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A
inclusão dos povos indígenas na sociedade de informação
Eliane
Potiguara (elianepotiguara@terra.com.br)
Grumin/Rede de Comunicação Indígena
Tema
exposto ao Congresso Nacional
Comissão de Educação, Cultura e Desportos
Audiência pública - 25 de setembro de 2003
Agradecendo
ao Criador, a Mãe Terra e aos nossos ancestrais,
comungo com os ilustres parlamentares presentes e
entidades a minha gratidão ao Connami (Conselho
Nacional de Mulheres Indígenas) que me indicou para
explanar nessa audiência pública, na Comissão
presidida pelo ilustríssimo Deputado Gastão Vieira e
coordenado pelo Deputado Carlos Abicalil, sensíveis às
nossas causas.
Povos
indígenas sempre estiveram à margem dos padrões
culturais brasileiros, pela intolerância e discriminação
social e racial da cultura dominante que obviamente
estabelece as regras da informação e comunicação.
Num
passado próximo, quando Povos Indígenas do Pará se
levantaram contra a hidrelétrica de Kararaô ou quando
no presente, líderes promovem, mesmo de forma precária,
informações em rádios, vídeos, TVs Comunitárias,
contrapondo às aldeias globais ou ainda quando criam
cartilhas de alfabetização na língua materna, ou
quando criam sites para promover a cura de doenças ou
comerciar a venda do Guaraná, por exemplo, o fazem numa
tentativa de sair da invisibilidade cultural,
objetivando a tonificação daquele povo ou cultura, e
no objetivo de expressar-se, seja na luta pelos direitos
humanos ou trazer à luz do conhecimento oficial, científico,
acadêmico e religioso a sua contribuição na história,
enfim o seu conhecimento tradicional, na realidade sua
propriedade intelectual. Isso precisa ser respeitado e
ampliado!
Quando
as parteiras indígenas bloqueiam os programas de
esterilização de mulheres, quando os pajés e
curandeiros se reúnem nas montanhas, ou quando líderes
interceptam estradas na defesa de suas terras, o fazem
para defenderem suas tradições e meio-ambiente
respectivamente. Isso é voz!...
Quando
indígenas criam grupos de dança, grupo de teatro,
coral infantil, promovem imprensa escrita na Internet,
promovem a literatura indígena, o fazem no objetivo
pleno de difundir informações e comunicações que não
conseguem, devido à desvalorização dessa cultura
milenar, que por questões históricas, éticas, precisa
finalmente ser reconhecida e respeitada na prática e
porque não também, ser atendida por uma política
compensatória, através de ações afirmativas,
implantadas nas políticas públicas.
Todas
essas variantes fazem parte da cultura indígena e estão
interligadas numa única cosmologia: o território
ancestral, o espaço ético, mítico, místico, mágico
e sagrado da ancestralidade fortalecidos pelos anciãos
e anciãs e perpetuados pelos jovens, através da educação
informal e natural, reforçados pela educação formal,
daí a importância também da criação de uma
Universidade Indígena, para atender a uma educação
diferenciada. Essa visão indígena é uma grande
contribuição de vida para a sociedade brasileira que
precisa ser estimulada para um respeito à diversidade
cultural, onde a cultura indígena seja também um
expoente.
A
sociedade de informação e comunicação é um segmento
altamente importante para a difusão da cultura indígena..
No entanto, sabemos que as tecnologias avançadas não
fazem parte da tradicionalidade indígena.
Mas,
vejamos esse exemplo: A International Indian Treaty
Council, Conselho Internacional de Tratados Indígenas,
há mais de 20 anos atrás foi uma das primeiras
organizações indígenas dos Estados Unidos a conseguir
abrir um espaço político na Comissão de Direitos
Humanos das Nações Unidas, que lutou para constituir a
Declaração Universal dos Direitos Indígenas,
culminando num Fórun Permanente dentro da Onu. Atrás
dela vieram centenas de organizações indígenas,
inclusive brasileiras. O Conselho de Tratados foi uma
das primeiras a usar o mecanismo da Internet para fazer
valer seus direitos. As publicações, as danças, as
manifestações foram outras formas de difusão de
informação na sociedade de informação que vem
garantindo o estabelecimento dos Tratados com o governo.
The First Nations, as Primeiras Nações do Canadá
mudaram a Constituinte, obtendo apoio da sociedade,
através da difusão de sua cultura na mídia. Um grande
projeto referente a pesca foi apoiado pelo governo
Canadense depois dessa parceria povos indígenas e
sociedade de informação. Os Kunas do Panamá, através
da expressão cultural divulgada na sociedade de informação,
hoje possui suas comarcas definidas e sua arte
literalmente nas ruas.
Como
vemos o respeito nasce quando a compreensão floresce. O
lindíssimo artesanato em tecido, mesclado de infinitas
cores denominado "Mola", é uma marca
nacional, é um design que imediatamente é identificado
e respeitado pela sociedade e pelo mundo como uma arte
indígena e por isso valorizada.
Assim
devem ter esse tratamento às nossas ervas medicinais,
nossa cerâmica marajoara de origem indígena, nossos
alimentos tradicionais, nosso guaraná, cupuaçu, nossos
lugares sagrados, nossas terras, nossos cemitérios,
nossas cantigas, histórias e lendas, nossas orações,
nossos cânticos sagrados, nossa caça , nossa pesca,
nossa educação, saúde e agricultura. Enfim , uma
infinidade de elementos, podem ser difundidos na
sociedade de informação, fortalecidos pelas Redes de
Comunicação Indígena, pelas rádios comunitárias,
pela internet através dos sites, pelos canais de
televisão, e mesmo pelas Conferências ou seminários
indígenas, olho a olho ou virtuais, mas não mais precários
como vimos fazendo, mas de uma forma tecnológica, científica,
educativa e sistemática, apoiada pelo GOVERNO.
É
um desafio para povos indígenas brasileiros a sua inserção
na sociedade de informação, devido a fragilidade sobre
os seus direitos intelectuais, a sua propriedade
intelectual? Sim! Mas é um desafio que deve ser
ultrapassado através da conscientização, da capacitação,
da formação técnica, da criação de bancos de dados
indígenas para garantir todo acervo histórico,
garantindo suas patentes. A cultura tradicional sofre
evoluções com o modernismo e tecnologias. Essas
tecnologias devem ser usadas como ferramentas para a
defesa dos direitos indígenas. Desenvolvimento para
povos indígenas deve ser um processo que coaduna
cultura tradicional e novas tecnologias e novas esperanças
e isso os Kuna do Panamá o fazem com a maior categoria:
unir a tradição indígena aos novos conceitos de
tecnologia e sua sociedade de informação, sem perder
sua cosmovisão. Por isso, eles são os precursores da
imprensa e literatura indígenas, assim como alguns
povos indígenas do México também o são. Povos indígenas
devem se espelhar neste modelos de desafio.
