente Fernando Henrique
Cardoso assumiu o compromisso de aprovar com regime
de urgência o Projeto de Lei n º 2.057/91, que
regulamenta o Estatuto do índio, que se encontra
paralisado na Câmara dos Deputados desde 1994.
Nada
disso foi cumprido, Senhor Relator. É a palavra
sagrada da mulher indígena, como bem disse o
cacique tradicional Aniceto Xavante para 200
guerreiras em 1991, na Conferência Mulher, Meio
Ambiente e Direitos indígenas, organizado
pelo Grumin/Grupo Mulher –Educação Indígena,
preparatória par participarmos da Conferência
Mundial do Meio Ambiente em 1992, quando povos indígena
vinham sofrendo com os impactos ambientais.
Quais
as expressões de racismo que afetam diretamente aos
povos indígenas?
A
utilização e roubo dos conhecimentos tradicionais
indígenas pelo mundo científico, empresarial; pelo
grande e pequeno latifúndio, pelo capital nacional
e estrangeiro, pela mídia tem afetado diretamente a
sobrevivência indígena e é a pior forma de
racismo, porque em nome desses avanços político-econômicos,
tecnológicos e científicos, se mata, se estupra,
se vilipendia a dignidade humana indígena.
1-Nos
temas Educação, território e biodiversidade indígenas
o racismo está expresso das seguintes formas:
Apesar
do grande passo dado na Educação que hoje se
apresenta de forma diferenciada e atendendo
filosoficamente aos professores e alunos indígenas,
temos como contra-ponto todas as necessidades básicas
e materiais para implementar tal política.São
escassos os materiais bilíngües, rádios comunitárias,
tecnologias de informação e comunicação, cds,
livros, materiais escolares, salários dos
professores, etc. A demarcação das terras indígenas
não foi concluída, ou mesmo quando as terras estão
demarcadas o governo não adota medidas suficientes
para protegê-las e falta apoio para o
desenvolvimento sustentável dos povos indígenas.Ver
dados em anexo.
As
aldeias Guaranis do Morro dos Cavalos e Biguaçu em
Santa Catarina afirmam que podem perder sua cultura
por não ter disponibilizado tais veículos.A falta
de políticas de ação afirmativa para a Educação
diferenciada causará o enfraquecimento da
identidade cultural.
A
participação dos povos indígenas nas instâncias
que tratam dos seus direitos é bastante limitada.
Podemos constatar que a elaboração e execução
das políticas públicas acontecem sem a devida
participação dos povos indígenas. E quando há
discussões com os povos indígenas, as nossas
propostas não são devidamente apreciadas e
muito menos aplicadas. A reunião recente dos indígenas
com presidentes dos Distritos Sanitários, na qual não
compareceu o presidente da Funasa e nem o diretor
responsável pela pasta, foi um desastre. O diretor
substituto compareceu apenas na abertura da reunião,
e por isso os indígenas se retiraram do evento. (site
da Coiab).
A
falta de políticas consistentes por parte do
governo permite que grupos contrários aos direitos
indígenas atuem fortemente contra os direitos indígenas,
causando insegurança quanto aos direitos
territoriais. Exemplo, o Estatuto das Sociedades Indígenas
encontra-se paralisado no Congresso Nacional desde
1994.
