
Quantas
vezes as lavas dos vulcões incandescentes escorreram
pelas costas das montanhas, ardendo passados dando
lugar a uma nova e magnífica natureza?
Quantas
vezes os rodamoinhos e ventanias eclodiram no espaço,
purificando os suaves e mornos ventos?
Quantas
vezes os revoltos mares e trovões angustiantes
desabrocharam nas puras ondas mágicas, levando o
barco dos apaixonados?
É
preciso observar a natureza, compará-la à essência
humana para a conquista da PAZ.
A
PAZ é conquistada porque é um ato político de
compreensão e acordada entra as partes. A PAZ só
existe porque existe a turbulência. A condição para
se ter PAZ é observar e respeitar o ciclo da natureza
e observar a dialética da própria vida. A PAZ,
quando conquistada, é sinônimo de respeito, de
cumplicidade, de solidariedade, enfim... de amor. O
Estado da Paz é a última etapa de um ciclo pós
–guerra, seja essa guerra qual for. A PAZ é lutada,
enfim, a PAZ é conquistada.
E quando
se atinge esse nível, o respeito e sabedoria são
eternos!
Texto de
ELIANE POTIGUARA
Que
faço com a minha cara de índia ?
E
meus cabelos
E minhas rugas
E minha história
E meus segredos ?
Que
faço com a minha cara de índia ?
E
meus espíritos
E minha força
E meu Tupã
E meus círculos ?
Que
faço com a minha cara de índia ?
E
meu Toré
E meu sagrado
E meus "cabôcos"
E minha Terra
Que
faço com a minha cara de índia ?
E
meu sangue
E minha consciência
E minha luta
E nossos filhos ?
Brasil,
o que faço com a minha cara de índia ?
Não
sou violência
Ou estupro
Eu sou história
Eu sou cunhã
Barriga brasileira
Ventre sagrado
Povo brasileiro
Ventre que gerou
O povo brasileiro
Hoje está só ...
A barriga da mãe fecunda
E os cânticos que outrora cantava
Hoje são gritos de guerra
Contra o massacre imundo
Eliane
Potiguara
Textos do livro “METADE CARA, METADE MÁSCARA”
Global editora

Parem de podar as minhas folhas e tirar a minha enxada
Basta de afogar as minhas crenças e torar minha raiz.
Cessem de arrancar os meus pulmões e sufocar minha
razão
Chega de matar minhas cantigas e calar a minha voz.
Não se seca a raiz de quem tem sementes
Espalhadas pela terra pra brotar.
Não se apaga dos avós - rica memória
Veia ancestral: rituais pra se lembrar
Não se aparam largas asas
Que o céu é liberdade
E a fé é encontra-la.
Rogai por nós, meu pai-Xamã
Pra que o espírito ruim da mata
Não provoque a fraqueza, a miséria e a morte.
Rogai por nós - terra nossa mãe
Pra que essas roupas rotas
E esses homens maus
Se acabem ao toque dos maracás.
Afastai-nos das desgraças, da cachaça e da discórdia,
Ajudai a unidade entre as nações.
Alumiai homens, mulheres e crianças,
Apagai entre os fortes a inveja e a ingratidão.
Dai-nos luz, fé, a vida nas pajelanças,
Evitai, Ó Tupã, a violência e a matança.
Num lugar sagrado junto ao igarapé.
Nas noites de lua cheia, ó MARÇAL, chamai
Os espíritos das rochas pra dançarmos o Toré.
Trazei-nos nas festas da mandioca e pajés
Uma resistência de vida
Após bebermos nossa chicha com fé.
Rogai por nós, ave-dos-céus
Pra que venham onças, caititus, siriemas e capivaras
Cingir rios Juruena, São Francisco ou Paraná.
Cingir até os mares do Atlântico
Porque pacíficos somos, no entanto.
Mostrai nosso caminho feito boto
Alumiai pro futuro nossa estrela.
Ajudai a tocar as flautas mágicas
Pra vos cantar uma cantiga de oferenda
Ou dançar num ritual Iamaká.
Rogai por nós, ave-Xamã
No Nordeste, no Sul toda manhã.
No Amazonas, agreste ou no coração da cunhã.
Rogai por nós, araras, pintados ou tatus,
Vinde em nosso encontro
Meu Deus, NHENDIRU !
Fazei feliz nossa mintã
Que de barrigas índias vão renascer.
Dai-nos cada dia de esperança
Porque só pedimos terra e paz
Pra nossas pobres - essa ricas crianças.
*Nhéndiru:
Deus
*Mintã: criança
*Boto: um mamífero que mostra o caminho
Eliane Potiguara
Textos do livro “METADE CARA, METADE MÁSCARA”
Global editora