A
Comissão de Educação , Cultura e Desportos pode dar
um grande passo político e histórico, reconhecendo,
apoiando e investindo na inserção dos povos indígenas
na sociedade de informação e comunicação através de
Programas criados e geridos pelos próprios povos indígenas.
As
veias abertas que jorram o sangue de nossos ancestrais
sacrificados, as barrigas das mães fecundas,
entristecidas pela opressão, os cânticos mais
transcendentais apagados pela imposição cultural,
todos esses segmentos mágicos, mas reais, serão
substituídos por crianças, jovens, organizações
capacitados para o futuro, a partir de sua inclusão na
sociedade de informação e comunicação, ERRADICANDO
paulatinamente os contrastes da sociedade e ERRADICANDO
a discriminação social e racial aos povos indígenas.
Muito Obrigada.
V
CONFERÊNCIA INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO, de 8 a 11 de
outubro de 2002.
Universidade
Federal de Florianópolis/ BRASIL
Apresentação:
Eliane Potiguara
“RECONSTRUINDO
GÊNERO NA QUESTÃO INDÍGENA”
Nos
primórdios da civilização, quando o homem ainda era
macaco, quando a coleta ainda era a sua primeira forma
de sobrevivência, como a coleta das frutas, dos
peixes etc... a competição existia como um ato
inerente pela sobrevivência. A competição, na
realidade é nada mais que a exploração do
homem pelo homem, isto é, quem tem mais bens, mais
poder, mais informação, tem poder sobre o outro. Na
transição do macaco para o homem, a inteligência e
o trabalho foram crescentes e sendo assim, foi
notável as relações entre os mesmos originando a
predominância do escravagismo e da propriedade
privada. Nos dias de hoje, essa inteligência está
cada vez mais aprimorada.Tanto lá no passado como
aqui, percebe-se a relação de poder, a
relação capitalista, no seu sentido mais primitivo.
Isso é cultura arraigada. Refletindo em termos
sócio-políticos, a cultura do dominador é a
exploração, a destruição do "chamado ser
inferior"; e a cultura do explorado é a
submissão, o oprimido, até que se mude essa
relação.
Em
termos individuais, referindo-se à mente
humana, o inconsciente coletivo manifesta-se também
numa relação de poder, isto é, num único ser
humano existem várias personalidades ou identidades
construtivas e destrutivas ao mesmo tempo. O ser
humano luta consigo mesmo, porque culturalmente desde
os primórdios da civilização a dualidade, a
competição existem como fruto de uma necessidade de
sobrevivência e isso é uma herança histórica até
hoje e conseqüentemente política.
Espontaneamente,
a força destrutiva quer predominar, é a que quer
deter o poder sozinho contra tudo e contra todos e
até contra a natureza. E a força construtiva
da mente humana é a que quer libertar-se,
desenvolver-se, mas vive o condicionamento da prisão,
da opressão, do egoísmo. É a destruição contra o
desenvolvimento humano. É a guerra contra a
paz. É O PREDADOR NATURAL lutando contra a harmonia.
É o positivo contra o negativo. É O chamado
SUPERIOR CONTRA O chamado INFERIOR.Tudo isso dá uma
imensa conotação de sofrimento humano, daí as
dúvidas que existem dentro de nós, e que às vezes,
não sabemos o que queremos, sentimos as
inseguranças, percebemos as múltiplas vontades
e personalidades.Somos o predador e o oprimido ao
mesmo tempo, daí o conflito que existe dentro de
todos os seres humanos. Assim também o é nas
relações sociais e conseqüentemente entre os homens
e as mulheres.
Neste
último ano, fazendo um estudo sobre a filosofia de
Clarissa Pinkola Estés em seu livro “Mulheres que
correm com os lobos” encontrei parte das respostas
que estava fazendo há muitos anos em minha vida, como
uma pessoa de origem indígena, mulher, de família
extremamente pobre e imigrante dos territórios
indígenas por ação violenta da neocolonização
algodoeira nordestina, vitimada pelo racismo ambiental
e o racismo às próprias mulheres que serviam de
objeto sexual para os colonos. E num momento de maior
êxtase de minha vida e inspirada nessa
pensadora feminina, a escritora Clarissa de múltiplas
identidades e cidadanias, inclusive a indígena,
escrevi o texto abaixo:
PELE
DE FOCA
“A
luz se abriu e a minha pele de foca voltou a se
umedecer.
Minha pele estava seca pelas vicissitudes da
vida. Eu mergulhei nas profundezas dos
mares e reencontrei com minha avó-foca, com
minhas sagradas ancestrais e os velhos guerreiros que
também não se envergonhavam por suas lágrimas.
Elas_ sabiamente_ me contestaram e me mostraram
que eu, inconsciente e pacificamente, aceitava os
padrões éticos impostos pela intolerância da
sociedade , e voltei com minha alma fortalecida,
voltei com meus
sonhos definidos, voltei com minha intuição
extremamente clara, precisa,
determinada. Minhas costelas não estão mais
descarnadas, a carne voltou a
crescer depois que os homens derramaram suas
lágrimas pelas mulheres do mundo e eu não sou mais
uma mulher esqueleto, jogada ao fundo do mar, como se
fôra um sapato velho, pela cultura impostora.Sou uma
mulher de fibra, porque eu me
reconstruí por mim mesma, depois de dançar
desvairadamente na vida com meu iludido
sapatinho vermelho colonial.Quase perdi os meus
pés, as ervas daninhas enrolaram neles pra que nunca
mais caminhasse pelas estradas do saber, da
consciência e do mais alto grau da espiritualidade
indígena, mas pude dominá-los e arrancar
esses malditos sapatinhos vermelhos das
chamadas “MULHERES E MÃES
BOAS-DEMAIS"!!!!!! que
por serem assim, vivem sufocadas pelo peso da
história e da opressão e quando vislumbram uma
“semiliberdade", uma ilusão,
a pseudoliberdade, se perdem
nos terríveis sapatinhos vermelhos da cultura
falsamente iluminada, que escamoteia o poder, o
preconceito, o racismo. Meu ego , não pode ser mais
forte que minha alma.Minha alma é ancestral, meu ego
não pode dominar minha verdadeira história. Faço
agora um acordo entre meu ego e minha alma. Minha alma
é primeira , é forte
é intuitiva;ela é ética, pra não dizer pura,
minha alma é terna, eterna
amante, indígena. Mas meu ego, condicionado pela
cultura dominante, me leva para a escuridão terrena,
celestial, marítima,onírica e filosófica.