Os
Guaranys estão perdendo suas terras pela falta de
demarcação e sentem-se excluídos, como no caso da
menor aldeia indígena chamada Jaraguá YTÚ, em
Jaraguá, Estado de S. Paulo que possui 1.7
alqueires de terra. Também a terra indígena Baú,
dos Kaiapós, no Pará, sofreu diminuição esse
ano, assim como no caso das terras dos Krahô-Kanela,
que possui terra tradicional, mas o Presidente da
Funai, não aprovou o relatório que justifica
tradicionalidade, causando uma grande injustiça a
esse povo.Dessa forma, sofrem os Caxixós e os
grupos do baixo-Amazonas, segundo a Anaí. Povos indígenas
e comunidades tradicionais têm sofrido diretamente
o impacto e racismo ambiental do desmatamento, das
mudanças climáticas, das queimadas, do aquecimento
global, da destruição da flora e fauna, da seca no
Pará. A fome ameaça cerca de oito mil índios que
moram em áreas de influência das calhas de rios
que estão secos no Amazonas. Em Manaus, a Funai
alertou recentemente, que os Sateré-Maué já
passam fome. Além deles, pelo menos mais seis
tribos estão ameaçadas. Os Mura, Mundurucus,
Parintintins, Porá, Apurinã e Tenharim também estão
afetados pela seca. No
nordeste indígena a seca causada pelo capitalismo
selvagem e pelo aluguel de florestas para terceiros
tem deixado povos à revelia. Povos indígenas
deveriam ter a “preferência” para
cuidar das florestas, já que são natos. Segundo o
site do Inbrapi, as comunidades indígenas do semi-árido
divulgaram recentemente um documento em que se
manifestam contra o projeto de integração do São
Francisco às bacias do Nordeste setentrional, também
conhecido como transposição do São Francisco.
Os índios manifestaram sua posição no documento
intitulado Carta Aberta dos Povos Indígenas
Ribeirinhos de Pernambuco, Sergipe, Alagoas e”
Bahia: “Queremos afirmar nosso repúdio ao Projeto
de Transposição do Rio São Francisco, pois a
nossa sobrevivência econômica e cultural depende
do rio. É deste que irrigamos a terra para plantar
e pescamos o peixe para comer. Nossos rituais
sagrados têm tudo a ver com o rio, nossas ciências
estão nas águas do Velho Chico", diz o
texto.O documento é assinado pelas lideranças dos
povos indígenas ribeirinhos, Tuxá de Rodelas, Tuxá
de Ibotirama, Tumbalalá, Kiriri de Muquém do São
Francisco, Pankararu, Xocó e Truká, e várias
lideranças dos povos indígenas de Pernambuco,
Bahia, Paraiba e Alagoas: Xukuru, Kambiwá,
Pankararu, Pankará, Pipipã, Kapinawá, Pataxó Hãhãhãi,
Potiguara e Geripankó.
O
Povo Potiguara, que ocupa tradicionalmente a terra
indígena Jacaré de São Domingos, localizada nos
municípios de Rio Tinto e Marcação, Paraíba, e
preocupado com a importância da garantia do
cumprimento dos direitos dos povos indígenas, pede
atenção para o julgamento do Mandado de Segurança
que solicita a anulação do Decreto do Presidente
da República, que, em 1993, homologou a demarcação
da terra indígena Jacaré de São Domingos.
Irregularidades
envolvendo o licenciamento da empresa Rodoanel
tem afetado Ternode Porã, Tekoa Krukutu e
Tekoa Piau, aldeia dos Guaranys o que tem
prejudicado sua sobrevivência.
A população
Guarani da região do Jaraguá sofre com a questão
da saúde, com a falta de terra, de espaço para
manter seu modo de vida. Com a construção do
Trecho Oeste e Sul do Rodoanel, que dista apenas 4
km, sofreram todo o impacto da implantação,
tendo as áreas próximas transformadas em
asfalto, o que gerou aumento do tráfego na
Rodovia dos Bandeirantes e na Anhanguera e
exterminando plantas e animais da região, sendo
que tal construção foi realizada sem um estudo
apropriado da área e da aldeia.
2-
Nos temas gênero e saúde indígena o racismo de
expressa das seguintes formas:
Mortalidade
materna e infantil, por desnutrição, fome e miséria
são assuntos que ainda rondam povos indígenas,
apesar da diminuição dos casos em Dourados, depois
que a mídia divulgou amplamente a morte de crianças.A
exemplo disso vemos ainda o caso de uma
criança de um ano e nove meses e dois bebês recém-nascidos
morreram neste mês de outubro/2005 na aldeia indígena
guarani Tekoa Pyau, no Jaraguá, na zona oeste da
cidade de São Paulo.Mães que entram em hospitais
para terem seus bebês e saem mortas, é um caso
muito grave em pleno século XXI.