Conduz minha auto-estima para os porões. Não
mulheres do mundo! Não aceitemos mais. Não, não,
não, não, não! Meu ego não pode ser mais forte
que minha alma, meu ânima, minha essência de
mulher selvagem, indígena, essencial à preservação
digna do planeta e dos seres humanos. Basta de
violência. Nós somos lobas. Somos músicas que ecoam
no etéreo.
Nós somos focas. Nós somos Humanidade e
sabemos o que é digno pra nós. Nossa pele de foca
brilha de novo.Ouçamos definitivamente nossas velhas
e velhos”.
A
partir desse texto “Pele de Foca” chamo a
atenção de todas as mulheres e homens. E como esse
antagonismo ego e alma foi minimizado entre povos
indígenas através de sua cosmovisão? Quando
nos apercebemos da luta que existe entre o ego e a
alma, é que devemos lucidamente fazer uma viagem ao
inconsciente coletivo em busca das nossas raízes
étnicas, raciais, espirituais para fortalecer o eu
interior. As histórias de nossas e nossos ancestrais
são referenciais riquíssimos para esse
fortalecimento interno.
A
mulher que ouve a sua intuição, que percebe os seu
sonhos, que ouve a voz interior das velhas e das
mulheres guerreiras de sua ancestralidade e que possui
o olhar suspeito dos desconfiados, essa sim, é uma
ameaça ao predador natural da história e da cultura.
Por isso o predador tem medo dela quando ela
percebe a violência de seu algoz.
Para
dominar esse predador que está dentro dela, e fora
dela na sua cultura, ela precisa tomar posse de seu
instinto selvagem, de seus poderes intuitivos,
de seu ser resistente, ser guerreira, ser
questionadora, ter insight, ter tenacidade e
personalidade no amor que procura, ter percepção
aguçada, ter audição apurada, ouvir os cantos dos
mortos, ter sensibilidade, ter alcance de visão,
cuidar de seu fogo criativo, ter espiritualidade,
mesmo que para tudo isso ela sofra, ela sangre,
ela trema, ela se rasgue e grite ou que vá ao fundo
do poço do sofrimento humano para renascer mais bela
!!!!! É UMA LUTA DELA CONTRA ELA MESMA. O predador
natural da história faz com que ela se sinta
ESGOTADA, mas mesmo assim ela vence, se quiser vencer.
Ela renascida fará renascer também seus
descendentes, inclusive os masculinos.
Essa
filosofia de vida nada mais é que uma
estratégia natural da cultura indígena. O povo
indígena sobrevive há séculos de opressão porque
tem como MAIOR REFERENCIAL a tocha da
ancestralidade, do perceber intuitivo, da leitura e da
percepção dos sonhos, do exercício da dança como
expressão máxima da espiritualidade e da
valorização da cultura, das tradições, da
cosmovisão personificadas na figura dos velhos e das
velhas. Sua percepção é aguçada como a de uma
águia ou de um condor, sua percepção de
visão é como o olhar de uma sábia coruja, sua
audição é tão nobre, mágica e perspicaz como a
surdez de uma cobra. E assim por diante.
Quando
se comunga com as águias, no caso dos indígenas
Norte-Americanos ou com o condor na América do
Sul, se comunga com a força interior dessas
aves que trazem no olhar o fogo da quintaessência,
trazem no olhar a força da alma. Seus olhos
traduzem-se nas janelas da intuição. Os xamãs, os
pajés, os líderes espirituais masculinos e femininos
aperceberam-se dessa energia vital e comungam com essa
energia em suas vidas, repassando essa força
para seu povo. Por isso o povo indígena guarda uma
cosmovisão refletida em seus mistérios, histórias
que demonstram a ética, a cultura da paz, o
conservador nato da ecologia da natureza e da
vida, o amor profundo e o respeito às crianças e às
mulheres. Lendo então, a escritora Clarissa, percebi
que ela enfocou aspectos da tradição indígena no
papel do fortalecimento das mulheres do mundo.
Povos
indígenas exerceram relações de gênero no passado
de forma justa, quando as mulheres guarani, por
exemplo eram ouvidas nas Assembléias indígenas. Há
mais de 20 anos eu tenho dito em todas as
assembléias, Conferências por onde passo, que as
mulheres indígenas tinham o seu papel político
extremamente determinado e forte. A palavra final,
numa Assembléia Indígena no século XVII era a
da mulher. Os homens desesperados pelo processo de
colonização e racismo, ao verem suas mulheres
estupradas pelo europeu, decidiam o suicídio coletivo
com a palavra final da mulher. Os povos que
permaneceram vivos, introduziam-se pelas matas e
temerosos, colocavam as mulheres, crianças e velhos
na “retaguarda cultural”. Foram séculos e, até
hoje esse temor indígena sobrevive no universo
masculino, pois o neocolonialismo existiu assim como
existe a nova ordem mundial e a globalização.
De uma certa forma o homem, obrigatoriamente, assumiu
um papel machista para a defesa de sua família. No
contato com o colonizador, adquiriu os vícios
estrangeiros. Hoje os povos indígenas trazem marcas
dessa colonização e da neocolonização também
imposta, por isso , precisamos reconstruir gênero
entre povos indígenas.
Voltando
a questão da essência, por que povos indígenas
emergentes, ressurgidos, descendentes ou quilombolas
reacendem sua identidade étnica após diversos
massacres culturais, religiosos ou políticos? Porque
seu inconsciente coletivo, isto é, SUA ALMA, SUA
ESSÊNCIA, grita mais forte que seu ego. Sua alma é
atrelada aos ancestrais, à sua história pseudo-
esquecida. Essa história é como uma mina em terreno
proibido. A qualquer hora, um movimento mínimo, mina
como um fio d’água e explode como um oceano. Não
dá para calar, por isso a tradição do povo
guerreiro.
É o
que está acontecendo ultimamente em muitas áreas
brasileiras, onde povos dessa natureza pipocam
translucidamente, como é o caso dos Pitiguary, no
Ceará, ressurgido na década passada e o caso
mais recente dos Catókinn no interir de Alagoas ou
com índios-descendentes em casos individuais. Tem
sido um desafio para esses povos e para o
movimento esse “reconhecimento” como
indígena, dada a intolerância de uma antropologia
institucional, oficial que ainda não assimilou a
dinâmica do combate à discriminação racial, a
xenofobia e todas as formas correlatas de
intolerância tão bem discutida na última
Conferência das Nações Unidas, na África do Sul,
no ano de 2001, onde a participação brasileira foi
muito marcante em número e posição.
Povos
indígenas, povos ressurgidos, emergentes,
índio-descendentes, índios desaldeados,
“deplazados” e imigrantes não podem ficar à
mercê de análises antropológicas burguesas,
insensíveis e intolerantes de governos racistas e
autoritários!!!!As almas dessas pessoas devem ser
respeitadas porque têm história de seus
antepassados. Tem a história das mulheres
decididas.
Temos
discutido muito também a questão da imigração
indígena, motivada por violação aos direitos
humanos dos povos indígenas e os efeitos
aterrorizantes a esses povos, às pessoas
individualmente falando, às mulheres e às crianças
que são as mais afetadas. As histórias dessas
mulheres indígenas empurradas para o lixo da
sociedade nas grandes cidades como Manaus, Belém,
Fortaleza, Boa-vista, Recife e demais cidades não
podem ficar invisíveis como ainda estão.
A
formação de gênero entre povos indígenas deve ser
uma estratégia para promover a justiça de gênero
dentro das organizações indígenas para a defesa das
mulheres aldeadas e as que vivem na periferia, em
casas de palafitas na Amazônia ou as que vivem nas
favelas nas grandes cidades, servindo de mão-de-obra
quase escrava na sociedade discriminatória .
Finalizando,
reafirmo que 300 milhões de povos indígenas no
mundo inteiro estão em estado de alerta na defesa de
sua identidade, participando de fóruns nacionais ,
internacionais, participando do Forun Permanente para
Povos Indígenas uma vitória nossa no Grupo de
Trabalho sobre Povos Indígenas que trabalhou 20 anos
para a constituição da Declaração Universal dos
Direitos Indígenas.
Defendendo
a identidade, defendendo as raízes culturais, as
etnias, as raças, o gênero, o ser humano terá uma
melhor qualidade de vida e sua passagem pelo planeta
terra terá realmente uma razão de ser.
É
com a mulher que o homem aprende. É com a mãe terra,
é com o ventre vulcânico revolucionário, guerreiro,
combativo que trará a transformação do ser humano
contra a exploração do homem pelo homem e por
conseguinte a transformação dos sistemas políticos,
sociais e econômicos. Assim, homens e mulheres,
democraticamente, poderão estar no topo do mundo e as
relações de gênero no planeta terra serão mais
socializadas e sem temores e o amor será mais puro,
natural, respeitoso, amigável, construtivo, definido.
Nunca, em tempo algum desde a criação do mundo, com
o estabelecimento do primeiro ser pensante que evoluiu
do macaco para o homem, as relações de
gênero, de raça, classe, castas, as relações
sócio-político-econômicas foram democráticas
porque o inimigo interno do inconsciente humano( A
FORÇA NEGATIVA CONTRA A NATUREZA) sempre venceu na
batalha do superior contra o inferior. A revolução
começa dentro de casa. Mulheres indígenas criem suas
organizações sob seus tetos sagrados e deixem os
homens de suas famílias aprenderem com as guerreiras
que vivem em nós.
COMEMORAÇÃO
DO DIA INTERNACIONAL PELA ELIMINAÇÃO DA
DISCRIMINAÇÃO RACIAL
Abertura
oficial da COMISSÃO DE COMBATE ÁS DISCRIMINAÇÕES E
PRECONCEITOS DE RAÇA, COR., ETNIA, RELIGIÃO E
PROCEDÊNCIA NACIONAL
ASSEMBLÉIA
LEGISLATIVA DO RIO
DE JANEIRO
DEPUTADA
JUREMA BATISTA/Partido dos Trabalhadores
Rio
de Janeiro, 31/03/2003
Discurso
de ELIANE POTIGUARA
PRECONCEITO
DE RAÇA
Raça,
segundo o etnólogo Francisco Fernandes significa
linhagem, estirpe, geração, conjunto de ascendentes e
descendentes originários de um mesmo povo ou de uma
mesma família. No sentido figurado significa classe ou
grupo de pessoas que tem a mesma profissão ou as mesmas
tendências. Raça significa também casta, espécie e
laia. Pode significar ainda raça humana, humanidade,
além de enfatizar adjetivos como boa raça,
referindo-se a um cavalo de raça, por exemplo.
Segundo
Aurélio Buarque de Holanda, resumidamente, raça é um
conjunto de indivíduos
cujos caracteres somáticos são semelhantes e
se transmitem por hereditariedade.
E
o que vem a ser racismo? Segundo o mesmo Aurélio é a
DOUTRINA que sustenta a superioridade de certas raças.
Analisem a palavra DOUTRINA.
Qual
o impacto do racismo aos povos indígenas e
à população negra?
As
discussões sobre Ações Afirmativas, popularmente
chamadas de cotas políticas, quando direcionadas para
mulheres, por exemplo, tem sido mais compreensível e
aceitável para a opinião pública.
Mas
quando envolve essa palavra condenada, essa palavra
mágica, essa palavra dúbia que toda a sociedade
brasileira preferiria que ela não existisse no
dicionário, porque ela faz parte de nossa educação,
de nossa cultura, então parece que a cegueira mental
aumenta o seu teor. A palavra raça está
comprometidamente envolvida
com a palavra PODER.
A
“suposta universalidade humana branca e ocidental”
convencionou a sua superioridade e poder através das
armas e canhões; da cruz e da espada; e do monopólio
da informação e aparatos bélicos de última geração
contra diferentes raças, diferentes povos, castas,
etnias, povos indígenas no oriente e no Ocidente....
Sofrer discriminação e racismo significa sofrer
humilhações cotidianas que geram tensão, ansiedade,
alcoolismo, distúrbios mentais, medos, dúvidas e uma
auto-estima infinitamente baixa. O tráfico negreiro
trouxe para a América cerca de 11.5 milhões de
africanos, a maioria para o Brasil, apenas por esse
motivo “extremamente simples chamado desenvolvimento
da Europa e da América”, mas desenvolvimento para
quem já era rico e branco !!!!! Um desenvolvimento
bastante tendencioso!!! Com relação aos povos
indígenas de 1500 a 1630 dois milhões de índios
guaranis das bacias dos Rios Paraná, Paraguai
e Uruguai foram
mortos ou escravizados.
Como
vemos, raça é uma questão que envolve POLÍTICA,
PODER, CENTRALIZAÇÃO, VIOLAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS
E NENHUMA SITUAÇÃO DIPLOMÁTICA.