Percebemos
o aumento de casos de câncer de colo de útero,
associado ao vírus HPV, por relações sexuais,
devido aos homens circularem nas cidades grandes e
pequenas, buscando sobrevivência. Mudanças de
costumes e comportamentos como parto tradicional,
por intervenção externa, através de órgãos públicos
de saúde (relato das mulheres Xinguanas).Grande
incidência de malária, tuberculose e DST/aids,
hepatites e rotavírus.Falta de medicamentos,
equipamentos, falta de saneamento básico.Inserção
de interesses políticos e ingerência política.
Povos indígenas reivindicam saúde diferenciada,
denunciam órgãos governamentais como a Funasa,
coniventes com políticos, apadrinhados,
despreparados para lidar com a questão, denunciam
os indígenas do Vale do Javari/Am.
3-
No tema sobre ocupação de empresas, implantação
de projetos alheios aos povos indígenas e invasão
de igrejas o racismo de expressa da seguinte forma:
Centenas
de empresas estão afetando a sobrevivência indígena,
como por exemplo, a Aracruz Celulose/ES, maior
produtora de celulose do mundo, denunciam os
Guaranys.Outra é a Veracel Celulose que desrespeita
os Pataxós da Bahia, mas eles resistem. Os projetos
econômicos
de
exportação como a fábrica de criação de camarão
em cativeiro; 2) projeto de turismo industrial
(implantação de uma cidade turística
internacional em terras indígenas, por um grupo de
empresários espanhóis, franceses e brasileiros);
3) projeto de irrigação dentro de terra indígena
(através do DNOCS), nas terras dos Tremembés.A
grande dificuldade desse povo e de mais outros 13
Povos no Ceará é a não regularização das terras
indígenas por parte da FUNAI, assim como centenas
de terras indígenas pelo país.No Ceará, já são
17 Povos e somente uma terra indígena está
regularizada, oficialmente. Já são cerca de
30.000 indígenas. Isto significa que poucos povos têm
direito ao programa de atenção à saúde indígena
e também um suporte organizado de apoio e defesa
dessas terras.Um dossiê já foi encaminhado à Brasília.
A questão da carcinicultura é muito forte. Os
empresários compram uma pequena terra e se
localizam aí, desmatam tudo que encontram,
manguezais, carnaubais, mangueirais. Utilizam
a força policial local, dividem as famílias,
cercam tudo que podem. O litoral do Ceará está
sendo destruído de forma muito violenta.
O
Ministério Público Federal tem promovido algumas ações
e até os juízes tem atendido com liminares
impedindo o funcionamento dos empreendimentos, mas
as decisões judiciais não são executadas.
Tem cercamento de olhos dágua, medição das terras
com auxilio de GPS, ameaças de morte e muita
perseguição às lideranças mais expressivas que
estão à frente da resistência.
Também existe um pequeno grupo Potiguara em
Fortaleza, imprensado na cidade grande. Não tem só
eles. São Potiguara de Paupina, na área
metropolitana de Fortaleza.
Recentemente aqui aconteceu uma "CPMI-Comissão
Parlamentar Mista de Inquérito" sobre a terra
no Ceará. Os indígenas estiveram presentes e foram
feitas essas e outras denúncias.O Ministério Público
Federal realizou em 08 de setembro uma audiência pública
em Fortaleza para tratar desse assunto da regularização
das terras indígenas no Ceará, denuncia
COPICE-Coordenação das Organizações dos
Povos Indígenas no Ceará, Fernando Marciano
Santos, Tremembé).
As
igrejas evangélicas dos Grupos Missões Novas
Tribos atuam na Amazônia e desconfiguram a cultura
e tradições indígenas, denunciam os indígenas da
Amazônia.