A
propaganda e a mídia são mecanismos extremamente
importantes para conscientização
da população brasileira. O que acontece? Nós, dos
movimentos sociais, cometemos muitas vezes o erro de
colocar a carroça antes dos bois. Por outro lado,
estamos esmagados pelas Campanhas que surgem do nada ou
do tudo e temos que acompanhá-las e se não
acompanhamos perdemos o bonde da história. É como a
moda. Refiro-me a temas da maior importância para nós,
povos oprimidos. Eu me lembro perfeitamente há anos
atrás, que para receber financiamento de instituições
internacionais e posso dar como exemplo
à “Campanha dos 500 anos de colonização
européia” na América Latina, em 1992, devíamos
incluir esse tema nos projetos. Outro exemplo era a
questão de gênero. As bases indígenas não sabiam
nada sobre
isso, e nem sabíamos se isso existia mesmo entre nós.
Mais uma vez, as Instituições, os instrumentos
internacionais exigiam
das Ongs brasileiras que se incluíssem a questão de
gênero, depois paulatinamente, foi a questão de
raça/etnia e assim sucessivamente.
As Nações Unidas definiam temas, como
Meio-ambiente, por exemplo, como aborto, como
discriminação racial, racismo, xenofobia etc... E nós
da cúpula dos movimentos sociais e políticos
impregnávamos nossas bandeiras com esses
marktings políticos, porque acreditávamos e
ainda acreditamos altamente legítimos, porque sofremos
diariamente a exclusão social. Teoricamente todas essas
ações são extremamente
válidas. Mas nossas bases
reivindicam ações mais imediatas como a
demarcação das terras indígenas, por exemplo. As
revoluções na Guiné Bissau, em Moçambique, na
Argélia, na África enfim, assim como no Brasil, na
Europa surgiram de um movimento político de elite,
assim como os temas propostos pela Onu, pelas
Instituições financiadoras e Ongs.
No
entanto, a massa, a opinião pública, apesar de
receptora da má qualidade de vida, de testemunha das
arbitrariedades políticas e sociais, de vítima da
violência urbana, rural como
os despossuídos, os descamisados, os sem-terra,
os sem-teto, os povos indígenas, a população
racificada brasileira, os deficientes físicos, os
homossexuais, as mulheres, os trabalhadores rurais,
todos esses segmentos
estavam como estão alguns ainda, anestesiados,
sem opinião própria por medo, desconhecimento, por
baixa auto-estima, por vergonha, por intimidação, por
medo de perder o que conseguiram, como empregos, status
quo, etc... ou uma razão muito forte_ encantados_ como
um encantamento do tipo “democracia racial”. Urge
que estudemos outros tipos de “encantamentos” para
que possamos, numa política de educação de massa,
DESMISTIFICAR E DESMITIFICAR esses aspectos subliminares
em nossas mentes, porque afinal o racismo está dentro
de nós, o inimigo interno é muito forte em nossos
cérebros e o perpetuamos diariamente em nossas ações.
É como a mulher perpetuar o machismo
em sua casa, obrigando a menina a cuidar dos
afazeres domésticos
enquanto o
menino joga
bola e brinca nas ruas, ganhando conhecimentos. Isso
acontece cotidianamente no seio da população
brasileira, por mais modernos que já estejam as mães e
pais.
Por
outro lado o golpe militar, a abertura política, as
diretas já, o impeachement
de Collor de Melo, a votação de FH para
presidente e a vitória de Lula ainda não foram
suficientes para despojar o ranço de preconceitos
impregnados no povo e tão pouco suficiente para
organizar a massa num grande movimento político. A
desarticulação política ainda existe motivada pelos
altos e baixos momentos históricos, apesar de
algumas vitórias.
Voltando
ao tema das grandes Campanhas.... como num passe de
mágica, a máquina que rege a luta pelos direitos
humanos, quer de uma hora para outra, um nível de
compreensão perfeito e apurado sobre questões ainda
invisíveis, indefiníveis que permanecem reforçadas
pela colonização do passado e pelo imperialismo de
hoje, refletidas no consumismo, no falso poder, no
estereótipo neocolonialista imposto e nas
desmotivações políticas e históricas.
É
o que vem acontecendo com a discussão sobre as chamadas
Ações Afirmativas, referindo-me especificamente a
cotas para estudantes negros e indígenas, que muita
gente ainda não conseguiu compreender. Nós, do
movimento social, fazemos uma leitura compreensível,
rápida, eloqüente porque estamos dentro dos movimentos
sociais, em luta e prontidão contra a violação aos
direitos humanos. Mas a opinião pública, a massa é
lenta ainda porque sofre grandes campanhas subliminares
do passado, como por exemplo e repetindo, o mito da
democracia racial, a projeção de estereótipos
ocidentais. E se
cria então chavões como “No Brasil não há
racismo”. E agora os/as negro/as pobres estão sendo
taxados de racistas, após várias entrevistas na
mídia. De vítimas passam a oportunistas. Mas isso se
dá, também, porque começam a incomodar, pois quando o
oprimido está invisível em seu status quo, em seu
habitat natural e paupérrimo, ali permanecerá
invizibilizado. Essa situação é cômoda para quem
discrimina. Mas quando ele busca um espaço mais digno,
como a Universidade por exemplo, ele já passa a ser
inconveniente. Muitos estudiosos não vêem com bons
olhos os intelectuais indígenas. Já os consideram
aculturados, alvos de críticas, sujeitos à
manipulação e alvos de intrigas para diluí-los entre
as lideranças
comunitárias. É
o que eu ouço diariamente e a confusão está
instalada. Isso tudo é intolerância.
Mas
porque será que nós do movimento social
colocamos a carroça antes dos bois???? Porque se
criam Campanhas e
depois não se cumprem ? Porque não há recursos
financeiros, recursos humanos e acaba tudo no papel.
Não há continuidade. Geralmente essas grandes
Campanhas atingem somente à minoria da população. Por
isso as críticas. Muito marketing para pouco resultado
concreto. Então o povo desacredita, se desestimula e
políticos perdem a moral e o desenvolvimento real do
povo não avança.
Nós,
dos movimentos sociais, mesmo assim estamos fazendo o
correto. Nossa postura é nos colocar no lugar ético,
moral e político dos afrodescendentes, indígenas,
testemunhos daqueles que sofreram a dor da lesa
humanidade.
A
escravidão e o tráfico de escravos foram
os tema mais polêmicos em Durban. O conceito de
Ações Afirmativas vem desde a década de 60 e foi
amadurecido em outras Conferências como a
IV Conferência Mundial sobre a Mulher, em 1995 e a
Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação,
Xenofobia e Intolerância Correlata em 2001 e está
presente na Convenção Internacional pela Eliminação
da Discriminação Racial.