4-Racismo
e discriminação aos indígenas urbanos,
intelectuais e desaldeados são expressos da
seguinte forma:
O
preconceito étnico impôs também que indígenas são
os ”índios puros”. Isso nasceu de uma ideologia
antropológica e burguesa, inclusive institucional
e/ou acadêmica que ainda vê povos indígenas como
objetos de estudos e de teses para livros.Se o indígena
não estiver dentro desses padrões são observados
como oportunistas e não mais como vítimas da
sociedade racista. Assim também são considerados
os indígenas e seus familiares de segunda ou
terceira geração que adotam o êxodo de suas
terras indígenas para as cidades, fugindo das violências
colonizadoras e néocolonizadoras. Instituições
como algumas igrejas, universidades e organizações
ainda dividem a opinião pública indígena sobre
seus próprios parentes que um dia, ou no passado
tiveram que deixar suas aldeias em busca de sobrevivência
e incitam colocar em dúvida a identidade indígena
desses imigrantes.Segundo o IBGE (Instituto
Brasileiro Histórico e Geográfico), há 700 mil
indígenas no Brasil, entre adiados e desaldeados e
segundo o Cimi
(Conselho Indígena Missionário), mais da
metade vivem nas cidades.
A
Ação Cultural Indígena Pankararu denuncia a
favelização dos índios urbanos e as péssimas
condições de moradia, saúde e educação.Na
Grande Rio (RJ), as etnias Fulni-ô, Potiguara,
Pankararu, Guarani, Pataxó, Terena, Kaingang,
Xavante e Pankararé, em Vitória da Conquista
(Bahia) os Fulni-ô, em Mogi Mirim (região de
Campinas) e Rio Preto os Pankararu e Tapeba estão
vivendo situação de precariedade.Segundo Opção
Brasil, hoje existem 14 etnias morando no ABC, 9 em
Guarulhos e 32 etnias morando na grande SP. Pelo
IBGE no abc existem 3700 indígenas e na grande SP
seriam 35mil.Nas grandes cidades da Amazônia,
Nordeste, Centro-Oeste e Sul também se encontra um
número altíssimo de etnias indígenas vivendo
situação de precariedade, excluídos, por ser um
povo pobre e racialmente discriminado por seu
biotipo.Finalmente, Brasil!
BRASIL
(Texto do livro METADE CARA, METADE MÁSCARA
de Eliane Potiguara)
Que
faço com a minha cara de índia?
E
meus cabelos
E minhas rugas
E minha história
E meus segredos?
Que
faço com a minha cara de índia?
E
meus espíritos
E minha força
E meu Tupã
E meus círculos?
Que
faço com a minha cara de índia?
E
meu Toré
E meu sagrado
E meus "cabôcos"
E minha Terra
Que
faço com a minha cara de índia?
E
meu sangue
E minha consciência
E minha luta
E nossos filhos?
Brasil,
o que faço com a minha cara de índia?
Não
sou violência
Ou estupro
Eu sou história
Eu sou cunhã
Barriga brasileira
Ventre sagrado
Povo brasileiro
Ventre que gerou
O povo brasileiro
Hoje está só...
A barriga da mãe fecunda
E os cânticos que outrora cantava
Hoje são gritos de guerra
Contra o massacre imundo
Eliane
Potiguara
Em
anexo: Declaração
do Comitê Indígena Brasileiro contra o legado
continuado de Discriminação e Racismo contra os
povos indígenas do Brasil: DECLARAÇÃO DE
DURBAN/2002/ÁFRICA DO SUL. Também em anexo,
Diretrizes dos Povos Indígenas, Quilombolas e
Comunidades tradicionais para a proteção dos
Conhecimentos Tradicionais/Inbrapi
(*)
Eliane Potiguara é remanescente Potyguara, nasceu
num gueto indígena no Rio de Janeiro. Tem 55 anos,
é escritora e professora. Foi indicada no Projeto
Mil Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz. Coordena o
Grumin/Rede de Comunicação Indígena e criou a
primeira organização de mulheres indígenas do país,
o Grumin/Grupo Mulher-Educação Indígena, em 1989.
É Diretora do Inbrapi (Instituto Indígena
Brasileiro para a Propriedade Intelectual) e
Conselheira e uma das fundadoras do Comitê
Intertribal. É autora do livro Metade
cara, metade máscara, S.Paulo, Editora
Global, Série Visões Indígenas, 2004.A série é
coordenada por Daniel Munduruku, escritor indígena.
Contato:
elianepotiguara@terra.com.br
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