As
Ações Afirmativas são políticas públicas
compensatórias e temporais para promover igualdade dos
grupos vulneráveis. Num futuro não serão mais preciso
essas ações, pois atingiremos à democracia racial
verdadeiramente real. Elas existem para combater
desigualdades sociais e podem se ampliar para vários
setores como: saúde, educação, habitação,
eletricidade, água potável, meio-ambiente, igualdade e
oportunidade de emprego, além de
atingir aos serviços judiciários, executivos,
reformas eleitorais, reforma agrária. Para isso é
imprescindível um organismo de peso para implementar
essa política e que tenha orçamento próprio,
autonomia, recursos humanos altamente capacitados,
campanhas de massa
na mídia de conscientização do povo, para que
não caia no descrédito e na crítica infundada e
irresponsável, que prejudicam e distorcem os reais
objetivos da luta contra desigualdade social e racial.
As Universidades deram o passo inicial, a Puc de Minas
Gerais, a UERJ no Rio de Janeiro. Já existem
Universidades indígenas.
Finalizando,
a OIT (Organização Internacional do Trabalho)
denunciou que existem cerca de 502.000 crianças, a
maioria negra, trabalhando como empregadas domésticas,
algumas delas tinha 05 anos quando começaram a
trabalhar. A população indigente no Brasil é de 22
milhões, dos quais 15.4 milhões são negros e pardos.
Nesses pardos estão incluídos os indígenas
desaldeados.
Invisíveis
são as mulheres indígenas que parcerizaram sexualmente
com pobres nordestinos que foram, no passado, trabalhar
nos seringais da Amazônia, desestruturando suas vidas e
culturas, constituindo hoje a população amazônica.
Invisíveis são as mulheres indígenas que pelo racismo
ambiental precisam
exilar-se e serem empurradas para os grandes centros
urbanos como Manaus, Belém, S.Luis, Recife etc...
para servirem de mão-de-obra barata ou gratuita.
Invisíveis são nossos ancestrais que são objetos do
racismo institucional e quando surgem na mídia são
alvo de chacotas. Invisíveis são nossas mães e avós
indígenas que até hoje esperam
justiça. Por todos esses motivos, as Ações
Afirmativas, no mínimo, ainda não pagam o sangue
derramado neste país, apesar de grandes iniciativas,
mas a luta continua. Obrigada.
UNIVERSIDADE
FEDERAL DE PERNAMBUCO
Encontro
Regional de Estudantes de Ciências Sociais
Mesa
Redonda: Minorias,
exclusão social e ação afirmativa
Data:
Recife, 17 a 20 de abril de 2003/BRASIL
Discurso
de: ELIANE
POTIGUARA
“O
maior preconceito é o da indiferença”
Prof. Silvia Cortes, Dra. em História/UFPE
POVOS
INDÍGENAS: ética, cooperação e diálogo
1-
Origem dos povos tradicionais X ação acumulativa
A
origem dos povos tradicionais das chamadas Américas
continua ainda a ser pesquisada pela ciência.Mas
o que se sabe, é que os povos indígenas
habitavam esse grande continente, muitos séculos antes
de sua invasão pelos europeus.
Antes
de 1500, no Brasil, os povos tradicionais somavam 5
milhões contextualizados em 900 nações. Hoje, com seu
extermínio pelos invasores e usurpadores, foram
reduzidos a 540 mil em 206 nações.
As
antigas civilizações indígenas como Maias, Aztecas,
Quechuas que valorizavam o culto à fertilidade, a
veneração à Mãe-Terra,
as divindades femininas e seguiam o calendário
lunar, possuíam alto sentimento de ética, cooperação
e diálogo.
Com
o advento da propriedade privada,
da concepção da individualização, da
supervalorização do materialismo e da moeda, os povos
tradicionais Iroqueses das Américas, por exemplo,
tiveram suas vidas e culturas ceifadas, obrigando-se a
transformar seu modo de vida ao conhecerem a
acumulação de bens materiais, produtos, metais, etc...
Nesse momento deixou de prevalecer o regime matriarcal e
o domínio patriarcal se impôs às culturas
tradicionais, perdurando até os dias de hoje.
O
homem invasor impõe então seus valores aos povos
tradicionais: acumulava dinheiro e bens, tornava-se
patrão e o sistema era garantido através das
gerações a partir do nome e sobre-nome. As divindades
femininas são substituídas pelas masculinas. A mulher,
antes homenageada, politicamente bem definida na
sociedade, passa a trabalhar junto à família para o
dono do capital. A família( do latim familus= que quer
dizer também escravo, segundo Engels) torna-se
literalmente escrava, subordinada e dominada pelo poder
paternalista, trabalhando braçalmente para o aumento do
capital, gerando inclusive mais valia
a esse tipo de desenvolvimento, que só favorecia
aos donos do dinheiro, enquanto os trabalhadores ou
escravos permaneciam mais pobres e enfermos, como hoje.
Ali, se dá também a mescla de povos.
Neste
contexto, o mundo antigo impõe uma relação de
desigualdade entre os seres humanos. O conceito de
coletividade associado à cooperação perde sua base
diante da
concepção do eu individual. A verdadeira ética humana
é perdida. O desrespeito se impõe e os mais profundos
valores como espiritualidade, o amor, solidariedade,
cooperação, “paz natural verdadeiramente
tranqüila” ( a que
não se contrapõe à guerra), diálogo sem imposição
são desvalorizados.
Nas
sociedades tradicionais o sentido de terra era coletivo,
enquanto no sistema patriarcal
era de propriedade privada. A economia de
subsistência deu lugar à economia acumulativa. A
sociedade indígena com concepções igualitárias se
opõe a criada sociedade discriminatória inclusive
racialmente, diante da imponência da “suposta
universalidade humana branca e ocidental”, existente
até hoje.
Os
povos tradicionais que cultuavam a vida, a natureza e o
Criador enfrentam então a ação predatória do novo
mundo.
Mas
minha pele como ficou com tudo isso?
“Minha
pele estava seca pelas vicissitudes da vida. Eu
mergulhei nas profundezas dos
mares e reencontrei com minha avó-foca, com
minhas sagradas ancestrais e os velhos guerreiros que
também não se envergonhavam por suas lágrimas.
Elas_ sabiamente_ me contestaram e me mostraram
que eu, inconsciente e pacificamente, aceitava os
padrões éticos impostos pela intolerância da
sociedade , e voltei com minha alma fortalecida,
voltei com meus
sonhos definidos, voltei com minha
intuição extremamente clara, precisa,
determinada. Minhas costelas não estão mais
descarnadas, a carne voltou a
crescer depois que os homens derramaram suas
lágrimas pelas mulheres do mundo e eu não sou mais
uma mulher esqueleto, jogada ao fundo do mar, como se
fora um sapato velho, pela cultura impostora.Sou uma
mulher de fibra, porque eu me
reconstruí por mim mesma, depois de dançar
desvairadamente na vida com meu iludido
sapatinho vermelho.Quase perdi os meus pés, as
ervas daninhas enrolaram neles pra que nunca mais
caminhasse pelas estradas do saber, da consciência e
do mais alto grau da espiritualidade indígena, mas
pude dominá-los e arrancar
esses malditos sapatinhos vermelhos das
chamadas “MULHERES E MÃES
BOAS-DEMAIS"!!!!!! que
por serem assim, vivem sufocadas pelo peso da
história e da opressão e quando vislumbram uma
“semiliberdade", uma ilusão,
a pseudoliberdade, se perdem
nos terríveis sapatinhos vermelhos da cultura
falsamente iluminada, que escamoteia o poder, o
preconceito, o racismo. Meu ego , não pode ser mais
forte que minha alma. Minha alma é ancestral, meu ego
não pode dominar minha verdadeira história. (...) .
”(Trecho
do texto “Pele de foca” de Eliane Potiguara,
inspirado no livro ‘Mulheres que correm com os lobos
de Clarissa Pinkola Estes)
As
desigualdades no amor entre o homem e a mulher se
acirram também a partir da nova concepção
predatória. E as mulheres trabalharam incessantemente
séculos e séculos na categoria de
diferença, para atingir o estágio atual. Dentro
desse raciocínio expandimos a análise sobre
desigualdade para as categorias, raças, etnias,
culturas, religiões,orientação sexual, condições
físicas, classe social e idade. Essas diferenças
são motivos de desigualdades, o que deveria ser de
apreço para a sociedade em geral e
de
orgulho.
2-
O DIREITO À IMAGEM POSITIVA NA SOCIEDADE:
CONSTRUÇÃO DA AUTO- ESTIMA
Os
que se consideram erroneamente superiores por
assimilar padrões preponderantes, perpetuam
essa dominação, assim como aqueles que também se
consideram inferiores. Conceitos dominantes como
louro, olhos azuis, forte, normal, capaz, e outros, se
contrapõem e se chocam a diversos padrões
minimizados na sociedade, como feio, negro, fraco,
deficiente físico, indígena, mulher, macumbeiro,
feiticeira, assim por diante. Urge desconstruir esses
conceitos.
Esses
estereótipos que se opõem , na realidade, nos levam
à discriminação, ao preconceito e à intolerância.
A discriminação social e racial conduz a sociedade a
compartir má qualidade de vida, desigualdades de
oportunidades de trabalho, de estudo e de
participação social, contribuindo com o indivíduo a
construir uma auto-imagem depreciativa que o impede de
crescer no patamar social. Permanecemos no porão da
vida e temos que subir para terraço e vislumbrar quem
somos!!!! Minha avó indígena, com grandes peitos e
olhos apertados, todos os dias permanecia do lado de
fora das grades quando eu ia à escola primária. Os
alunos sabiam que ela era minha avó e debochavam de
mim, me chamando de índia e perguntavam porque vovó
permanecia ali idiota e estática. Era porque vovó
sentia-se orgulhosa da neta estudante e temia que algo
de ruim acontecesse, por isso perdia seu tempo do lado
de fora da escola, tentando desesperadamente me fazer
crescer para que eu pudesse ser uma professora. Depois
ela ia vender bananas.... E eu tinha vergonha... Eu
tinha vergonha porque vivia num gueto indígena, eu
tinha vergonha porque minha educação não era
diferenciada como deveria ser. Eu tinha vergonha
porque nas horas que não estava na escola, estava
presa literalmente num quarto para que eu não visse a
miséria do gueto onde vivia, para que eu só
assimilasse a energia, a cultura e a
espiritualidade que vinha das mulheres guerreiras da
minha pequena e extinta família indígena.Por isso
não conheci a infância e a adolescência.
Bem,
como já sabemos todos nós temos somente uma raça :
a humana. Mas mesmo assim, no sentido político, o
mundo está dividido mesmo em raças: negros, brancos,
amarelos, etc... Ou no sentido político-religioso, o
mundo está dividido em milhares de segmentos como por
exemplo, judeus, muçulmanos, católicos,
protestantes, budistas, etc...
A
compreensão entre os seres humanos para que seja
efetiva não deve passar pelo juízo de valor, pelo
julgamento irresponsável, pelas críticas
destrutivas, e por esses gritantes contrastes. A falta
de ética conduz o indivíduo a interpretações
tendenciosas de conceitos. Como vimos a falta de
ética humana, a falta de cooperação, a não
solidariedade e a falta da paz, a guerra, foram
geradas num passado muito distante. Urge uma mudança
de consciência do ser humano para que ele possa
compreender que todos os seres humanos são iguais,
independentes de cor, religião e a chamada e imposta
raça.
A
diversidade racial e étnica, a diversidade social e
cultural, a diversidade de crenças e filosofias não
podem ser vistas como barreiras, “muros de
Berlim”, guetos de Soweto, obstáculos
incomensuráveis. Essa diversidade deve ser vista como
características para construção de um mundo novo,
onde nessa DIVERSIDADE SE ENCONTRE A UNIDADE, e onde o
respeito, a cooperação e a ética humana imperem no
contexto de todas as características humanas
diversas. Mas para chegar-se aí muito trabalho
precisa ser feito.Grupos por todo o mundo devem
articular-se por esse objetivo. As mulheres já deram
o primeiro passo, sendo assim o conceito de ações
afirmativas para elas, torna-se mais compreensível
para a sociedade.
Durante
séculos a imagem dos povos oprimidos
social e racialmente são configuradas de forma
menor, pejorativa, inferiorizada, e conseqüentemente
racializada. O racismo existe porque existe o poder, o
capital, o medo... Quem sofre e quem sofreu o racismo
nos últimos séculos? Quem perdeu terras, vidas,
culturas, tradições espirituais? Quem ganha com o
racismo?Quem participa constantemente da mídia
televisiva, quem possui oportunidades de empregos
e de estudo? Quem cresce economicamente no
mundo? Quem mais ocupa postos no parlamento
brasileiro?Quem possui carros, bens de consumo de
qualidade? Quantos indígenas chegam às
universidades? Quantos negros atingem o topo do
mundo?Quanto capital chega para as Ongs indígenas e
negras? E complementando o raciocínio da Prof. da
Universidade de Pernambuco, a Dra. Silvia Cortes :
Quando a “Casa Grande e Senzala” vai deixar de ser
um navio ancorado em terra????
É
hora de nós, povos indígenas e todas as DIVERSIDADES
construirmos um mundo possível, resgatarmos nossas
histórias, reconstruirmos nossas vidas e
reconstruirmos nossa auto-estima que esteve por
séculos jogadas na lama ou no porão da sociedade. A
sociedade anestesiada, condicionada aos padrões
dominantes, precisa compreender isso. Urge uma
Campanha. A mídia, a escola, a Universidade são
alguns caminhos. Isso é apenas um começo.
A
Educação é um caminho extremamente importante para
a formação da hereditariedade, da sociedade e do eu
superior: a mente humana. As políticas públicas
devem, sem temor, investir nessa bandeira.
As
Ações Afirmativas são políticas públicas
compensatórias e temporais para promover igualdade
dos grupos vulneráveis. Num futuro não serão mais
preciso essas ações, pois atingiremos à democracia
racial verdadeiramente real. Elas existem para
combater desigualdades sociais e podem se ampliar para
vários setores como: saúde, educação, habitação,
eletricidade, água potável, meio-ambiente, igualdade
e oportunidade de emprego, além de atingir aos
serviços judiciários, executivos, reformas
eleitorais, reforma agrária, etc... Para isso é
imprescindível uma estrutura de peso para implementar
essa política e que tenha orçamento próprio,
autonomia, recursos humanos altamente capacitados,
campanhas de massa na mídia de
conscientização do povo, para que não caia no
descrédito e na crítica infundada e irresponsável,
que prejudicam e distorcem os reais objetivos da luta
contra as desigualdades social e racial. As
Universidades deram o passo inicial, a Puc de Minas
Gerais, a UERJ no Rio de Janeiro. Já existem
Universidades indígenas.
Esperamos
que a Universidade Federal de Pernambuco possa iniciar
um processo de compreensão e permitir que a
intolerância não venha a destruir passos
revolucionários na construção de uma Universidade
mais democrática. Vamos acreditar nesse processo,
reconhecendo que a única confiança necessária é a
de saber que, quando ocorre um final, um novo começo
está alvorecendo. Deixemos somente para a natureza as
dualidades do frio e calor, do sol e da chuva, do
temporal e na bonança, do verde e do maduro, dos
vegetai e dos animais, da lua e do sol, da morte e da
vida. A natureza é sábia, não cria conceitos
dominantes sobre as diversidades naturais da
existência, bem equilibradas pela natureza. Por isso
o poder, a indústria bélica (química, nuclear,
biológica, armamentícia), o dinheiro e a
informação não podem opor brancos, negros,
indígenas, mulheres, religiões, culturas,
deficientes, homossexuais, etc... Aos olhos do Grande
espírito Criador e da Mãe-Terra somos todos iguais
quando sabemos empreender a ética, a cooperação, o
diálogo e a cultura da paz, conceitos perdidos desde
a época das grandes civilizações indígenas. Nessa
reflexão, sem preconceitos, podemos fazer avançar a
roda da história e os invisíveis,” intocáveis ”
deixarão de ser tratados com indiferença, a
conceituação política que mais mata.
CONGRESSO
NACIONAL
COMISSÃO
DE EDUCAÇÃO CULTURA E DESPORTOS
AUDIÊNCIA
PÚBLICA/25 DE SETEMBRO/2003 /ANEXO II/PLENÁRIO
X/Brasília
TEMA:
“A INCLUSÃO
DOS POVOS INDÍGENAS NA SOCIEDADE DE
INFORMAÇÃO”
EXPOSITORA:
ELIANE POTIGUARA/Grumin/Rede
de Comunicação Indígena
Povos
indígenas sempre estiveram à margem dos padrões
culturais brasileiros, pela intolerância e
discriminação social e racial da cultura dominante
que obviamente estabelece as regras da informação e
comunicação.
Num
passado próximo, quando
Povos Indígenas do Pará se levantaram contra
a hidrelétrica de Kararaô ou quando no presente,
líderes promovem,
mesmo de forma precária,
informações em rádios, vídeos, TVs
Comunitárias, contrapondo às aldeias globais
ou ainda quando criam cartilhas de alfabetização na
língua materna, ou quando criam sites para promover
a cura de doenças ou comerciar a venda do
Guaraná, por exemplo, o fazem numa tentativa de sair
da invisibilidade cultural, objetivando a
tonificação daquele povo ou cultura, e no objetivo
de expressar-se, seja na luta pelos direitos humanos
ou trazer à luz do conhecimento oficial, científico,
acadêmico e religioso a sua contribuição na
história, enfim o seu conhecimento tradicional, na
realidade sua propriedade intelectual. Isso precisa
ser respeitado e ampliado!
Quando
as parteiras indígenas bloqueiam os programas de
esterilização de mulheres, quando os pajés e
curandeiros se reúnem nas montanhas, ou quando
líderes interceptam estradas na defesa de suas
terras, o fazem para defenderem suas tradições e
meio-ambiente respectivamente. Isso é voz!...
Quando
indígenas criam grupos de dança, grupo de teatro,
coral infantil, promovem imprensa escrita na Internet,
promovem a literatura indígena, o fazem no objetivo
pleno de difundir informações e comunicações que
não conseguem, devido à desvalorização dessa
cultura milenar, que por questões históricas,
éticas, precisa finalmente ser reconhecida e
respeitada na prática e porque não também, ser
atendida por uma política compensatória, através de
ações afirmativas, implantadas nas políticas
públicas.
Todas
essas variantes fazem parte da cultura indígena e
estão interligadas numa única cosmologia: o
território ancestral, o espaço ético, mítico,
místico, mágico e sagrado da ancestralidade
fortalecidos pelos anciãos e anciãs e perpetuados
pelos jovens, através da educação informal e
natural, reforçados pela educação formal, daí a
importância também da criação de uma Universidade
Indígena, para atender a uma educação diferenciada.
Essa visão indígena é uma grande contribuição de
vida para a sociedade brasileira que precisa ser
estimulada para um respeito à diversidade cultural,
onde a cultura indígena seja também um expoente.
A
sociedade de informação e comunicação é um
segmento altamente importante para a difusão da
cultura indígena.. No entanto, sabemos
que as tecnologias avançadas não fazem parte
da tradicionalidade indígena.
Mas,
vejamos esse exemplo: A
International Indian Treaty Council, Conselho
Internacional de T |